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Entrevista: À mesa com… Fernando Freire

Lançámos o convite para nos sentarmos à mesa com Fernando Freire e o presidente da Câmara Municipal de Vila Nova Barquinha aceitou. O local escolhido foi o Parque de Escultura Contemporânea Almourol para um lanche num final de tarde de verão, com vista para a natureza e a cultura. A primeira hipótese foi um piquenique, mas a esplanada ganhou e foi ali que conversámos sobre o que dá gosto à vida do autarca e ao concelho.

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O calor aperta, mas a brisa que vai soprando quando chegamos ao Parque de Escultura Contemporânea Almourol convida para um final de tarde na esplanada. Fernando Freire sabe-o bem e entre as diversas refeições possíveis para nos sentarmos à mesa optou por um momento refrescado pelo granizado de laranja e salgado pelos cajus.

Nenhum produto é típico do concelho para onde veio morar há cerca de três décadas, “enamorado” por uma atalaiense, e do qual é presidente de câmara desde 2013. Mas o facto deixa ser relevante quando nos descreve os sabores mais marcantes da vida começada na Beira Baixa, com passagem por Lisboa, e os principais ingredientes da receita “Barquinha”.

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Comecemos a história pelo início. Nasceu perto do Médio Tejo, em Oleiros (Castelo Branco), mas entretanto mudou-se para a região e o concelho de Vila Nova da BarquinhaVeio devido ao serviço militar?

Não. Fui chamado antes, em janeiro de 1981, quando exercia a minha atividade comercial na minha terra natal, em Oleiros (Beira Baixa) e vim no cumprimento do serviço militar obrigatório para Tancos, para a Força Aérea. Estive no concelho de Vila Nova da Barquinha três meses. Em abril de 1981, fui colocado na Portela e nunca mais saí de Lisboa porque havia a vantagem de ter aquilo que eu queria continuar e, infelizmente, as posses dos meus pais eram um bocadinho reduzidas. Fiquei por lá, onde me realizei em termos profissionais e académicos.

Respondendo diretamente à questão porque vim para aqui: vim porque conheci uma jovem na altura, a 27 de janeiro de 1985, na Atalaia e por aqui fiquei. Enamorei-me (ri-se)… a terra era bonita, a rapariga também era bonita e pronto. “Queres tu e quero eu?” A 4 de junho de 1988, quando casei, fiquei a morar na Atalaia. Sempre a trabalhar em Lisboa e, como muitos dos meus munícipes, vindo todos os dias de comboio. Por aqui fiquei porque, como eu costumo dizer, gosto de passear pelos montes e pelas fontes. Sou um animal do campo e Lisboa não tem a qualidade de vida que aqui se tem.

Durante esse tempo teve contacto com sabores típicos da Beira Baixa, depois da capital e mais tarde do concelho. Gosta deles todos ou existe algum mais especial?

Há pratos típicos fabulosos que, no fundo, também são a identidade das gentes e fazem parte da própria cultura. Na Beira Baixa, na minha terra natal, destaco alguns como o cabrito estonado à moda de Oleiros, aliás (abre um sorriso) muito apreciado pelos colegas da minha comunidade intermunicipal, com quem já tive o prazer de visitar Oleiros e comer o maravilhoso petisco. Depois temos também as filhós e, claro, o maranho, que é magnífico. Isto na área do comer. Na área das bebidas temos o vinho Callum, uma casta única em Portugal que é, inclusive, muito apreciada pelos meus munícipes porque vamos fazendo aqui uns intercâmbios “gastronómico-culturais”. Ainda no mês passado levámos daqui um autocarro de 50 lugares para Oleiros para provarem o pitéu e também o medronho. Aquela terra, em termos de gastronomia é, de facto, muito rica.

E os sabores da capital?

A gastronomia é variada. Sobretudo nos anos 60 e 70 houve grande deslocalização de pessoas da província para Lisboa, onde se fixaram e criaram a sua restauração. Lá é possível apreciar pratos de todas as regiões, desde o Minho ao Algarve. Aliás, ainda na semana passada falava sobre isso com o embaixador do Reino da Bélgica em Portugal e dizia-lhe que o que atrai os estrangeiros é a nossa variada e excelente gastronomia. Em Lisboa é possível apreciar isso, temos é que saber escolher as casas ideais e eu tinha o grande privilégio de as conhecer quer da vivência da Força Aérea, que é muito dada ao convívio social, quer da própria faculdade, onde nos cruzamos com pessoas de todo o país. Isso permite-nos ter um caldo social e gastronómico muito significativo.

Chegamos à Barquinha.

Claro que tinha que falar sempre na Barquinha e aqui podemos falar dos recursos endógenos da região, nomeadamente o sável, a lampreia e o peixe frito do rio, que são uns excelentes pitéus. Como disse, isto é um caldo cultural e um caldo gastronómico, mas também tenho curiosidade de ler. O livro do professor Armando Fernandes sobre os petiscos que existem, por exemplo, em Mação, nesta zona de transição entre a Beira Baixa e o Ribatejo.

fotos: mediotejo.net
fotos: mediotejo.net

Digamos que é um ponto de encontro de sabores…

Sim, é um ponto de encontro de sabores e isso é uma riqueza fabulosa que temos, que vem de conhecimentos ancestrais e que tem passado de geração em geração. Temos que dar continuidade a estes conhecimentos gastronómicos e não deixar cair. A comida mediterrânica é muito à base de azeite, tal e qual como na Barquinha, foi em tempos um elemento fundamental na alimentação. Neste momento temos ainda, graças a Deus, uma produção no nosso concelho. É este caldo que nos leva a formar amizades e a partilhar experiências comuns.

Falando de caldo gastronómico-cultural, a Barquinha tem-se afirmado nos últimos tempos não apenas como uma terra onde se alimenta o corpo, mas também como um espaço onde é possível alimentar a mente com ciência e arte.

Sim. Aliás, eu não falo em alimentos, eu falo em sentimentos. É o sentimento do bem-estar quando degustamos qualquer tipo de alimentação, nomeadamente a nossa das zonas ribeirinhas do Tejo, mas também é sentirmos a arte e ciência de Vila Nova da Barquinha. Este caldo tem sido uma aposta do município. Dar aos nossos visitantes e aos nossos munícipes diversos tipos de exposição, como as do âmbito da parceria com a Fundação EDP, com a qual acabo de adjudicar para o próximo ano um projeto de arte em rede para distribuir pelas freguesias. No âmbito da inclusão social vamos ser um dos primeiros municípios a envolver a própria comunidade, as próprias associações e também a criar arte nas freguesias do concelho. Quer com exposições que temos na Galeria de Santo António e na Galeria do Parque, quer também com o envolvimento das próprias populações. Este é o trabalho do Centro de Estudos e Arte Contemporânea, onde é possível verificar os vários ateliers que temos, desde o desenho, à pintura, à fotografia, ao vídeo, ao teatro e às marionetas. Também chamando a esse local várias pessoas que, durante a sua vida, viveram e sentem as coletividades, as forças vivas do concelho, para se pronunciarem e serem ouvidas sobre as suas experiências e as vivências para que fiquem gravadas para memória futura. É muito importante que esta cultura seja aprendida desde pequeno, daí a preocupação em ir à escola para que os meninos possam mexer e participar na própria feitura das obras, nas pinturas e nos teatros.

Essa preocupação também se estende à gastronomia?

Também temos feito workshops e o último sucesso foi o do chocolate, tivemos sempre casa cheia. Há aqui um fator essencial, que não é novo e toda a gente utiliza. Os meninos gostam das questões, a partir daí eles trazem os pais e estes sentem necessidade de se envolverem.

Até porque muitas das atividades desenvolvidas juntam a cozinha e a ciência.

E não só. Temos cafés com ciência, temos jantares com ciência, temos dança com ciência. Temos todas as temáticas transversais ao próprio território. Levamos os nossos pescadores a esses jantares, envolvemos a própria comunidade, sempre em colaboração com a Escola Profissional Gustave Eiffel. Durante o ano temos atividades lúdicas, de gastronomia e já que estamos a falar de cultura há a questão das visitas aos locais. As plantas, a botânica, os passeios culturais… É sentir arte e ciência na própria escola numa simbiose que envolve todos e nos últimos anos teve uma ascensão significativa que nos leva a pensar que este projeto, passadas que estão algumas limitações orçamentais em termos de investimento, possa passar das esculturas do parque para uma arte de rua no próximo ano em todas as freguesias. Queremos chamar o projeto de escultura do parque, vivenciá-lo e inseri-lo no espaço urbano da Barquinha para que seja uma vila equilibrada e sustentável.

fotos: mediotejo.net
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Ainda sobre sabores, não podemos esquecer os do passado e existem os famosos “Pirilaus do Frade Ambrósio”, que regressaram há uns anos…

Em 2012.

…e voltaram a desaparecer. Existe alguma previsão para o seu reaparecimento?

Essa é uma das lacunas que estão identificadas por parte do município quando o parque foi feito e as infraestruturas que foram nascendo à sua volta. Implica o processo de insolvência da empresa que fazia esse produto e neste momento está na praça para fazer uma aquisição. Faz falta no centro da vila uma pastelaria com excelente qualidade que possa promover os produtos regionais como os pirilaus e não só. Vila Nova da Barquinha também tem os bolos de noz, muito apreciados, e que encomendo para oferecer quando vou para outros territórios. Não fugindo à questão, o pirilau é um produto fabuloso. O próprio conceito está muito bem construído. A própria história está muito bem construída…

Com o surgimento no Convento do Loreto.

Sim. Uma miscelânea com as freiras de Odivelas, ou seja, toda a história, toda a envolvência, toda a troca entre os frades e as freiras de Odivelas faz parte deste enredo, no fundo, mítico do pirilau. Mesmo o próprio nome é extremamente comercial e apelativo daí o termos levado às 7 Maravilhas da Gastronomia em termos nacionais. Existe disponibilidade por parte do município, mas também acho que a câmara não se deve substituir aos privados. Tem sido uma das nossas perspetivas do Gabinete de Apoio ao Desenvolvimento Local que as pessoas se sintam envolvidas nos projetos. Estamos com capacidade neste momento para poder ajudar e apoiar todo esse tipo de projetos, nomeadamente com a aprovação, na semana passada, do ninho de empresas, onde vamos reservar no rés-do-chão alguns espaços para os recursos endógenos e a criação de pequenas start-ups ligadas precisamente à gastronomia. Essa é uma das apostas do município.

Município ao qual está ligado desde que se tornou vereador em 2009 e presidente em 2013. Esta exposição pública mudou-lhe a postura quando se senta à mesa num restaurante do concelho?

Não. Eu gosto de viver no meio das pessoas, gosto da proximidade, de estar presente. Sou assim mesmo e vou a vários restaurantes sem estar preocupado com a figura pública. Quando vou com os meus amigos é um amigo que está ali. Empenho-me enquanto autarca, mas no rol de amizades numa mesa não está lá o autarca, está lá o Fernando. Não me sinto reservado ou imiscuído de estar ali numa conversa. As coisas têm que ser saboreadas e a gastronomia é um excelente pretexto para uma boa conversa e para um bom debate. Não só em termos políticos, como em termos sociais ou causas nobres e faz todo o sentido que assim seja.

fotos: mediotejo.net
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Ou seja, a política não deixa de ser um dos temas abordados à mesa.

Sim, com toda a razão. Eu costumo dizer que tenho amigos em todos os quadrantes políticos. Não tenho reserva mental sobre ninguém por ter uma convicção política diferente da minha. Discuto com frontalidade e lealdade e acho que é assim que se deve estar na vida política.

E em casa? A política senta-se à mesa ou está proibida?

Não, senta-se muitas vezes à mesa (ri-se). Eu acho que se senta mais vezes em casa do que cá fora, até porque o confronto de ideias entre mais novos e mais velhos nem sempre são consentâneos com a minha maneira de pensar. É a altura que vemos o telejornal, das únicas em que damos atenção à televisão, e há sempre notícias que geram alguma controvérsia, mas é normal isso acontecer.

E passando da mesa para a cozinha. Gosta de cozinhar?

Eu gostar, gostava, mas infelizmente não dá tempo. É completamente impossível. As pessoas não têm essa noção, nem eu tinha, do trabalho que dão as questões autárquicas. Tenho pessoas à espera quando chego para jantar, ainda estou a jantar e já estão a bater à porta para as atender. Depois há as reuniões, por exemplo, ainda hoje vou para uma às oito horas. O cozinhar acontece sobretudo na altura do verão, em que estou sempre requisitado na área do churrasco e faço-o com muito gosto. Em casa, a gastronomia está entregue à matriarca, a minha sogra, que é uma excelente cozinheira. O Fernando, quando consegue fugir da mesa ou da cozinha, vai para o escritório. Um presidente de câmara tem sempre muito trabalho para preservar a qualidade de vida do seu concelho. Tenho um especial carinho pela educação porque fizemos grandes investimentos, mas às vezes não basta termos as escolas, os equipamentos. Não basta gastar 12 ou 13 milhões de euros. Temos que dar todas as condições às pessoas e, essencialmente, motivá-las para sentir a escola nestes tempos complexos e é importante que as pessoas tenham essa noção. Estamos a fazer muito com poucos recursos humanos e isso deve-se à entrega dos trabalhadores. Enfim, é o sinal dos tempos.

fotos: mediotejo.net
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Se pensarmos em Vila Nova da Barquinha como uma receita… Quais são os três ingredientes principais do concelho?

Turismo, cultura e… rio Tejo.

Acha que falta algum?

Eu acho que Vila Nova da Barquinha, neste momento, não precisa de mais nenhum. Acho que temos um concelho equilibrado em termos de infraestruturas… Aliás, temos que questionar o que nos falta. Falta-nos um rio mais saudável, ou seja, uma luta que temos tido pela própria sustentabilidade, como o congresso que tivemos há dias. Um rio com qualidade. Temos turismo, temos gastronomia com as espécies endógenas que são pescadas no nosso rio, temos património com o Castelo de Almourol e a Igreja Matriz de Atalaia, temos um parque fabuloso onde podemos ver pessoas a passear e temos todas as condições. Além disso temos todo o trabalho que tem sido desenvolvido pelas associações, que é fabuloso. Neste momento temos que apostar na regeneração urbana, na parte da vila que já está a ficar mais bonita. O objetivo que temos é recuperar o património que temos na zona baixa e os privados começarem a investir no concelho. Há algumas intenções na área dos negócios e é muito bom que isso aconteça.

Para terminar, qualquer boa conversa à mesa envolve um brinde. Hoje brindamos a quê?

Brindamos ao sucesso de Vila Nova da Barquinha enquanto concelho, sempre por uma vila mais bonita. Uma vila que goste de sentir arte, ciência e, por último, qualidade de vida, nomeadamente, brindemos a que o Tejo seja mais limpo e mais puro, porque todos o merecemos.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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