Entrevista: À Mesa Com… Júlia Amorim

Júlia Amorim. Foto: mediotejo.net

Convidámos Júlia Amorim para se sentar à mesa connosco e a presidente da Câmara Municipal de Constância aceitou o convite. O encontro para o “petisco de final de dia” ficou marcado na esplanada “Nateiro”, que recuperou o nome da zona onde nos encontramos, parte da qual chegou a ser propriedade do avô materno da autarca, calafate de profissão. Falámos sobre a família, o concelho e o país acompanhados pelas vespas que foram aparecendo e às quais nos habituámos, mesmo quando os zumbidos se aproximavam das moelas e do pica-pau batizado por Júlia Amorim de “Pica-Pau à moda do Nateiro”, numa versão com molho de cebolada que puxa o pão.

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O sol começava a despedir-se lentamente quando chegámos a Constância e acabou por ceder lugar à lua durante o final de tarde de sexta-feira que partilhámos com Júlia Amorim e o marido, Carlos Amorim. Saímos da mesa da esplanada com vista para rio Zêzere a conhecer um pouco sobre o passado e o presente da presidente da Câmara Municipal de Constância desde 2013, marcados pelos princípios e convicções que a movem no dia-a-dia.

Um momento em que as referências à família foram constantes, destacando as laranjas saborosas fruto do trabalho agrícola dos avós, os mergulhos no rio que a mãe “modelo” responsabilizava pelas amigdalites constantes, o pai militar impedido de expressar a preferência pelas políticas de esquerda em público e os bisavós paternos de Reguengo do Alviela que dormiam com os botins em cima da cama na altura das cheias.

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Sobre o concelho que conhece desde sempre, falámos sobre o encontro dos rios Tejo e Zêzere, da passagem de Luís de Camões pelas ruas da vila e da entrada na vida política. Muitos temas abordados num programa de final de dia que não é diário, mas surge regularmente na vida do casal que se conheceu num grupo de música popular, do qual a autarca foi vocalista, e voltou aos tempos de número par em casa com a saída da filha para a universidade.

Estamos num local impossível de dissociar de Constância, com vista privilegiada para o Zêzere, que mais à frente se encontra com o Tejo. Dois rios na sua terra natal que têm ligações à família antes do seu nascimento, com um avô calafate.

Sim, o meu avô era calafate e o meu tio também, da parte da minha mãe. E agora que falou no meu avô, lembrei-me que este espaço onde nós estamos, mais concretamente a zona do parque de campismo, era dos meus avós. Era o nateiro. Tudo isto onde nós estamos era terra de nateiro, muito fértil. Eu já sou apenas do tempo desta zona estar dividida por diferentes proprietários e uma das partes calhou ao meu avô por herança e outra ao meu tio. O meu tio vendeu a dele, a minha avó e o meu avô continuaram a cultivar o nateiro. Lembro-me da minha infância ser passada a ajudá-los aqui. Gostava muito e ainda hoje tenho muitas saudades do sabor das laranjas e das tangerinas desta zona, que não tem nada a ver com aquelas que compramos no supermercado.

Os rios estiveram sempre por perto.

Sim. Lembro-me que o rio passava mais perto daqui. A água era gelada, eu andava sempre com dores de garganta e tinha muitas amigdalites e o meu avô era um bocadinho o meu modelo. A minha mãe diz que se levantava às cinco da manhã com a minha avó e, às vezes, com pessoas que contratavam para tratar aqui do nateiro e de outras propriedades. Depois ia para o quartel de bicicleta. Já reformado, trazia-nos para aqui e nós andávamos à beira do rio. Apesar de ser um bocadinho austero, deixava-nos ir para dentro de água porque gostava muito que tivéssemos ligação à natureza. A minha mãe ralhava imenso com ele e acusava-o sempre das minhas amigdalites.

Ou seja, temos aqui um regresso duplo, ao espaço e às memórias…

Sim (ri-se). Nasci em Constância, na casa onde moro, já ali. Era a casa dos meus avós, que a compraram quando estava em ruínas por volta de 1950 e recuperaram-na. A estrutura da casa ficou na mesma por fora e por dentro ainda lá tenho o desenho feito pelo meu avô. Eles faleceram, a minha mãe tinha a casa dela e ficámos com algum património. Entretanto achou que devia desfazer-se deste património para os filhos enquanto fosse viva e para nós podermos preservá-lo. Calhou-me a casa dos meus avós, porque gostava e tinha nascido lá. Isso ajuda-me, por um lado, a compreender muito bem o problema de habitar num centro histórico e o lado dos proprietários que herdam casas e têm dificuldades porque se torna muito mais caro a conservação de casas antigas. Por outro lado, o facto de muitas casas do centro histórico estarem desabitadas. As pessoas vêm viver para o centro histórico e o formato das casas não tem aquilo que os casais exigem… a modernidade. As divisões são muito pequenas, mas para quem gosta é interessante.

Divisões pensadas no tempo dos avós. Avançamos um pouco e falemos dos pais. Eram ambos de Constância?

A minha mãe é de cá e o meu pai é de Reguengo do Alviela. Quando se fala em cheias e de Reguengo do Alviela lembro-me logo e rio-me muito com a minha mãe – o meu pai já faleceu – porque os meus bisavós recusavam-se a sair de casa com a água aos pés da cama e ir para casa de outras pessoas e familiares com primeiro andar. Tinham os botins em cima da cama para se calçarem quando se levantavam e ficarem dentro de água. Agora parece uma coisa horrível, mas as pessoas daquela altura encaravam as cheias com naturalidade. Lembro-me dos meus avós irem buscar os meus bisavós e chegou a acontecer ficarmos no meio da cheia. A aldeia ficou isolada, o meu pai decidiu meter-se dentro de água porque achava que estava baixinha e, entretanto, um trator teve que rebocar-nos. Eu e o meu irmão, com sete/oito anos dentro do carro lá viemos encantados da vida.

Chegam as moelas e o pica-pau numa versão que Júlia Amorim prefere à tradicional devido ao “molhinho”, destacando que a ementa apenas faz parte do dia quando sai com o marido para relaxarem depois do trabalho. Voltamos à entrevista entre uma garfada de moelas, um golo de imperial e um pedaço de pão mergulhado no molho de cebolada.

Se considerarmos Constância como o quintal dos Paços do Concelho, sendo presidente de câmara é natural que quem passa se dirija ao “dono” da casa. Consegue descontrair quando está aqui na esplanada ou noutro espaço público?

(Júlia Amorim passa a palavra ao marido) CA – É um frenesim. Mesmo quando decidimos ir ao cinema a Torres Novas ao fim do dia e jantar fora é costume estarmos a entrar no carro e ela perguntar se não me importo que faça meia dúzia de telefonemas. No concelho… onde vai, fica. Encontra este, encontra aquele. Grandes conversas, desabafos, sugestões, queixas…

Consegue desligar-se?

Não, é impossível, e não é que eu me importe de não me desligar. Todas as pessoas precisam do seu próprio espaço e do seu próprio tempo. Por vezes, até me preocupo mais quando vou com a família porque vamos com determinado destino e vou sendo interpelada na rua. Faz parte.

Fotos: mediotejo.net
Fotos: mediotejo.net

Era diferente quando não exercia o cargo e, provavelmente, muito diferente dos tempos em que fez a escola no concelho. Estudou sempre cá?

Como o meu pai era militar de carreira fiz a escola primária em Constância e o segundo ciclo em Águeda, quando ele foi para a Escola de Oficiais. Voltei para Constância, fiz o atual terceiro ciclo e secundário em Abrantes e segui para a universidade em Aveiro para estudar Biologia e Geologia. Eu gostava de ser professora e depois escolhi a área de que mais gostava, as ciências da natureza.

E o que mudou no concelho desde então ao nível do território e das pessoas?

Eu entrei para a escola primaria, que era de meninas. Aquele edifício do centro histórico tinha uma rua num lado, arruamento no outro e nós brincávamos por ali. A minha irmã tem cerca de seis anos de diferença de mim e o meu pai foi mobilizado para a Guiné. Ele fez duas comissões em África, uma em Angola em que esteve sempre no mato. Eu nasci a 29 de junho [de 1963], ele partiu para Angola no dia 6 de julho e quando voltou eu não o conhecia. O meu pai era o meu avô. Depois a minha irmã e a minha mãe foram para a Guiné com o meu pai e eu e o meu irmão ficámos com os meus avós cerca de dois anos. Eu fiz a terceira e a quarta classe com os meus avós e a minha avó era uma pessoa muito austera, no sentido educativo, e não não tínhamos grande hipótese de andar para aí a brincar. Ainda com a dupla responsabilidade de não ser a nossa mãe e não querer que nos acontecesse nada. Ela nem para o largo me deixava ir. Lembro-me mais quando era adolescente que aqui era um caminho, com silvados de um lado e outro, e quando vínhamos para casa dos meus avós íamos apanhar amoras. (ri-se) Era uma aventura ficar à beira do rio. Eu e o meu irmão não tínhamos autorização dos meus pais para passarmos a Estrada Nacional.

E quando foi estudar para fora?

Eu terminei o curso em 86 e aí é que vi muitas diferenças, por exemplo, na intervenção na vila com a melhoria… lembro-me de vivermos na parte alta da vila e faltar água no verão com muita frequência e fazermos fila nos fontanários – isto em 1980/81 – para encher os garrafões de água. Por volta de 1988 recordo-me que na parte baixa da vila as condutas eram velhas e a roupa ficava estragada quando era lavada na máquina. As pessoas reclamavam muito. Depois houve a intervenção da câmara e a requalificação.

Concluiu os estudos e regressou a Constância até ao momento em que foi dar aulas.

Depois dos estudos dei aulas em Aveiro, depois fui colocada em Esmoriz e efetivei em Mértola. Aí já namorava com o Carlos e nessa altura abriram vagas no Ministério da Educação. Queríamos fazer vida juntos, ele trabalhava em Aveiro e lembro-me de escolhermos os concursos por zona.

Conheceram-se em Aveiro?

JA – Sim, foi lá que ele fazia parte de um grupo popular e eu o conheci (ri-se e vira-se para o marido a pedir para ser ele a contar a história)

CA – Eu fazia parte de um grupo de música popular que ainda durou bastante tempo, o grupo Raiz. Tivemos uma mudança de elementos, precisávamos de algumas vozes femininas e fizemos uma audição. (Júlia Amorim interrompe com a frase “Foi horrível”). Ela era colega da namorada de um elemento do grupo, foi e ficou. Foi assim que nos conhecemos e as coisas evoluíram para o namoro muito naturalmente. Nós casámos em 88, em agosto, eu ainda continuei a trabalhar em Aveiro até ao fim do ano e a minha saída foi mesmo no dia 31 de dezembro.

JA – Foi uma decisão ponderada. Eu queria concorrer o mais próximo de Aveiro, mas sabia que não seria colocada na cidade e decidi concorrer ao longo da linha do comboio. Concorri e fiquei em Tomar. Decidi que ficando em Tomar ia viver em Constância. Ainda estive alguns anos em Tomar e só vim para Constância quando abriu vaga aqui, talvez no ano letivo 93/94. A escola faz 25 anos, foi no segundo ano da escola. Foi na altura de Tomar que eu disse à minha mãe, em junho, que íamos casar em agosto.

Uma história a puxar a vertente poética da vila ligada a Luís de Camões. Sente essa ligação pessoalmente, ou seja, sente que é da terra por onde passou Camões?

Sempre senti essa ligação, mas era uma ligação muito transmitida popularmente, pelas pessoas do povo, de forma muito natural. Não posso deixar de falar no senhor Joaquim Coimbra que era barbeiro, mas uma pessoa muito culta, muito preocupada com a História da terra e eu tive a felicidade da mulher ter uma mercearia pequenina onde a minha mãe ia. A minha mãe andou lá na costura com a mulher dele. Talvez por privar com ele e, por ser uma das pessoas com quem a Manuela de Azevedo falou, sempre fiquei com esta ideia de Camões ligado a Constância. Comparando com hoje, acho que é uma vivência diferente. O povo tem esta memória e continua a perpetuar a presença de Camões em Constância, mas Camões já ganhou um outro espaço que não é só a tradição oral e há aqui uma apropriação mais arreigada do ponto de vista científico e institucional.

Fotos: mediotejo.net
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Camões faz parte da imagem de marca do concelho, mas existem outros fatores. O que considera ter mais peso? Camões ou os rios Zêzere e Tejo?

Há três coisas que as pessoas falam sempre quando lhes digo que sou de Constância: Campo Militar de Santa Margarida porque toda a gente passou por lá, principalmente os homens. Depois referem a terra de Camões, algumas pessoas com um ar mais… não digo irónico, mas… E a festa dos barcos, às vezes nem sabem dizer que é a Festa da Nossa Senhora da Boa Viagem, na altura da Páscoa.

Constância tem as vertentes militar, gastronómica com os Queijinhos do Céu, histórica associada por muita gente à presença de Camões e natural com o encontro dos rios. Qual é aquela em que o concelho se tem afirmado mais?

(reflete) Sem dúvida que tem a ver com a questão dos rios e a devolução das pessoas aos rios. Não dos rios às pessoas, porque os rios sempre cá tiveram. As pessoas afastaram-se, deixaram de ligar aos pomares de laranjeiras de que Camões também falava. Deixaram de se dedicar, em termos agrícolas, ao que as terras e os rios lhes davam porque estas terras eram muito férteis com as cheias. Com as cheias, os filhos que viviam em casa dos pais que eram inundáveis passaram a querer viver fora das zonas das cheias e as pessoas começaram a afastar-se do rio. Por outro lado, os barcos deixaram de ter a importância que tinham no passado. Em termos morfológicos, o rio também deixou de ter o caudal que tinha, quer por via da Barragem do Castelo de Bode, que em termos do Tejo, por via das barragens e da própria natureza. Não vamos querer culpar apenas as barragens pela morfologia diferente… as diferenças que os rios vão tendo ao longo dos anos. Por isso, as pessoas voltaram aos rios com uma política de ordenamento ribeirinho e com o objetivo de ganhar os rios sabendo que podiam ser um grande potencial do desenvolvimento económico e mesmo para viver.

Ao nível das freguesias, podemos distingui-las como?

A nível interno, cada freguesia tem a sua marca. Em Constância são os rios e Camões, Santa Margarida da Coutada é uma freguesia mais rural, se assim se pode dizer, e houve necessidade de criar algo que a marcasse que, neste caso, foi o Parque Ambiental de Santa Margarida com o Borboletário e Montalvo, com ligação muito forte à sua ruralidade e a fixação das pessoas através da zona industrial. Aliás, a freguesia de Montalvo foi a que contribuiu para que o concelho de Constância crescesse nos últimos Censos [2011]. Não temos uma propensão para a natalidade (ri-se), não somos muito diferentes dos outros concelhos do país, tem a ver com o facto de terem ido viver para Montalvo casais novos.

Foi vivendo cada vertente do concelho ao longo da vida, primeiro como munícipe e, mais tarde com o início da vida política. Não na Câmara Municipal, mas na Junta de Freguesia de Constância numa altura em que ainda dava aulas.

Eu vim viver para Constância, dava aulas em Tomar e tinha tirado a carta de condução em 84/85 com o dinheiro que tinha ganho na Ocupação dos Tempos Livres, eram 18 contos. Fui juntando dinheiro e havia os Certificados de Aforro com a cadernetazinha que levávamos aos Correios e eles davam-nos uma cédula. Mais algum que me deram nos anos, acho eu. Sei que eram 18 contos e nunca lhes mexi. Tirei a carta de condução em Aveiro e quando vim para Constância o meu pai deixou-me pegar no carro dele, mas com ele sempre ao lado aos gritos e a dizer que eu andava sempre na berma da estrada. Entretanto ele teve um acidente junto da passagem de nível de Tancos e eu fiquei com medo de conduzir. Só voltei a conduzir em 96, talvez, e fazia isto tudo a pé. Para Tomar, como não conduzia, eu ia na camioneta das sete e um quarto, independentemente do horário que tivesse. Às vezes o horário não era assim muito bom, havia aulas até às sete horas, e tinha que ir na camioneta das sete e meia, que chegava às oito e treze. Estava na Junta, que abríamos à noite, e quantas vezes eu não comia uma folhado de salsicha, saía da camioneta e seguia para a junta.

Como surgiu a vontade de integrar a Junta de Freguesia?

Não é questão de vontade, surgiu quando eu era nova. Quando regressei a Constância, estive cá um ano e o presidente Mendes foi lá a casa e convidou-me para as listas. Fiquei muito assarapantada e disse-lhe que ia pensar. O presidente Mendes estava na câmara há quatro anos e tinha feito um trabalho excelente e eu achei que se podia contribuir para ajudar a minha terra e fazer parte de uma equipa que tinha provas dadas, disse que sim. Não sabia bem ao que que ia, mas pensei que se as pessoas achavam que podia ser útil, não me furtava ao trabalho. Foi assim que entrei nestas questões da política partidária, mas na universidade já tinha feito parte de alguns movimentos quando passámos um período conturbado de aumentarem o valor das refeições. Cheguei a fazer parte de alguns piquetes de greve da associação de estudantes. Ou seja, as causas não me eram indiferentes.

Foi nessa fase da vida académica que começou a definir-se a nível partidário?

Foi. (ri-se) Foi com sentimentos mais da ala esquerda porque, até então, a minha mãe era e é PSD. O meu pai não, embora não se pudesse manifestar porque era militar. Eu acho que ele era do PCP e quando se reformou chegou a fazer parte das listas da CDU. Às vezes tínhamos discussões sérias lá em casa, até achavam que eu devia ir para direito. A minha mãe assinava a Cruzada Eucarística e aquilo era sempre a dizer mal da União Soviética, mesmo já muito depois do 25 de Abril. Tinha eu para aí 10/11 anos e lembro-me do meu pai me levar a um Comício do Movimento de Esquerda Socialista, o MES, lá em Águeda e a minha mãe ficar muito zangada porque ele era militar e não se podia meter naquelas coisas. Ficámos atrás, no pavilhão da escola. Para mim, era uma grande confusão porque a minha mãe era a “mulher perfeita” e só comecei a lidar mais com pessoas do PCP depois de vir para a Junta de Freguesia de Constância porque havia reuniões da CDU e fui desconstruindo aquilo que me incutiram na cabeça entre os dez e os 15 anos. No fundo, penso que o PCP não tem melhores resultados nas legislativas exatamente por isto, também por este preconceito.

Fotos: mediotejo.net
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A questão centra-se no peso da formação que se tinha em casa? Hoje em dia as pessoas têm acesso a mais informação…

Eu acho que também há muita demagogia. Por exemplo, eu lembro-me de ter participado na campanha eleitoral da Maria de Lurdes Pintassilgo às presidenciais, quando estava em Aveiro.

Essa ocasião não puxou também o lado feminino?

Talvez isso e talvez o facto dela não estar conotada com qualquer partido. Era de esquerda. Eu entrei para a universidade com 18/19 anos, sozinha, sem o ambiente familiar em termos de causas… defini como princípios de vida, que ainda hoje tenho, e se identificavam muito com a esquerda. É muito mais cómodo não pertencer a qualquer partido, as pessoas não se comprometem com nada, e fazer parte de um partido é um ato de coragem a menos que exista interesse em fazer vida nos partidos, pertencer às “jotas” e essas coisas. Eu decidi fazer parte do PCP, julgo que foi numas legislativas [2002] em que o PCP teve um resultado muito mau. Pensei que não era justo e o mínimo que podia fazer era dar a minha cara e dizer que não tinha vergonha de dizer que era do PCP. Pode ter algumas coisas com as quais não concordamos, mas sei da experiência que tenho tido com o PCP, enquanto independente, e com as pessoas que são pessoas de convicções. É um partido que luta pelos direitos dos mais fracos, dos mais desfavorecidos e que depois os resultados eleitorais não são proporcionais ao trabalho que estas pessoas têm. E mais, quando estava na escola participei ativamente, já enquanto professora, na discussão da Lei de Bases do Sistema Educativo em 1986. As questões dos sindicatos e dos professores. Tudo isso já tinha uma envolvência.

Referiu causas, princípios e convicções. No seu caso, consegue destacar um lema de vida?

Eu tenho muita dificuldade em dizer um ou dois… (reflete). Agora pode ocorrer-me um e daqui a três dias ocorrer-me outro. Não sei se é lema, nem se é defeito ou virtude porque sempre fui assim. Penso muito nos outros e por vezes com prejuízo próprio. Não sei se é lema, é qualquer coisa intrínseca. Se eu tenho que fazer uma crítica pessoal a uma pessoa que eu ache que a vai melindrar, fazer triste, não contribuir no que quer que seja para ela mudar, nem me ajude a mim ou à comunidade, não tenho razão para fazer isso… Está a fazer-me uma pergunta difícil… (pensa mais um pouco) Ser justa com as pessoas?

Júlia Amorim interrompe o raciocínio na altura em que o marido regressa à mesa depois de ter saído por instantes. Carlos Amorim é questionado pela autarca sobre este assunto.

CA – Eu tenho uma opinião formada acerca da Júlia. Para além daqueles chavões todos – que as pessoas dizem ser chavões, mas não são porque os valores são cada vez mais importantes – a questão da honestidade e da integridade… Ela é mesmo assim, honesta e íntegra, e há um lema que ela vive para ela e para os outros todos: a questão da justiça. Não em termos judiciais, mas em todas as vertentes da vida. Acho que é uma questão de formação, uma das coisas que ela mais odeia é sentir-se injustiçada e transpõe isso para os outros.

Fala em pessoas e na preocupação que tem em não as magoar. Qual é a prioridade que estabeleceu para as pessoas enquanto munícipes?

Aquilo que eu me sinto impotente de resolver – e gostava muito – depende das idades. Em primeiro lugar, gostava que todos, chegados à idade ativa, tivessem emprego. A dependência económica é o fator principal para as pessoas se sentirem livres e não dependerem de ninguém, se for por opção. Não tenho nada contra que uma mulher prefira estar em casa e o trabalho não ser a sua vocação. Querendo ter independência económica, o rendimento do trabalho é fundamental para qualquer pessoa. Se eu pudesse, era emprego para toda a gente.

E quando faz referência à questão da justiça, neste momento qual é a maior injustiça no nosso país? Existe injustiça entre o litoral e o interior?

Completamente. Não digo que não existam injustiças no litoral, mas quando comparamos os dois, as pessoas do litoral têm mais oportunidades. Isto é muito abrangente e, respondendo um pouco em função do cargo que tenho, em termos do desenvolvimento equilibrado do território, as regiões do interior estão a ser discriminadas negativamente. Aquilo que o território deve dar às pessoas no que respeita ao trabalho, acesso à cultura, à educação e à saúde está a ser posto em causa com os investimentos que estão a ser feitos. Apesar de, atualmente, se começar a desmontar isso um pouco e investir no interior, ainda não vi muitos resultados. O nosso território, para ser justo para todos os portugueses tem de ser um território em que todos tenham qualidade de vida e para terem qualidade de vida, por vezes, os investimentos da administração central e local não podem ser iguais.

Do país voltamos para a mesa em Constância e chegamos ao final da nossa conversa, que é costume terminar com um brinde. Brindamos a quê?

A que é que eu gostava de brindar? (ri-se e reflete um pouco) À família e à igualdade de oportunidades para todos.

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