Entrevista: À mesa com… Paulo Fonseca

Paulo Fonseca. Foto: mediotejo.net

Não há nada melhor que um bom vinho maduro. Depois o peixe – enorme! – e apenas a cabeça. Sem pruridos ou receios de etiqueta. À mesa com Paulo Fonseca, o presidente da Câmara de Ourém nos últimos sete anos, acabamos inesperadamente a debater filosofia política. Confessa que não cozinha, mas vai improvisando quando precisa. Chegou inclusive a ser dono de um restaurante. O presidente das redes sociais e da internacionalização termina a brindar à “lucidez”, no espírito iluminista com que conduz a conversa: “Não concordo com o que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo.”

PUB

Desde o momento em que ganhou a autarquia, em 2009, acentuaram-se os cabelos brancos. É o presidente que desperta paixões e ódios, que vai aos EUA, Brasil, Turquia ou Alemanha promover o concelho, receber medalhas ou assinar geminações quase sem se dar pela sua ausência. E é difícil marcar uma entrevista com quem não pára, na azáfama da vida autárquica, sempre na alçada de uma qualquer decisão. Mas lá se combina – uma quinta-feira, no restaurante O Rito, no Alqueidão – numa tarde de calor, perto das 13 horas. Quando chega pede uma aspirina ao empregado de mesa, confessando que não tomou o pequeno almoço.

Foi bancário e Governador Civil de Santarém, entre outros cargos políticos. Faz em grande parte a sua própria assessoria, escrevendo na sua página de Facebook as suas ideias, os seus poemas, o intuito das suas viagens profissionais e até algumas querelas políticas que não quer deixar sem resposta. Não adianta se é candidato para 2017 e mantém a reserva quanto à insolvência que quase lhe roubou o mandato.

PUB

Pede garoupa cozida, a cabeça, e garante que, mau grado o aspeto, é um pitéu. Acompanha arroz de grelos, falamos de boa cozinha e lembra-se da mãe, uma cozinheira de mão cheia que faz dos melhores cabritos que se pode comer. Um copo de vinho branco e água fresca. Para sobremesa, fruta.

foto mediotejo.net
Foto: mediotejo.net

A conversa alonga-se. Cita-se Voltaire, debate-se a esquerda e a direita políticas (aquelas que começaram na Revolução Francesa e evoluíram para algo um tanto distante) e discute-se o liberalismo selvagem.

PUB

Paulo Fonseca transpira política e é, sem dúvida, um grande orador. Não se inibe nem se retrai. Mas não revela o que pensa fazer quando o lugar de presidente deixar de lhe pertencer.

Dada a extensão de muitas respostas, o mediotejo.net optou por condensar algumas ideias entre parêntesis, de forma a não se perder a linha de raciocínio que conduziu a muitas perguntas fora da lista inicial.

(Depois de breve conversa sobre vinho, na escolha das bebidas). É defensor daquela máxima que um copo de vinho do Porto todos os dias prolonga a vida?

Eu não gosto muito de vinho do Porto, é licoroso. Vinho maduro! Eu acho que um copo de vinho maduro tinto todos os dias se calhar prolonga a vida. Porque o vinho tem qualidades terapêuticas, é um produto genuinamente português e nós temos dos melhores vinhos do mundo, aqui no concelho também. Ainda agora a Quinta do Montalto ganhou mais umas medalhas internacionais na área dos vinhos biológicos, mas é um bom exemplo da qualidade que temos. Acho que devemos cultivar isso.

É apreciador de peixe por alguma razão em particular? Há presidentes que procuram o peixe devido à rotina dos restaurantes, menos saudável…

Pode ser instintivo, nunca tinha pensado nisso. Eu pensava, e admito que agora mude de opinião depois desta pergunta (risos), mas eu pensava que tinha a ver com a idade. A gente olha para os mais novos, para os nossos filhos, e vemos-los só a comer ou a desejar comer comidas de plástico. Quando eu era jovem, adolescente e criança também só gostava de carne. Penso que todos os jovens e crianças também só gostam de carne. Depois a gente vai maturando, lá está a tal história da estabilidade gustativa, e às tantas estaciona no peixe. Mas agora vou pensar nessa questão, pode ter a ver com isso. De facto comemos mal, por causa desta vida, e às tantas o organismo tem necessidade de uma coisa mais fresca.

(Pausa para comer as entradas. Paulo Fonseca aborda as particularidades da comida nos restaurantes e as potencialidades do ensino da Escola de Hotelaria de Fátima). Quando pensa na sua infância, de que mais gostava? Quais os sabores que lhe vêm à memória dessa altura?

Os galos que a minha mãe fazia. Aqueles galos caseiros (…) Aqueles bifes que a minha mãe fazia com um tempero que, afinal de contas, acabava por ser muito simples.

É boa cozinheira, a sua mãe?

É muito boa! Aliás, ela e o meu pai criaram-me a mim e à minha irmã num restaurante. Trabalhávamos nos fins-de-semana, nas férias, a ajudá-los. Costumo dizer, a brincar, que nasci debaixo de um balcão. Para dizer que toda a minha vida, toda a minha infância, foi feita com aquela azáfama da família, a tentar a ganhar a vida, a tentar dar aos filhos um futuro melhor, toda essa envolvência… da qual tenho muito orgulho.

O Paulo Fonseca também cozinha?

Também…

E cozinha bem?

Não… Sou um humilde aprendiz. Mas gosto. Com uma condição, que eu acho que é a condição fundamental: estar sozinho! Porque eu invento. Não fico preso a uma receita, nem estou preocupado com a quantidade disto ou daquilo. Faço umas coisas no forno, uns peixes. À minha maneira, as pessoas costumam dizer que é bom…

Come sempre no restaurante? Nunca vai a casa almoçar?

Não… não tenho tempo para isso. Como sempre em restaurantes, às vezes almoço com os meus pais, que é uma forma de os visitar. Porque a idade tem destas coisas e convém dar um acompanhamento. Ir às vezes lá almoçar é uma forma de dar carinho, ver o ambiente, as dificuldades, começa a haver questões de saúde…

Nunca pensou seguir a restauração? Já que os seus pais tinham um restaurante…

Eu já tive um restaurante. Quando fui estudar para a Coimbra, eu e o meu amigo Armando montámos um bar-restaurante. Foi assim uma aventura de jovens empreendedores. Montámos a partir do zero, estivemos a explorar um tempo e depois vendemos.

Não tenho paciência para debates de natureza política na televisão. E sendo eu alguém que exerce funções políticas é curioso que não tenha paciência. (…) Tudo isto é uma coreografia teatral que cheira-me a falso, é artificial, não contribui para o enriquecimento das pessoas, não ajuda a formar opinião, não é pedagógico, não é desenvolvido, não é moderno. E portanto não tenho paciência para isso.

Como conciliava o restaurante com as aulas? Ou foi uma fase mais parada?

Foi uma fase mais parada… mas eu conciliava mal. Eu pensava que conseguia conciliar melhor, mas não…

Nos últimos anos tem viajado muito. Tem oportunidade de apreciar a gastronomia desses lugares?

Bom, são coisas diversas, depende do tipo de viagem. Eu sempre viajei, há muitos anos que viajo muito porque gosto muito de viajar. Nesta função tenho muitas viagens que são de trabalho, o que significa que estou sujeito ao programa que está previamente organizado. Não me posso dar ao luxo de comer isto ou aquilo. (…) As pessoas às vezes têm a ideia de que é um passeio. Não! Se quiser passear eu escolho os destinos. Sou um apaixonado de destinos diferentes de tudo o resto. E quando vou a um sítio procuro conhecer esse sítio por dentro e por fora, com a genuinidade possível. Países muito esquisitos, com diferenças culturais profundas connosco, em realidades completamente distintas.

(Narra uma viagem ao Vietname, onde conheceu uma ilha que foi uma prisão política). Qual foi o país mais estranho em que já esteve?

É uma pergunta difícil… Talvez os países árabes (fala do ambiente que sentiu e recorda também uma corrida de táxi em Timor, em que o vidro da frente estava todo partido e o taxista conduzia com a cabeça de fora).

E a comida mais exótica que comeu?

(pensa demoradamente) Não me lembro de nada assim muito exótico…

Qual a sua rotina?

Levanto-me aí às 7 e pouco, 7h30. Como um iogurte de meio quilo. Tomo banho, despacho-me e vou tomar um café. Depois sigo para a Câmara. Aí às 8 e pouco já estou a trabalhar. Esses são os momentos mais produtivos, porque como não está lá ninguém há silêncio e sossego e dá para estar ali concentrado a ler um papel com mais atenção. Porque o resto do dia já sabemos como é, são sempre pessoas a entrar e a sair e a pensar o que vai acontecer na reunião seguinte, há uma preparação mental para a reunião seguinte. Depois reuniões sucessivas, umas internas, outras externas, receber pessoas. E é uma azáfama permanente. O almoço faz parte dessa azáfama. Normalmente há almoço com alguém, porque um almoço também pode ser uma reunião. Muitas vezes há jantar também, o que é uma coisa um bocado chata porque às tantas gostava era de estar no sofá um bocado, sem fazer nada. Vejo pouca televisão. Vejo uns filmes policiais, já na cama, normalmente não vejo o final, o que é uma coisa um bocado chata porque fica-se sem saber quem é o bandido… adormeço antes de chegar a altura. E isso gera uma insegurança permanente (sorri), andar todos os dias com esta inquietação: onde andará o criminoso? E de facto assim é na vida real, as pessoas bem intencionadas não trazem um letreiro na testa. Depois vejo alguns programas que sejam interessantes do meu ponto de vista. (Comenta que só viu o último jogo do Europeu de Futebol e que por vezes vê o programa Prós e Contras ou a Quadratura do Círculo). Não tenho paciência para debates de natureza política na televisão. E sendo eu alguém que exerce funções políticas é curioso que não tenha paciência. (aborda a hipocrisia entre os comentadores políticos e a encenação mediática). Tudo isto é uma coreografia teatral que cheira-me a falso, é artificial, não contribui para o enriquecimento das pessoas, não ajuda a formar opinião, não é pedagógico, não é desenvolvido, não é moderno. E portanto não tenho paciência para isso.

E tem tempo para hobbies?

Eu, se pudesse, passava muitas horas por dia a ler e a escrever. Mas não posso, tenho pouco tempo, não tenho disponibilidade nem energia para tanto. Faço o que posso.

Escreve o quê? Romances, poemas…

Tudo! Nunca escrevi nenhum romance. Mas aos 19 anos tinha uma coluna semanal no jornal Notícias de Ourém, por exemplo.

Falava de quê?

Do que via à minha volta. E com sentido crítico! Uma vez houve uma pessoa que eu admirava muito (refere-se a um advogado moçambicano que casou em Ourém, já falecido, chamado René de Assumpção), que começou a ver os meus primeiros escritos. Então dizia assim: “Tu escreve, mas diz mal.” O que é que ele queria dizer com aquilo? Era, no fundo, para cultivar a irreverência. E eu acho que essa é uma grande inspiração. Cultivar a irreverência significa ser respeitoso e ter noção institucional, pessoal e humana do respeito que é devido. Eu cultivo muito isso. Acho que um dos principais problemas do nosso país é a ausência de uma arquitectura institucional de respeito. Com esta respeitabilidade que tem um limite, depois deve haver dentro desse limite a irreverência que baste.

foto mediotejo.net
Paulo Fonseca almoça diariamente fora de casa, quase sempre em trabalho. Foto: mediotejo.net

Tem dois filhos (o mais velho estuda atualmente na Universidade de Cambridge). Como concilia a vida familiar com a profissional?

Eles já estão treinados, não é? Mas é uma coisa difícil. Porque… nós estamos sempre a correr atrás de coisa nenhuma. Temos obrigações sete dias por semana, 16 horas por dia. E às tantas os filhos crescem, ganham asas e isso traz-nos muita felicidade, enquanto pais. Mas, e isso infelizmente acontece comigo, fico tão saudoso do tempo que devia ter estado com eles. Às vezes dou assim comigo muito deprimido com esse tipo de pensamento. Acho que é humano também.

Numa viagem que fez recentemente ao Brasil conheceu o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, o chamado presidente mais pobre do mundo. Pode contar um pouco desse encontro?

(Sorriso rasgado ao mencionar Pepe Mujica) Isso é uma coisa deliciosa que me aconteceu na vida! Poder dizer que estive talvez uma hora e meia a conversar a sós com o Pepe Mujica, que é uma figura das grandes. (O encontro deu-se numa cerimónia em Minas Gerais onde Paulo Fonseca recebeu a Medalha da Inconfidência e o ex-presidente era o orador convidado. Seguiu-se um almoço de convívio). Foi nesse almoço que tive uma longa conversa com o Pepe Mujica, porque achámos algum interesse um no outro – claro que eu muito mais interesse nele do que ele em mim, imagino – mas um momento de aprendizagem, de grande e emocionante aprendizagem. O Pepe Mujica, a dada altura da nossa discussão, nós falámos dos males do mundo, destas diferenças entre sociais, entre esquerda e direita… eu dissertei com ele sobre alguns pensamentos que tenho sobre estas coisas, que claro que estão fora de prazo porque ainda não chegou o tempo em que o tempo há-de acolher bem esses pensamentos. Ou seja, estão cedo demais a ser colhidos. Não tenho dúvidas que a Humanidade vai evoluir em dado sentido. (Menciona que na Suécia, desde que não sejam crimes de sangue, o culpado pode escolher a altura em que vai cumprir a sentença de prisão. O objetivo é não lotar as prisões e evitar problemas sociais). Tenho umas ideias, algumas das quais abordei com o Pepe Mujica e que, com grande prazer meu, tiveram o acolhimento dele. Hoje o conflito político não é entre esquerda e direita. Hoje o problema é entre políticas sociais e o liberalismo selvagem. O grande cancro que as sociedades modernas adquiriram e desenvolveram é esta coisa chamada liberalismo selvagem. O Pepe Mujica, que concordou com esta dissertação e que juntou mais umas pitadas, e isso foi-me dando um prazer imenso porque imagina estar a discutir com um homem daquela dimensão e daquele peso intelectual! E depois ele conclui uma coisa extraordinária: “Paulo, temos que construir a república do carinho”. Se disseres isto a uma pessoa, a um cidadão comum, ele dirá: “Este gajo é um sonhador, um teórico, o melhor é que vá jogar ao peão ou jogar ao pokemon”, como agora se usa. E de facto, temos que construir a república do carinho! E o carinho, o que se quer dizer com isto? Não tem que ser uma devassa. É uma integração humana… (dá exemplos, entre os quais aborda o que se perdeu com a guerra da Jugoslávia).

Então o René dizia-me assim: “Tu escreve, mas diz mal”. O que é que ele queria dizer com aquilo? Era, no fundo, para cultivar a irreverência. E eu acho que essa é uma grande inspiração.

Está apreensivo de ficar sem os apoios do Portugal 2020, devido às possíveis sanções da UE a Portugal?

Com a tal rebeldia que aprendi há muitos anos, eu diria assim: já nada me surpreende! A Europa agora devia estar a tentar compreender porque razão os ingleses votaram para sair e evitar que haja mais situações destas. (…) Mais grave que haver sanções é estarmos entregues à governação de uma série de gente fraca ou promotora de interesses, que são os interesses do liberalismo selvagem, leia-se dos mercados. Se nós perdermos os apoios comunitários e se amanhã tivéssemos a confiança da comissão europeia de que tudo ia ser melhor na zona europeia, valia a pena correr o risco…

Falou já diversas vezes que internacionalizar não é o mesmo que exportar. Continuamos a pensar pequenino?

Internacionalizar é absolutamente fundamental hoje, cada vez mais! Quem não está internacionalizado já morreu, mas ainda não sabe que morreu. Internacionalizar significa exportar, importar melhor, apostar na presença, no conhecimento, ter laços cada vez mais fortes com as instituições dos outros países…

Está a terminar este segundo mandato. Já pensou no que fará quando deixar a presidência da Câmara?

Não! É muito cedo…

Terminamos com um brinde?

Um brinde?! Um brinde à lucidez! Que eu acho que o mundo anda com os olhos muito turvos…

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here