Entrevista: À Mesa Com… Jorge Faria

À Mesa Com... Jorge Faria. Foto: mediotejo.net

Lançámos o convite para nos sentarmos à mesa com Jorge Faria e o presidente da Câmara Municipal do Entroncamento aceitou. O local escolhido foi o restaurante “Frango Real” e, como não podia deixar de ser, a ferrovia marcou presença num almoço transformado numa viagem de comboio pelas diversas estações e apeadeiros da sua vida e da vida da cidade que começou a gerir a partir de 2013. Arriscámos e decidimos não parar em algumas das “estações” mais promovidas no roteiro turístico entroncamentense, como os fenómenos, optando por apeadeiros desconhecidos pela maioria das pessoas e que, muitas vezes, se revelam igualmente surpreendentes.

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Jorge Faria chegou ao ponto de encontro a pé, vindo dos Paços do Concelho. A viagem é curta e depressa percebemos que o caminho é percorrido com regularidade. Uma vez escolhida a mesa, num canto da sala principal, chegam o presunto, as azeitonas, o pão e o vinho tinto da casa, aos quais se juntam pouco depois o pargo e o bacalhau saídos do forno.

Nessa altura, já tínhamos embarcado na viagem pelas estações e apeadeiros da vida do presidente da Câmara Municipal do Entroncamento, que teve como ponto de partida a pequena aldeia de Valada, freguesia de Seiça (Ourém), há 59 anos. Nas várias paragens descobrimos o menino que jogava futebol no olival onde hoje é o mercado diário, o jovem que distribuía folhetos de forma clandestina, o professor ligado aos números, o autor do livro sobre a influência do líder na eficácia dos organismos públicos e o autarca que gostava de deixar como legado uma cidade unida que possa ser usufruída a pé ou de bicicleta.

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Uma vez que estamos na cidade ferroviária, proponho que a entrevista seja encarada como uma refeição a bordo de um comboio. Começou a morar no Entroncamento por volta dos cinco anos de idade, ou seja, esta é a primeira paragem por isso qual foi o ponto de partida?

Eu vim para o Entroncamento como uma grande parte das pessoas que não nasceram cá. Na nova geração já há muita gente do Entroncamento, mas na minha geração, na sua maioria, são pessoas oriundas de outras regiões. A motivação para vir foi a ferrovia e o facto de aqui se ter desenvolvido um centro ferroviário importante onde havia muito emprego. Há quarenta anos, por exemplo, só as oficinas chegaram a ter cerca de 3.000 trabalhadores. O meu pai começou a trabalhar na CP e viemos morar para aqui quando a minha irmã mais velha acabou a escola primária, para lhe proporcionar melhores condições de vida e de estudo. Somos oriundos da zona de Ourém, de uma pequena aldeia da freguesia de Seiça, Valada. O Entroncamento tem muita gente oriunda de zonas junto à linha férrea porque por onde a linha passava gerava-se necessidade de trabalhadores, primeiro como o meu pai que começou a trabalhar na via e obras e depois passou para a parte de movimento, para fogueiro, e mais tarde para maquinista. Terá feito como muitos ferroviários que primeiro trabalharam nas zonas onde viviam e depois foram transferidos para zonas onde havia maior concentração, digamos, operária.

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Chegou cá de comboio?

(Pensa um pouco) Curiosamente, tenho uma imagem dessa altura… Eu vivia numa aldeia a dois, três quilómetros da sede do concelho de Ourém e ainda me recordo da aldeia sem luz elétrica na casa das pessoas. Recordo-me de luz elétrica na via pública e, nessa altura, quando ia passar férias haver um carro ou uma camioneta no acontecimento. A imagem que tenho da vinda para o Entroncamento era uma camioneta que eu, com aquela idade, entenderia muito grande (ri-se) para trazer as mobílias e fazer a mudança. Não sei se já tinha vindo ao Entroncamento ou não e também não sei se vim de comboio, mas lembro-me da imagem que gravei, essa camioneta para transportar as mobílias e que, para mim, era muito grande.

Passemos para a segunda paragem, a escola. Estudou sempre no concelho até seguir para a universidade?

Fiz toda a escola primária cá. Aliás, antes tive uma pequena experiência que hoje seria a escola pré-primária com uma senhora, de quem eu tenho ideia de ser já de muita idade, que recebia miúdos e tentava incutir algumas regras. Era ao fundo da rua onde eu morava com os meus pais, a Rua [Coronel Oliveira] Verdades Miranda. Tínhamos uma cadeirinha e sentávamos-nos à volta de uma pequena mesa, mas eu sei que não gostei muito da experiência. A minha mãe e o meu pai foram muito compreensivos e ao final de um tempo saí de lá (ri-se). A senhora, como era comum na época, usava muito a régua como forma de disciplinar e a situação não era de todo agradável. A primária fiz cá no Entroncamento, que tinha três escolas. Uma masculina, que era lá em baixo e hoje é a escola da Zona Verde, e duas femininas mais pequenas. Era daquelas escolas tradicionais do Estado Novo, com quatro salas de rapazes e formação da época. Lembro-me do diretor da escola – o professor Lopes, um homem muito exigente – e de no final de cada semana formarmos e cantarmos o Hino Nacional.

Como era o Entroncamento nessa altura?

O Entroncamento tinha muito espaço livre. Aquela zona onde está agora o mercado diário era uma zona de olival onde fazíamos o campo de futebol e jogávamos entre as oliveiras. Mais tarde, antes da escola secundária ser construída, também lá metemos umas balizas e um campo de futebol e lembro-me do terreno ser ligeiramente inclinado, mas nós jogávamos à mesma. Entretanto abriu no Entroncamento uma secção da Escola Industrial e Comercial de Tomar [atual Escola Secundária Jácome Ratton] e no tempo em que eu concluí a primária ainda tínhamos de fazer o exame de admissão. Então fiz o exame à escola e ao liceu e passei aos dois, mas como teria que ir para o liceu em Santarém ou Tomar, optei por ficar a fazer o ciclo preparatório na escola e no final do ciclo, que hoje equivalia ao sexto ano. Fui para Tomar tirar o curso comercial, que hoje seria o 7º, 8º e 9º, e depois o equivalente ao ensino secundário.

Qual foi a principal mudança entre os tempos da vila que conheceu e da cidade que celebra um quarto de século este ano?

A cidade mantém hoje uma matriz vincada, mas na minha juventude e durante muitos anos era uma matriz essencialmente ferroviária e militar. Os ferroviários pela importância da cidade e a quantidade de famílias que viviam cá e trabalham cá, em Lisboa ou em Coimbra e se deslocavam diariamente. Os militares porque, sobretudo durante a época da guerra colonial e alguns anos depois, esta zona – com Tancos e Santa Margarida – tinha grande concentração militar. Tínhamos no Entroncamento três quartéis com alguma importância, aliás, chegámos a ter cá quatro unidades. Nessa época, sobretudo no Batalhão de Serviço Militar, eram formados milhares de soldados que davam outro colorido à cidade, vila na altura. Às sextas-feiras e domingos chegavam e partiam, por via do comboio, milhares de militares que ficavam aqui ou iam para Santa Margarida e Tancos. Sempre foi uma comunidade em que as pessoas estavam próximas. Eu ainda hoje tenho conhecimento da generalidade das pessoas, posso muitas vezes não saber o nome, mas conheço-as. Nos últimos 20 anos, pelo boom em termos habitacionais, essa matriz esbateu-se e hoje é uma comunidade que, ainda que claramente urbana e dependente dos serviços, continua a ter esta referência ferroviária. Daí mantermos viva esta noção de cidade ferroviária. É uma matriz que nos une e diferencia de outras comunidades.

Crescendo num local que tem a ferrovia como matriz e referência, alguma vez ponderou seguir uma profissão ligada a esta área?

Tem tudo a ver com as oportunidades da vida ou com a nossa busca. O que é relevante nesta comunidade ferroviária e militar é que, sendo pessoas que ocupavam lugares diferenciados também procuravam melhorias para as suas vidas e as sua famílias, levando-as a investirem na formação dos seus filhos. Não era muito frequente irmos para a universidade, mas aqui há um grupo de pessoas da minha idade que chegaram às universidades e fizeram formação superior. Eu seguir uma carreira na ferrovia nunca se colocou talvez porque foram surgindo oportunidades de vida diferentes. Trabalhei praticamente sempre durante o tempo em que estive a estudar na universidade, inicialmente dando aulas no ensino secundário e a partir do quarto ano comecei a trabalhar na área dos transportes, mas ferroviários. Tive uma ligação aos transportes durante quase nove anos na Rodoviária Nacional.

Fotos: mediotejo.net
Fotos: mediotejo.net

O percurso profissional começou com o ensino, mas não foi sempre assim.

Comecei a dar aulas no ensino secundário com 18 anos e poucos dias por uma situação curiosa e porque não gosto de estar parado. Terminei o secundário em 74 e como tinha notas para dispensar os exames, no dia 25 de abril fiquei de férias. No ano letivo seguinte as universidades estavam com funcionamentos irregulares e eu fui estudar para Económicas, na altura no ISEF [Instituto Superior de Economia e Finanças].

De onde surgiu a apetência pelos números?

Eu não fui um aluno com notas brilhantes, mas sempre fiz as coisas com facilidade nessa matéria e tinha clara preferência pela área quantitativa. A opção surgiu naturalmente e resulta também da formação secundária que tive na área da contabilidade e administração. Não me questionei muito e tive a sorte de participar na reforma de ensino do Veiga Simão, que esteve na base da criação do Ensino Politécnico em Portugal no início da década de 70, quando foram criados os cursos, neste caso, o Curso Complementar de Contabilidade e Administração de habilitação aos Institutos Politécnicos. No âmbito dessa reforma, estava prevista a criação do Instituto Politécnico de Tomar que, por razões várias, não passou do papel, ainda que no ano de 74 eu tenha feito parte de uma comissão de estudantes que andou à procura de instalações para a sua instalação e era para iniciar a sua atividade no ano letivo de 74/75. Mais tarde, quando se criaram os politécnicos ao nível do distrito, Tomar reivindicou sempre e talvez seja uma das razões pelas quais somos hoje, penso eu, o único distrito de Portugal que tem dois institutos politécnicos. Havia aqui uma luta histórica.

Além dessa, que outras lutas foi travando aqui na região desde essa altura?

Tratam-se de realidades que hoje não são fáceis de perceber. Na minha época, eu e os meus colegas estávamos a despontar para um conjunto de preocupações e de perceções, algumas participações cívicas. Em Tomar havia dois cafés, um era da situação, o Paraíso, e outro da oposição, o Santa Iria. Eu e outros andávamos a despontar para essa realidade, por vezes de forma um pouco imatura, até fruto da nossa origem e vivência da cidade do Entroncamento. Por exemplo, no final de 73/74 éramos um grupo de jovens com pretensão de ter alguma intervenção social e recebemos uns panfletos de apoio à luta dos vidreiros da Marinha Grande. Andámos a distribui-los às escondidas e houve um amigo meu que foi pôr um panfleto na antena do carro da polícia enquanto nós estávamos na esquina à espera que ele fizesse aquele ato de grande coragem e depois abalámos a fugir. (ri-se) Também estávamos confrontados com a aproximação da idade em que tínhamos de cumprir o serviço militar obrigatório e a perspetiva de ter que ir para a guerra colonial.

A ideia de ir para a guerra assustava-o? Como encarava essa possibilidade?

Eu tinha colegas que saiam ainda sem completar os estudos secundários para irem para a tropa e depois para irem para a guerra colonial. Era uma preocupação que nos começava a limitar a vida. Um pouco um misto de preocupação social, mas também de aventureirismo que era normal na juventude.

E esse aventureirismo levou-o até onde?

Lembro-me de um episódio muito giro. Eu procurei ter alguns trabalhos de férias desde muito novo por uma razão muito simples. Sabia que os meus pais me podiam proporcionar algum apoio, mas se eu queria outro tipo de férias tentava perceber quanto precisava e tentava arranjar um trabalho de férias na justa medida para obter o que precisava. Na altura estávamos a descobrir o Algarve e a própria costa. Começámos então a fazer férias sozinhos, acampando, como forma de afirmação da nossa independência. Há um ou dois trabalhos que tive e me lembro de serem bastante duros, não deixaram de ser importantes como base de formação. Um deles foi numa fábrica de conserva de tomate na zona dos Riachos a pregar caixas de madeira para apanharem os tomates e outro era trabalhar com uma forja com a palavra Unital a fogo nessa madeira. Em julho ou agosto não era muito agradável, além de ser um trabalho que exigia 12 horas por dia e eu ia e vinha de bicicleta. Mas pronto, eram trabalhos de 15 dias ou três semanas para conseguir ter um complemento para ir de férias para aqui ou para acolá. O facto de muitos de nós sermos de famílias ferroviárias tínhamos também a vantagem de podermos viajar nos comboios com alguma facilidade – foi uma luta que os ferroviários conseguiram ganhar, a reposição desses direitos antigos. Cheguei a ir para o Algarve com cinco tostões no bolso porque sabia que tinha comboio para casa.

E hoje? Prefere o carro ou o comboio?

Sempre que posso e tenho horários para ir a Lisboa prefiro ir de comboio. A maior parte dos horários não se coaduna e acabo por viajar mais de carro. Infelizmente, nos últimos anos temos desinvestido numa oferta ferroviária que permita potenciar as deslocações das pessoas. Tirando a linha do norte, outras como a da Beira Baixa têm pouca oferta e dificultam as deslocação que não sejam de início ou fim do dia e isso tem feito com que as pessoas se afastem do comboio. É um excelente meio de transporte, permite apreciar a paisagem, ler e dormir. Não vamos no stress da condução, é mais económico e mais amigo do ambiente.

Fotos: mediotejo.net
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Além da utilização do comboio por lazer existem aqueles, do Entroncamento e da região, que todos os dias o utilizam para sair daqui e ir trabalhar. Como lida com a expressão de que o Entroncamento é um dormitório de Lisboa?

Isso deve ser visto como uma oportunidade e já houve épocas em que o Entroncamento foi mais e menos dormitório da capital. Hoje em dia saem diariamente daqui cerca de 5.500 pessoas para trabalhar fora, em Lisboa e nos concelhos vizinhos, e entram para trabalhar, vindos de outros concelhos, cerca de 4.500. Há um saldo que ronda as 1.000 pessoas entre as que saem para trabalhar e os empregos que são proporcionados na cidade a pessoas de outros concelhos. Essa é uma realidade que, claramente, já se esbateu. A proximidade de Lisboa tem que constituir para nós uma oportunidade e como temos um conjunto de ofertas na nossa cidade, desde educação, lazer, saúde – infelizmente, ao nível do Centro Hospitalar do Médio Tejo tem havido algumas dificuldades, mas temos uma Unidade de Saúde Familiar de excelência – iniciativas ligadas aos idosos, etc. pensadas no sentido de criar condições para que as pessoas que aqui vivem tenham uma vida com qualidade. A deslocação do Entroncamento para Lisboa, sendo dura para quem a faz todos os dias, não é muito anormal daquilo que se passa em outras regiões do país ou da Europa, onde deslocações de uma hora, uma hora e meia são frequentes. Será, de facto, muito mau se os dois elementos do casal tiverem que se deslocar para Lisboa ou outro lado qualquer. Se um deles conseguir trabalhar aqui ou perto consegue dar um apoio mais próximo aos filhos e um equilíbrio interessante.

O que recomenda para fazer na cidade a quem regressa ao Entroncamento num final de dia, vindo do trabalho em Lisboa ou noutros sítios?

(reflete) Há uma evolução entre a vida quando eu era mais jovem e a vida de hoje. Perdeu-se muito aqui uma intervenção de cidadania. Eu recordo-me quando tinha 17/18 anos e até quando andava a estudar em Lisboa, havia três ou quatro pontos de reunião dos jovens e que era fácil termos todos uma perceção do que estava a acontecer, etc. Havia uma participação muito ativa nas associações desportivas, culturais e outras da cidade. Nos últimos dez anos, a cidadania ativa regrediu no Entroncamento, em algumas situações substituída por intervenções muito suportadas nas novas tecnologias – facebooks, etc. – que, por vezes, são contraditórias com aquilo que são os interesses de uma comunidade e desde que estamos na câmara temos procurado ter uma relação de grande proximidade com as associações para que através delas se recuperem as formas de cidadania e participação na vida da cidade. Lanço o desafio para que as pessoas participem. Obviamente, quem trabalha em Lisboa não tem tantas hipóteses de participar nas atividades ao fim do dia, mas pode fazê-lo ao sábado ou ao domingo.

Ao nível das atividades, a cidade tem procurado afirmar-se em diversas áreas que vão para além do legado ferroviário e dos fenómenos, nomeadamente ao nível do desporto com o Complexo Desportivo e a Ciclovia. Podemos considerar que o Entroncamento também é a cidade desportiva?

Nós não temos uma visão elitista do desporto. Temos uma visão do desporto e da qualidade de vida, uma vida saudável, para todas as idades. Tivemos a preocupação de incentivar e desenvolver relações com as associações desportivas e culturais, potenciando as infraestruturas que temos, e de desenvolver programas que fechem as pontas. Estendemos a educação física a todas as escolas do pré-primário, da responsabilidade da autarquia, e temos um programa para os idosos, o Viver Mais Ativo, que tem tido uma frequência por volta de 220/230 pessoas. Ainda não conheço os dados do ano letivo que está a começar, mas pretendemos ultrapassar este número. São iniciativas que oferecemos à população com formatos específicos. Nas escolas pré-primárias são técnicos da câmara ou contratados pela câmara que fazem as aulas de educação física e no programa dirigido aos idosos a câmara oferece as infraestruturas, os técnicos e as aulas/especialidades.

Estamos a falar de pessoas num concelho densamente povoado e aqui passamos da sua formação ligada à Economia para a relacionada com a Gestão e experiência profissional na área dos Recursos Humanos. Quais são os principais desafios de gerir um concelho com estas caraterísticas?

Existe um desafio que é fundamental, as pessoas. Quando desenvolvi a candidatura à câmara municipal, tínhamos uma ideia de que era uma cidade para as pessoas e esse é o nosso desígnio, criar uma cultura em que a pessoa é o elemento central. Isso tem a ver com a minha formação académica e as minhas experiências profissionais. Na altura podia ter escolhido entre uma licenciatura entre Economia ou Gestão e optei por Economia por uma preocupação social e macroeconómica. Teria sido até mais fácil, pela formação do secundário, ser Gestão porque era mais intuitiva, mas fiz essa formação em Economia que foi importante para estruturar o meu pensamento. Depois trabalhei quase sempre em gestão, ainda que ligada às organizações ou às pessoas e foi nessa área que fiz as formações subsequentes. Quer o mestrado, entre 92 e 95, na área dos Sistemas Organizacionais, quer o doutoramento, em 2006, na área da Gestão ligada aos processos de liderança, no caso concreto para a gestão pública. Esta missão que eu assumi tem esse desígnio de contribuir para a melhoria de vida das pessoas. O primeiro grande objetivo estratégico era arrumar a casa do ponto de vista financeiro. Era um município altamente endividado, com estruturas de custo desadequadas e, sobretudo, sem rumo.

Se pensarmos nesse cenário como uma linha ferroviária que necessitava de manutenção quando foi eleito em 2013, volvidos três anos qual é o ponto da linha que ainda não está como desejaria?

Nestas coisas, nunca existem projetos concluídos. Já conseguimos equilibrar a situação financeira e reduzir substancialmente a dívida. Eu espero atingir uma dívida de 10 milhões no final de 2016, quer dizer que relativamente ao momento em que entrámos reduzimos a dívida num terço. Os projetos que temos preparado vão no sentido de melhorar a mobilidade e tentar que as pessoas voltem a viver o centro da cidade. Não haver pessoas no centro da cidade leva a maior insegurança, que as pessoas não saiam, não convivam, não passeiem, etc. O grande desígnio é o da cidadania e da inclusão. Vem a propósito esta questão política do momento relacionada com o imposto especial sobre o património e li há poucos dias uma ideia que eu partilho. Vivemos num sistema – é um chavão dizer que é melhor do que todos os outros, mas é verdade – sobretudo na Europa, em que temos desenvolvido níveis de justiça social e igualdade, de iniciativa e participação que eu claramente prefiro a qualquer outro sistema do mundo, talvez com exceção da Austrália ou da Nova Zelândia. Sem criarmos riqueza, nem desenvolvimento não podemos distribuí-lo. Mais importante do que acabar com os ricos é acabar com a pobreza. Não acabar com as pessoas terem a livre iniciativa e a capacidade de iniciativa, mas acabar com situações em que as pessoas que tiveram um azar na vida sejam lançadas para uma situação de exclusão. É muito importante que consigamos desenvolver uma comunidade de inclusão, de igualdade, de oportunidades em que os outros não sejam deixados para trás.

Muitas pessoas atribuem a responsabilidade de criar essas oportunidades aos organismos públicos. A sua tese de doutoramento e o livro lançado em 2012 [Liderança e Gestão Pública em Portugal. Caraterísticas e Implicações no Desempenho Organizacional, 2012] atribuem a eficácia destas entidades a quem as dirige. Enquanto presidente de câmara, mantém esta conclusão ou o “sistema” tem influência?

(reflete) A investigação foi desenvolvida em 2003/2004 e são conclusões que vêm na linha de outras investigações com a conclusão de que o resultado das organizações, sejam elas públicas ou privadas, não pode ser dissociado das caraterísticas de liderança de quem está à frente delas. Esses resultados podem ser mais ou menos potenciados em função de alguns constrangimentos de contexto e é verdade que numa câmara municipal, daquilo que vou conhecendo no contacto com colegas de outras câmaras, o resultado de uma organização tem muito a ver com a liderança e a tipologia de liderança que é posta em prática. As lideranças devem ser adequadas em função do contexto e da realidade e isso é mais ou menos potenciado pelos constrangimentos estruturais. A intervenção na câmara, minha e da minha equipa, teria sido mais facilitada se tivéssemos uma estrutura financeira mais adequada, um quadro organizacional menos hierarquizado e formalizado. Não tendo, trabalhamos com os condicionalismos com os quais somos confrontados.

Fotos: mediotejo.net
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As decisões que toma enquanto presidente de câmara refletem a pessoa que está por trás do cargo?

Por mais que sejam funções, há sempre uma marca pessoal. Por exemplo, nós somos uma comunidade com uma ética cristã, com um conjunto de valores diferentes da chamada ética protestante. Muitas das razões apontadas para uma maior eficácia de funcionamento das sociedades do norte da Europa tem a ver com essa diferenciação. No norte da Europa são baseadas na ética protestante, mais dirigida ao trabalho e ao conseguir sucesso por si enquanto pessoa. Na ética cristã existe a necessidade de termos um conjunto de pessoas que veneramos, como santos, e de institutos ou figuras. “Se eu não for feliz na Terra sê-lo-ei no Céu, se eu não fiz isto foi porque o meu Deus não me ajudou”. Não sendo uma pessoa católica praticante, considero-me agnóstico embora tenha uma formação católica cristã que respeito e acho importante para a minha formação e para a minha geração, acho muito importante esta ética de valores centrada no indivíduo. Nunca tomei qualquer opção profissional por questões financeiras e entendo que possa dar algum contributo para melhorar a vida das pessoas. Sempre me habituei a ter opiniões próprias, a expressá-las quando entendo. Não tive nem tenho uma participação política tão ativa como outras pessoas, mas sempre fiz questão de pensar pela minha cabeça, tentar conciliar aquilo que penso com o que seja importante para os outros e é nessa perspetiva que eu acho que posso fazer a diferença.

Vamos, então, imaginar por momentos que não existem limites orçamentais. Qual era a ação, ao nível do concelho do Entroncamento, com a qual gostava de fazer essa diferença?

Não havendo esses limites, a minha visão da cidade é que nós possamos intervir no espaço público de forma a devolver ao cidadão a fruição desse espaço público. Quando eu era miúdo, fazendo sempre a ligação entre o passado e o presente, havia milhares de bicicletas no Entroncamento porque havia menos carros e dinheiro, mas também porque havia outra condição para as bicicletas circularem na rua. Nas ruas de hoje, fruto de um progresso muito rápido ao nível da construção de habitação, não se acautelou devidamente o espaço para o cidadão poder fruir, portanto uma prioridade é devolver esse espaço ao cidadãos melhorando as suas capacidades de mobilidade sem ser de automóvel, quer a pé, quer de bicicleta. Outra é eliminar as ligações entre as duas partes da cidade. Para o bem e para o mal, temos um rio seco, uma linha que separa as duas partes da cidade. A rede de ciclovias que temos prevista tem a cereja no topo do bolo numa ligação das duas estruturas da Freguesia de São João Baptista e da Freguesia de Nossa Senhora de Fátima através de um túnel a construir por baixo da estação.

Túnel esse que viria colmatar as diversas questões levantadas sobre a passagem pedonal superior?

Exatamente. Que viria melhorar o acesso às gares e ao comboio de forma segura e funcional. O que temos hoje não é funcional, não é seguro e, sobretudo, não é adequado ao século XXI.

Outra questão que tem sido levantada é o acesso por parte dos meios de socorro em caso de acidente…

É, de facto, uma questão que nos aflige e temos transmitido essa preocupação. Esta passagem inferior da estação seria um túnel ciclável e teria no seu interior não só as bilheteiras, um ou outro ponto comercial, parques de bicicletas e permitiria o acesso às gares individualmente de forma segura e fácil. Abríamos a cidade, alterávamos toda esta forma de pensar a cidade e diminuíamos os carros. Hoje em dia acontece que se eu quero comprar um bilhete de comboio tenho que me deslocar à parte sul da cidade, na parte norte vive 65% da população. Segundo, uma cidade que pudesse ser lugar de oportunidades com capacidade de fixar o crescimento da atividade económica, empresas e outras instituições que gradualmente proporcionassem emprego às pessoas que cá vivem e permitissem a fixação de instituições a esse e outro nível, levando à criação de ofertas para que as pessoas pudessem viver, trabalhar e estudar na nossa cidade. Terceiro, uma cidade não pode estar isolada das outras cidades à volta e é importante que tenhamos capacidade de pensar estrategicamente os vários núcleos urbanos que se ligam. Eu já tive a oportunidade de falar informalmente – havemos de falar sobre isso em breve e forma mais sustentada – com os senhores presidentes das câmaras da Barquinha e de Torres Novas para que pudéssemos criar uma estrutura de transportes urbanos que pudesse ligar estes centros urbanos e desenvolver a mobilidade inter-regional e interurbana.

Criar novas dinâmicas territoriais?

Sim. Por exemplo, o Centro Hospitalar do Médio Tejo é uma realidade que todos nós conhecemos e tem um conjunto de constrangimentos. Já tive a oportunidade de expressar, numa reunião com responsáveis da saúde, o que muitos de nós temos dito: do ponto de vista da economia, de uma sociedade mais adequada, que estas três unidades fossem encerradas, desativadas. Não quer dizer que não pudessem ser transformadas, por exemplo, em Unidades de Cuidados Continuados, mas era mais económico e adequado desativar estas três unidades e construir de raiz uma nova unidade, talvez na Atalaia, aqui nesta zona. Mais próxima da procura e das populações em zonas onde existem melhores níveis de transportes públicos e, dessa forma, tornar mais fácil a alocação de profissionais de saúde nestas unidades e o acesso das pessoas à saúde. Temos que procurar criar condições para que as pessoas tenham acesso à saúde e não o contrário, ou seja, a saúde tem que ir ter com as pessoas e não as pessoas irem ter com a saúde. Nós hoje temos três unidades que, por razões várias e muito louváveis, resultaram da capacidade de pressão dos autarcas dessas zonas. Muitas vezes, a nossa pressão vendo apenas a nossa dimensão individual não é exatamente a produção do interesse coletivo e é o que acontece. Nós temos três unidades que a dada altura alguém teve esta tentativa de gerir como uma só e que é, a meu ver correta, mas que no dia a dia tem um conjunto de dificuldades para as populações que faz com que estas estejam mal servidas.

Chegado o fim do almoço e aproveitando a expressão “saúde”, também utilizada quando as pessoas brindam, chegamos à última questão da entrevista. Brindamos a quê?

É fácil. Brindo a si, a mim, às pessoas e, em especial, ao Entroncamento.

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1 COMENTÁRIO

  1. Gostei desta entrevista e especialmente da parte final onde fala da “reoganização” do CHMT. Até que enfim que um autarca da região pega neste mote que, por acaso ou talvez não, venho a defender há mais de 10 anos. Boa entrevista.

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