Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Sexta-feira, Setembro 17, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Entrevista | À mesa com… Vasco Estrela

Lançámos o convite para nos sentarmos à mesa com Vasco Estrela e o presidente da Câmara Municipal de Mação aceitou. O local escolhido foi o restaurante “O Bigodes”, na freguesia ribeirinha de Ortiga e, como não podia deixar de ser, o rio Tejo e a cultura piscatória marcaram presença num almoço transformado numa viagem pela infância, pelas recordações da adolescência, pelos desafios, angústias e oportunidades que Mação tem pela frente, e ainda pela constituição de família e pelo curso de advocacia, cuja atividade entretanto suspendeu para servir a causa pública.

- Publicidade -

Presidente da Câmara de Mação desde 2013 e Provedor da Santa Casa da Misericórdia local, Vasco Estrela, 45 anos, casado e pai de 3 filhos, chegou ao local combinado às 12h30, com uma pontualidade britânica, ao volante de um modesto carro Ford, e cujo ano de construção não conseguimos descortinar. Simples e afável, Vasco Estrela sentou-se à mesa e deixou-se conduzir pela mestria do ‘chef’ do restaurante, Zé dos Bigodes, e por uma conversa franca, aberta, e reveladora de pormenores desconhecidos pela maioria das pessoas.

Vasco Estrela é presidente do município de Mação desde 2013. Foto: mediotejo.net

- Publicidade -

Ao nosso convidado foi servida uma costeleta de novilho que mal cabia numa travessa de boas dimensões, que acompanhou com migas e açorda, água e coca-cola, isto depois de entradas onde pontuavam os enchidos e os presuntos de Mação, servidos em lascas finas. “O senhor presidente ontem comeu uma fataça e hoje deve comer carne”, alvitrou o mestre do restaurante, conhecedor dos hábitos dos seus bons clientes. Para sobremesa selecionou um doce de manga. Pela nossa parte, junto ao rio, apontámos ao peixe, fresquíssimo, uma fataça gigante que extravasava toda uma travessa. Estava dado o mote para dois dedos de uma agradável conversa.

mediotejo.net – Porque escolheu o restaurante ‘Bigodes’, nesta freguesia ribeirinha de Ortiga?

Vasco Estrela – É um restaurante agradável, com uma decoração pitoresca, com uma história muito rica ligada à história e à tradição e de uma freguesia com grande reputação ao nível piscatório e da gastronomia. A publicidade negativa sobre os episódios de poluição do Tejo têm afetado economicamente a economia local e a resposta tem de ser ao nível da qualidade e da excelência do serviço, mantendo a tradição, como o festival da lampreia, que a autarquia ajuda a promover todos os anos. Até a central de Almaraz cria ruído em torno do Tejo e nada disto ajuda a centrar o foco no essencial, que é a de atrair ao rio as pessoas e os turistas, e potenciar esta riqueza que aqui temos.

É aqui que a autarquia vai apostar na criação de um Museu das Tradições ligadas ao rio, aos pescadores e calafates?

Sim, é um espaço que vai estar muito ligado às tradições de Ortiga e do concelho de Mação. É um equipamento que esperamos possa fazer reviver esta realidade e seja um ponto de interesse para visitar e promover o concelho, quer os turistas que estão no parque de campismo ou que nos visitam durante todo o ano ou durante o festival da lampreia. Vai ser interativo, e queremos também recuperar as margens ribeirinhas do Tejo, ao longo de 9 km aqui em Ortiga, e permitir visitas ao rio, às pesqueiras e aos barcos picaretos, construídos pelo mestre Ti Fontes.

Vinha tomar banho para o Tejo na sua infância?

Nunca fui alguém que tirou muito partido do rio, quer para andar de barco ou ir à pesca, mas tenho memória de participar num concurso de pesca e que venci. Ainda tenho lá a taça. Éramos só dois a concorrer, o peixe pescado era o mesmo, em termos de peso, e ganhei por sorteio. Foi sorte de principiante. Hoje não vou à pesca. Lembro-me também de passar muitas tardes de domingo com o meu pai e com os seus muitos amigos aqui em Ortiga, numa casa junto à estação.

A caça também é importante em termos gastronómicos?

Sim, nas freguesias mais a norte mas também aqui em Ortiga, existe a caça ao javali, também um produto que entra na carta gastronómica do concelho de Mação [o livro “À Mesa em Mação” foi encomendado pela autarquia ao investigador e gastrónomo Armando Fernandes, sendo premiado internacionalmente]  e que pensamos pode ser mais um fator gerador de riqueza, de diferenciação e desenvolvimento.

Tem irmãos?

Sim, tenho uma irmã mais velha, quatro anos. Dou-me muito bem com ela. Quando éramos mais pequenos eu tinha a mania que era o polícia dela. Eu era a senha para sairmos de casa e para ir para os bailes mais cedo. Ela sofreu um bocadinho comigo. Mas damo-nos muito bem e temos uma excelente relação.

Estudou sempre em Mação, até ir para a universidade? Como foi a sua infância?

Estudei sempre em Mação, até ao 9º ano. Em Abrantes fiz o 10º e o 11º. Depois voltei a Mação onde fiz o 12º ano. Depois fui para Lisboa tirar o curso de Direito. Foi uma infância normal, diferente da infância que vejo hoje os meus filhos a ter. Não havia telemóveis mas havia muitos jogos de futebol, andar de bicicleta, berlinde e pião. Diferente do que é hoje. Foi um tempo bom, fui feliz e fiz aquilo que era suposto os adolescentes de Mação fazerem na altura. Ainda fiz uma pequena incursão na música mas rapidamente me desenganaram. Tentei tocar guitarra mas não resultou. Disseram que não tinha jeito para a música. Fui escuteiro, bombeiro a partir dos 16 anos, joguei futebol em Mação e andebol nos Patos [em Rossio] e também namorei. A minha mulher é natural de Penhascoso mas a aproximação só se deu em Lisboa, quando estávamos na faculdade. A advocacia sempre foi algo que me despertou interesse e dava algum gozo. Lembro-me de ser miúdo e de ir ver os julgamentos que havia em Mação. Sempre tive curiosidade e foi por ali que segui. Depois de estagiar e trabalhar em Lisboa, vim para Mação, em 2002, a convite de Saldanha Rocha, antigo presidente da autarquia. A minha mãe é professora primária e o meu pai era bancário. Faleceu no 1º ano que fui para Lisboa, em 1990. Entrei em setembro e ele faleceu em outubro. Foi muito difícil, embora tenha sempre convivido com a doença renal de que padecia. Fazia hemodiálise em Lisboa três vezes por semana, ia sozinho, de carro, e as tentativas de transplantes nunca correram bem. Foi um momento difícil, mas as coisas já passaram e continuamos a viver.

“A minha infância foi diferente da infância que vejo hoje os meus filhos a ter. Não havia telemóveis mas havia muitos jogos de futebol, andar de bicicleta, berlinde e pião. Foi um tempo bom, fui feliz.”

Porque aceitou vir para Mação e suspender o exercício da advocacia?

Sempre mantive a minha ligação à terra, vinha cá quase todos os fins de semana quando estudava em Lisboa. Quando Saldanha Rocha me convidou para assessor dele, eu vim e as coisas foram andando. Acabei por casar em Mação. Pelo gosto pela terra, pelo percurso político na JSD, sempre tive o bichinho da política e da ação cívica, e sempre me despertou essa possibilidade. Em termos jurídicos não era compatível exercer as duas funções e, a partir daí, dediquei-me só à Câmara. A minha mulher está a exercer há 18 anos e tem andado de lado para lado. No ano passado estava em Salvaterra de Magos e pode ser que este ano entre para o quadro. O curso de direito também me forneceu conhecimentos e ensinamentos úteis para o exercício da política. Também fiz rádio, na Rádio Voz de Mação, um programa de desporto e outro ao domingo à noite, era a “Voz do Sonho”, tipo Oceano Pacífico, música dos anos 60 e 70. Como a rádio não tinha dinheiro passávamos os discos que o Norberto Conde e o Zé Gigante tinham em casa. E levava também os discos do meu pai. Hoje como passatempo acompanho os jogos de futebol dos meus filhos mas não tenho tempo para muito mais devido à abrangência dos assuntos a tratar e das imensas solicitações. O telefone está sempre ligado e esta vida consome-nos muito tempo. Mas não me queixo, porque ninguém me pediu para estar aqui, e se o faço é porque gosto e porque quero. Claro que gostaria de passar mais tempo com a família mas também vamos tendo tempo para nós. Sou também presidente da Assembleia-Geral da Associação Desportiva de Mação e Provedor da Misericórdia. A Misericórdia tem perto de uma centena de trabalhadores e a Câmara Municipal quase 200 funcionários.

E como é o dia a dia do Vasco Estrela?

Acordo por volta das 7h30, os meus filhos têm 13, 9, e 8 anos, estudam em Mação, e a vida em casa começa cedo. A essa hora já a minha mulher saiu ou está para sair, este ano para Ponte de Sor. E depois organizo ali o caos, do vestir, das mochilas, de tomar o pequeno-almoço, e depois vou levá-los à escola. Como entram às 9h00, eu sigo para a Câmara. Se no final consigo ir buscá-los, recorremos à avó deles, à minha irmã e cunhado, ou aos meus sogros. Têm todos ajudado bastante. No fim de semana também tenho sempre muitos compromissos porque sei muito bem quais são as minhas responsabilidades, qual a missão que tenho a desempenhar e aquilo que as pessoas esperam de mim. Não posso defraudar as pessoas, não posso desligar o telefone, e este cargo implica estar sempre presente e falar com as pessoas. E, claro, implica que a família passe sacrifícios.

Como explica que o PSD tenha sempre sido o partido chamado a governar Mação?

É sinal que as pessoas reconheceram as três pessoas que foram chamadas a governar o concelho até agora tinham as melhores condições para o fazer. As coisas não acontecem por acaso e no PSD temos tido uma vantagem que é ter sabido, em cada um dos momentos, e depois de escolhido os nomes, estamos todos unidos e não trabalharmos a contra-vapor. Há um conjunto de infraestruturas que está feito e estabilizado e hoje estou confrontado com desafios diferentes. Um deles é ao nível da descentralização das competências para as autarquias locais. Outro ponto importante, é o dar um cunho de aproximação e de motor nas áreas empresariais e associativas, mas sem a Câmara se substituir a ninguém. Sermos o motor, o parceiro indutor de apoios à realização e investimento. Outro ponto é o da fixação de pessoas, sendo um passo que considero importante é a criação de um ninho de empresas, para estimular o setor, criando riqueza e emprego, assim como ao nível dos nossos recursos naturais e da floresta. Por outro lado, quero estar sempre ao pé das pessoas. É importante que as pessoas me vejam como um deles, uma pessoa próxima e sempre pronta a ouvir, discutir e trabalhar com todos. O problema mais complicado é o da desertificação, um problema que é nacional mas que ainda há quem pense que um município o pode resolver sozinho. É preciso que as pessoas com responsabilidade pensem o que querem deste país daqui a 10, 15, 20 anos. É bom que sejamos verdadeiros e sérios porque temos de dizer às pessoas que daqui a 9, 10 anos, a continuar a este ritmo, vamos ter um país irrecuperável em termos de coesão territorial. Acho que todos estão a ver este problemas mas que muitos tentam fazer de conta que ele não existe.

É preciso que as pessoas com responsabilidade pensem no que querem deste país daqui a 10, 15, 20 anos. É bom que sejamos verdadeiros e sérios porque temos de dizer às pessoas que daqui a 9, 10 anos, a continuarmos a este ritmo, vamos ter um país irrecuperável em termos de coesão territorial.

Qual a maior satisfação que teve, desde 2013, e enquanto presidente de Câmara?

A resolução de um diferendo que existia com a Estradas de Portugal relativamente à gestão e responsabilidade de manutenção de diversas estradas no concelho. Um problema que vinha desde 2000 e que passou algo despercebido. Ficou resolvido em 2014. Foi resolvido a nosso favor e isso implica centenas de milhares de euros a favor de Mação.

Alguma vez se sentiu injustiçado no desempenho do seu cargo?

A política é injusta. Há muitas vezes incompreensão da nossa ação e sinto-me por vezes injustiçado com abordagens que acho injustas. Por vezes sinto-me triste quando me fazem uma pessoa diferente daquela que eu sou. Fico triste quando me põem rótulos e quando dizem que somos todos uns malfeitores, mas não é isso que me derruba. Fico triste mas é algo que faz parte. Sobre o futuro, temos projetos estruturantes em curso, temos 1,3 milhão de euros de PARU para executar, o Centro de Atividades Ocupacionais, um projeto importante com o CRIA em termos de criação de um lar para pessoas com deficiência, os projetos ligados ao rio e às margens do rio, os núcleos museológicos de Envendos e Ortiga, a reabilitação do Museu de Mação, e a valorização do território, sendo importante o criar de uma nova paisagem no nosso território, potenciando a riqueza e os fatores endógenos de Mação.

Por fim, um brinde! A que brinda o presidente da Câmara de Mação?

Quero brindar a todos os maçaenses. É justo que o faça, por tudo o que me ajudaram ao longo destes três anos e por tudo o que têm feito e possam vir a fazer por Mação. Só unidos conseguimos fazer um concelho melhor e o que peço é que me continuem a ajudar.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome