Entrevista: À mesa com… Anabela Freitas

Anabela Freitas, presidente da Câmara de Tomar. Foto: mediotejo.net

Convidámos Anabela Freitas a sentar-se connosco à mesa e a presidente da Câmara Municipal de Tomar optou por um pequeno-almoço no Café Santa Iria, não muito longe do seu local de trabalho. Foi na esplanada que conhecemos os pormenores da vida da primeira mulher a ser eleita presidente da autarquia tomarense e conversámos sobre o concelho que existe dentro e fora da mística templária.

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O combinado era um pequeno-almoço, mas Anabela Freitas revelou à chegada que este já estava tomado. Por norma, acorda às sete da manhã e não consegue sair de casa sem a primeira refeição do dia. Do nosso lado também tinha havido “batota” nessa questão e gerou-se consenso no café e no oitavo de água.

A entrevista foi sendo interrompida pelo “Olá, bom dia!” com que a presidente da Câmara Municipal de Tomar vai respondendo a quem a cumprimenta e chega a parar para conversar sobre assuntos de trabalho. Entre um “Olá, bom dia!” e outros, fomos conhecendo a campeã nacional de badminton, a fã de desportos motorizados, a cozinheira de bolos de chocolate, a deputada, a mãe e a amante de jazz.

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Muitas facetas que concilia diariamente com a gestão do concelho onde nasceu, no lado “espanhol”, marcado atualmente pelos cenários díspares de um legado rico associado ao Convento de Cristo, classificado pela UNESCO como Património da Humanidade desde 1983, e dos 42% da população sem saneamento.

Pouco se sabe sobre o lado pessoal da presidente da Câmara Municipal de Tomar, além da ligação à cidade por ter sido aqui que começou a vida e estudou. Comecemos por onde nasceu, literalmente, esta ligação.

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Nasci na antiga junta de freguesia de Santa Maria dos Olivais, na clínica que hoje em dia é a esquadra da PSP. Eu e a minha irmã nascemos lá e acho piada quando lá vou pois lembro-me de ir visitar a minha irmã. Tinha sete anos quando ela nasceu, e o edifício manteve muita da traça que tinha na altura. Tomar tem uma coisa muito curiosa. A ponte velha fazia a divisão entre “Portugal” e “Espanha”. Da ponte velha para lá era Portugal e da ponte velha para cá era Espanha. A parte mais nova de Tomar sempre foi considerada Espanha e então eu nasci em Espanha.

Neste momento trabalha no lado português…

(Ri-se) Sim, no lado português, mas trabalho para Portugal e Espanha.

A ligação ao concelho também surge com a formação académica no Instituto Politécnico de Tomar. Porquê a escolha pela área dos Recursos Humanos?

Era uma área que me interessava. Comecei a trabalhar em 1986 no Centro de Emprego em Torres Novas. Tinha acabado o 12º ano e entrado para o primeiro ano de Psicologia no ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada), em Lisboa. A minha mãe faleceu naquela altura, tinha a minha irmã 11 anos, e eu decidi deixar de estudar para tentar arranjar trabalho. Entretanto houve um concurso para o Instituto de Emprego e Formação Profissional e para o Ministério das Finanças. Concorri aos dois e ainda para dar aulas, fazíamos a inscrição em Santarém para completar horários. No dia em que soube que tinha entrado para o Instituto [IEFP] fui chamada para completar um horário de matemática e ciências naquilo que é hoje o segundo ano do segundo ciclo. Optei pelo Instituto e ainda bem porque para se ser professor é preciso ter vocação e eu acho que não tenho vocação nessa área.

Manteve-se a trabalhar enquanto estudava.

Depois fui concorrendo sempre que abriam concursos dentro do Instituto e fui mudando de categoria. O facto de trabalhar ali obriga-nos a lidar muito com empresas e desempregados e estamos a falar de pessoas, recursos humanos, que são o que faz a distinção entre as organizações. Os processos copiam-se, as tecnologias copiam-se, o recurso humano é que faz a diferença. Já estava a trabalhar quando decidi tirar o curso e tinha que ser em Tomar porque não faz sentido tirar fora um curso que existe na minha terra. Saí de Torres Novas, fui para o Centro de Emprego de Salvaterra de Magos em 91 e quando terminei já tinha regressado ao de Torres Novas. (Ri-se) Eu não gosto de estar muito tempo no mesmo sítio. Os americanos têm um estudo que diz que o máximo em que mantemos a nossa capacidade são sete anos na mesma organização e depois temos de ir mudando. Foram a Psicologia e o trabalho no Centro de Emprego que me despertaram para a área dos Recursos Humanos.

Estamos a falar de áreas relacionadas com pessoas e se há cargo com uma forte ligação às pessoas a presidência de uma Câmara Municipal. A sua formação e a apetência por estas áreas profissionais cruzam-se com o cargo que detém atualmente?

Eu acho que as coisas se complementam porque uma das características para se poder ser presidente de câmara, se é que se pode criar uma check-list, é saber ouvir, ter poder de encaixe e depois explicar às pessoas. Temos que ter a capacidade, em primeiro lugar, de descodificar porque a informação chega codificada às pessoas e adequar o nível de linguagem à pessoa que temos à nossa frente. Depois temos que explicar. As pessoas abordam-nos, sobretudo, com dois tipos de questões e um deles são as questões sociais porque há pessoas da mesma família no nosso concelho que estão a passar por graves problemas de desemprego. Outras questões que me colocam são do foro entre privados, algo em que a câmara não pode intervir. Às vezes é difícil explicar que não podemos entrar numa propriedade privada, não podemos obrigar um privado a repor uma legalidade. Temos que explicar pois devemos ter essa função pedagógica. Se adotarmos a postura autoritária enquanto presidentes de câmara de “eu sou o presidente, você é o cidadão e só preciso de si de quatro em quatro anos” não estamos a contribuir para a criação de cidadania. O cidadão para poder intervir na vida pública tem que ter informação.

A ligação à câmara municipal leva a que muitas vezes uma pessoa seja conotada como “parte do sistema”. Sente esse fosso, essa descrença geral da população nas entidades públicas?

A população está desinteressada e eu consigo perceber porquê. Gosto muito de ver debates políticos e eu própria chateio-me de estar a ver aquilo. Às vezes penso que aquela gente está para ali a falar, mas aquilo não vai resolver o problema da dona Maria ou do senhor Joaquim. Se isso me incomoda, a mim que gosto, o que fará a um cidadão que não tem tanta apetência por isso. O facto de sermos rotulados “são todos iguais, são todos uns corruptos” sente-se mais quando era deputada. A nível local não é tão percetível porque as pessoas conhecem-nos. Há alguns casos do país em que o presidente de câmara é um paraquedista, como é o caso de Moita Flores quando concorreu a Santarém. Ele era uma figura pública, mas uma coisa é o que vemos na televisão e outra é o relacionamento do dia a dia. Eu tive de alterar algumas coisas no meu dia a dia. No entanto, apesar de ser a presidente continuo a ser a Anabela e as pessoas conhecem-me porque sempre vivi em Tomar.

Foi também em Tomar que se tornou na primeira mulher eleita para presidente da câmara municipal, no ano de 2013. Encara esse facto de forma especial?

Não. Eu acho que em alguma faixa etária, sobretudo de mulheres que fizeram parte do seu percurso e da sua vida adulta antes do 25 de Abril, o facto de ser mulher contou. Do meu ponto de vista, não faço essa distinção de género. É indiferente ser homem ou mulher nestas questões, apesar de ser óbvio que temos maneiras diferentes de gerir e de abordar as questões.

O pequeno-almoço foi marcado no Café Santa Iria. Fotos: mediotejo.net
O pequeno-almoço foi marcado no Café Santa Iria. Fotos: mediotejo.net

Falando em gerir, dizia-se antigamente que o homem sustentava a casa, mas era a mulher que sabia geri-la. Concorda?

(Ri-se) Essa frase surge da prática nos muitos anos em que a mulher estava em casa e o homem saía. Apesar da realidade atual não ser assim porque a mulher já sai de casa e pela quantidade de famílias monoparentais que existem no nosso país em que é a mãe que sustenta a casa, essa mentalidade ainda existe. Não se mudam em 42 anos mentalidades que estão enraizadas na nossa população há séculos e isso vê-se em coisas muito simples, como o horário do comércio que é igual ao que se praticava quando a mulher estava em casa. Hoje em dia, uma mulher que trabalhe vai fazer as compras quando? Ou faz na hora do almoço ou quando sai do seu trabalho. São pequenas coisas que mostram que isto ainda não mudou… daí o sucesso das grandes superfícies. Está consagrado em lei, mas depois na prática leva muito tempo a que haja uma verdadeira conciliação das duas vidas. Porque temos duas vidas.

Além da vida profissional, existem ainda as outras atividades e os hobbies. No seu caso remetem-nos para o badminton, uma modalidade na qual foi campeã nacional diversas vezes.

(Ri-se) Sim. Deliciei-me agora com os Jogos Olímpicos porque é raro ver badminton na televisão. Tivemos um atleta português [Pedro Martins], vi os jogos dele e ainda vi a final de singulares masculinos. Eu adoro badminton e comecei a jogar com 12 anos.

Chegou a pensar seguir essa carreira profissional?

Não. Estamos a falar de badminton há trinta e muitos anos… e ainda por cima de uma modalidade pouco conhecida. Para ser campeã nacional eu tinha de treinar todos os dias, pelo menos três horas por dia, e tenho consciência de que atingimos um limite, mesmo a nível físico, que não nos permite dar o nosso melhor. Por haver limitações físicas inerentes da idade nunca poderia fazer carreira nessa área. Pode questionar-me se pensei seguir a área do desporto quando estudava. Não porque nessa altura, além da psicologia, havia duas áreas que eu gostava muito, bioquímica e outra coisa que não tem nada a ver, mas ainda hoje gosto, é carros. Eu adoro carros. Eu adorava ser piloto de rali porque na minha altura havia uma condutora que era a Michèle Mouton e havia o Rali Vinho do Porto que parava em Tomar, tinha uma classificativa em Martinchel. Isto era uma loucura e eu sempre gostei muito de carros, de mecânica e de bricolage.

Com este gosto pelos carros, quem muda o pneu quando este fura e quem verifica o nível do óleo?

(Ri-se) Nunca precisei de mudar um pneu porque houve sempre uma alma caridosa que parou para me ajudar. De resto sou eu e até no trabalho da câmara as áreas que eu gosto mais são as áreas operacionais. Adoro o departamento de obras, gosto de ver nascer coisas, e adoro a área da Proteção Civil. São pelouros que não estão delegados, que estão comigo.

Já que falamos em Proteção Civil é impossível não abordarmos o tema dos incêndios, um problema que ganha maior destaque no verão. Nesta altura do ano vive-se em sobressalto enquanto presidente de câmara?

Sim. Tomar é o segundo concelho do distrito de Santarém com maior número de ignições. O primeiro é Santarém. Este ano mudámos um pouco a nossa estratégia de atuação e, felizmente, está a ter resultados. Os bombeiros costumam dizer que nenhum incêndio começa grande pelo que o ataque de primeira intervenção é essencial para que ele não alastre e este ano estamos a mandar mais meios para o ataque de primeira intervenção. Claro que isto obriga a um maior esforço por parte dos homens e mulheres do corpo de bombeiros e há muito por fazer. Desde que sou presidente de câmara que defendo a criação de Zonas de Intervenção Florestal (ZIF). Não pode ser a câmara a avançar, têm que ser parceiros. Havendo aquilo que a Catarina Martins apelidou de forma engraçada de “condomínio da floresta”, permite haver uma gestão daqueles territórios em termos de limpeza, de plantação e replantação de árvores que retardem o fogo, mas que também possa ter retorno económico. Estamos neste momento numa fase de criação de duas ZIFs no nosso concelho, mas o processo de criação de uma ZIF deve ser muito mais simplificado do que é neste momento.

Passando para a segunda área operacional que destacou, a das obras, existe a tendência para pensar no que ficará para o futuro. No caso de Tomar, podemos dizer que tem obras impossíveis de dissociar do passado, como é o caso do Convento de Cristo. Quando se tornou presidente de câmara sentiu estar a assumir essa herança?

Claro. Eu costumo dizer que nós temos o espírito templário. Podem pensar que são palavras de discurso, mas eu acho que nós, tomarenses, temos uma maneira de estar e ser diferente dos outros concelhos para o bem e para o mal. Os tomarenses têm na sua mentalidade, atenção que estou a analisar-me a mim própria também, somos muito do “orgulhosamente sós” e isto tem de mudar. Por outro lado, o peso que tivemos no passado, toda a História, todo o património que temos em Tomar obriga-me a tudo aquilo que eu faça, em termos de grandes obras, que honre esse passado. Qualquer presidente de câmara gosta de deixar a obra do seu mandato, uma grande obra, mas é engraçado não ser isso que as pessoas pensam. As pessoas querem que a pedra da calçada da sua rua esteja colocada, que as ruas estejam limpas, que a recolha do lixo seja feita e que a sua estrada esteja alcatroada. Pergunta-me então se é isso que um presidente de câmara tem que fazer para satisfazer a sua população e eu digo-lhe que isso é pouco. Eu costumo dar a imagem de que quando conduzimos não o fazemos a olhar para o capô do carro, mas sim para a frente. Essa questão tem que ser feita porque é isso que as pessoas querem, é isso que dá qualidade de vida às pessoas, mas também temos que pensar mais além.

E o que é pensar mais além?

Se pensarmos em termos de grandes obras, aquilo que eu acho importante em Tomar – nesses projetos que estamos a trabalhar e, felizmente, conseguimos ter financiamento para eles no âmbito do Portugal 2020 – é toda a requalificação da Várzea Grande. Se Tomar quer viver à base do turismo, como um dos factores estratégicos importantes, quem chega à cidade não pode ter aquele espetáculo.

O café deu energia à conversa e a água refrescou o calor matinal. Foto: mediotejo.net
O café deu energia à conversa e a água refrescou o calor matinal. Fotos: mediotejo.net

A Várzea Grande tem associada a questão de se tratar de um terreno doado com a condição de não se poder intervir…

(Interrompe) Eu também sempre ouvi isso. No entanto, já pedi aos serviços para fazerem… estão à procura de documentos para saberem o que podem fazer. Naquele espaço tem que ser feita sempre a Feira da Santa Iria e qualquer intervenção de requalificação vai ter que permitir que a feira lá seja feita. Esse é o grande desafio. Não é um projeto fácil por causa da questão do pavimento que lá iremos meter e permita que a Feira de Santa Iria seja feita. Aí é que tem estado a dificuldade, mas é um projeto que eu entendo que deve avançar. Depois, dentro da cidade temos zonas praticamente sem saneamento. Estamos no século XXI e isto é inadmissível. Tomar é dos concelhos do país com menor taxa de saneamento. A nossa taxa de cobertura de saneamento é de 58%, ou seja, 42% da nossa população não tem.

É uma prioridade?

O problema é não existir financiamento para isto, vamos ter que avançar a pouco e pouco. Não faz sentido praticamente dentro da cidade, estou a falar para o lado de Palhavã, não existir saneamento. O projeto está praticamente concluído para intervirmos lá. Depois temos toda a requalificação da avenida quando se entra em Tomar, a Avenida Dom Nuno Álvares Pereira. Uma coisa é a comunidade cigana, outra coisa é a requalificação daquela entrada. Obviamente que temos a questão da comunidade cigana. Isto é daquelas questões…

…tabu?

Sim.

Na última reunião de câmara foi referido o realojamento da família de etnia cigana na antiga casa das professoras no Marmeleiro e chegou, inclusivamente, a ser feita uma reunião com a população. Como se gere um tema delicado como este?

Se fosse um tema de fácil gestão já a questão estava resolvida. O acampamento cigano está naquela zona há mais de 40 anos e foi crescendo. O problema foi não se ter atuado logo na altura, quando havia só um clã. Neste momento existem quatro clãs. Muitas destas coisas derivam da falta de informação porque temos sempre medo do desconhecido. Se não conhecermos a cultura cigana e a cultura cigana não conhecer a nossa temos medo. Todas as questões que as pessoas levantam são questões de segurança e têm a ver com a intervenção policial. Um cigano que prevaricar tem as mesmas consequências que um não cigano. As pessoas dizem que a polícia tem medo, mas não tem.

Além da cidade propriamente dita e da ligação aos Templários, existe o resto do concelho. Se lhe pedisse para descrever Tomar sem o Convento de Cristo como o faria?

(Esboça um sorriso) Nós não nos podemos dissociar da História. Temos a presença judaica com a sinagoga mais antiga do país e em perfeito estado de conservação, temos todo um património histórico e natural no nosso concelho. Por vezes dizem-me que o facto de termos o Convento de Cristo tem tanto de bênção como de maldição porque pode levar-nos a, permita-me a expressão, ficarmos sentados à sombra da bananeira e ele por si só vende. O Convento de Cristo vende muito, mas o desafio é quem vai ao Convento e fica em Tomar. O target das agências de viagens não deve ser o nosso target. O nosso target deve ser o turista de família que pernoita duas ou três noites e aquilo que temos de oferecer a esse turista não é só a cidade, é o concelho todo e até a região. Tem de haver estratégia de comunicação e a realidade é que temos de trabalhar com os poucos recursos que temos. Em Tomar, com este património todo, na divisão de Turismo e Cultura temos sete pessoas que têm de assegurar a abertura dos monumentos e do cineteatro, os concertos e exposições que fazemos e ainda lhes é exigido que façam o Congresso da Sopa, a Festa Templária e todos os outros eventos.

Existe esta vertente cultural e tanto são realizadas iniciativas com ranchos folclóricos do concelho, como com grupos reconhecidos a nível nacional. Além disso, é sabido que é amante de teatro e…

(Completa)…de jazz. O jazz já tinha tradição em Tomar. Durante muitos anos foi organizado o Festival de Jazz e foi aqui que eu assisti – ainda havia o Cine Esplanada perto do estádio – a um concerto da Maria João e do Mário Laginha que eu achei divinal. Depois perdeu-se. Eu acho que primeiro é importante darmos visibilidade aos nossos, mas também temos de ver algumas coisas que se fazem para além do concelho. São poucas as pessoas da cidade que se deslocam a eventos nas freguesias e nós temos freguesias que fazem eventos muito bons, muito interessantes. Eu costumo dizer às pessoas que Tomar não é só a cidade, Tomar é muito mais do que isso.

Anabela Freitas é a primeira mulher eleita presidente da Câmara Municipal de Tomar. Foto: mediotejo.net
Anabela Freitas é a primeira mulher eleita presidente da Câmara Municipal de Tomar. Fotos: mediotejo.net

Tomar também é gastronomia. Qual foi a iguaria tomarense que lhe marcou a infância?

(Reflete antes de responder) Tomar está aqui numa zona de charneira entre a Beira e o Ribatejo e acho que não tem assim uma iguaria… Eu adoro as Fatias de Tomar, confesso. Aquilo é uma bomba calórica e só consigo comer metade. Adoro os Beija-me Depressa. (Reflete mais um pouco) Curiosamente, o doce que me marcou a infância não foi de Tomar. O meu pai é madeirense e as filhoses na Madeira fazem-se de forma diferente. Apesar de eu gostar muito das nossas também, a minha mãe fazia sempre as filhoses à moda da Madeira no Natal. Ela era de Ourém, mas como passou algum tempo na Madeira aprendeu a fazer lá e depois fazia cá como forma de recordar as raízes do meu pai. De Tomar, não existe assim um prato típico. Existem pratos que eu gosto muito e há restaurantes daqui que fazem esses pratos muito bem. Adoro de arroz de cabidela e estamos perto de um restaurante que o faz muito bem. Adoro o bacalhau do Chico Elias. Há aqui um outro restaurante que serve peixe fresco muito bom. Apesar de comer muita vez fora de casa, anteriormente podia ir para o restaurante, comer à vontade e beber à vontade porque uma boa refeição tem de ser acompanhada com um bom vinho e nós aqui temos excelente vinho.

Tem preferência por alguma região do país?

Fora de Tomar gosto muito dos vinhos alentejanos e bebo mais vinho branco da zona de Setúbal. Os vinhos de Tomar têm estado a crescer em qualidade. Conheço mais os tintos porque são os que bebo mais e sou fiel a um. Vou bebendo os outros, mas mantenho-me fiel a esse há vários anos.

Quer revelar qual?

(Ri-se) Não.

Voltando à comida, mas desta vez em casa. O que mais gosta de cozinhar?

Doces! Sou muito gulosa. Há um bolo de chocolate que o meu filho me está sempre a pedir para fazer. Adoro fazer bolos de chocolate e ir à internet ver receitas. Gosto de fazer bolos em camadas, recheados com chantilly. Não consigo seguir a receita, tenho que inventar sempre um bocadinho, e por vezes a coisa não corre muito bem (ri-se). Outra coisa que gosto de fazer é assados no forno. Por norma, consigo fazer isso ao domingo quando não tenho almoços em associações. Gosto muito de deixar a carne preparada na sexta-feira à noite ou no sábado e quando acordo de manhã no domingo acendo logo o forno. Fica ali… a assar com uma temperatura mais baixa… Depois começa aquele cheirinho na casa… Gosto muito disso.

Referiu os almoços em associações aos domingos. De quanto em quanto tempo consegue ter um fim-de-semana?

Nos meses de julho e agosto consigo ter um fim-de-semana por mês. Nos outros meses é impossível. Normalmente temos todos os fins-de-semana com representações e apenas tenho o domingo para jantar em casa.

Tendo um filho, existe a questão do tempo para cuidar dele.

Sim, tenho um filho de 13 anos e desde que nasceu está habituado a que a mãe tenha este tipo de trabalho. Se numa fase inicial conseguia que ele fosse comigo, agora já não é tão fácil e por vezes tenho de ligar para saber se ele pode ficar em casa da tia. Tenho que conjugar.

Ter um filho muda a perspetiva que temos da vida. Quando toma uma decisão a nível municipal sente que também está a tomar essa decisão por ele? Consegue estabelecer a diferença entre a mãe e a presidente?

Consigo… Consigo e não consigo. Vou dar um exemplo com uma das coisas que tentámos fazer e precisa de ser afinada porque o primeiro ano não correu muito bem. O meu filho mora na cidade e tem acesso ao desporto e a todos os espetáculos que existem na cidade, as crianças das freguesias não. Temos duas hipóteses, trazemos as crianças à cidade ou levamos os espetáculos às freguesias. A opção foi levarmos os espetáculos às freguesias para que as outras crianças tivessem acesso aquilo a que o meu filho tem acesso. É isso que se chama igualdade de oportunidades e é por isso que eu sou socialista. Temos a obrigação de dar a oportunidade de igualdade a todos e depois cada um escolhe o que entender. Neste sentido condiciona.

No final da nossa conversa costumamos sugerir um brinde, mas hoje teremos que o fazer de forma diferente porque em cima da mesa temos água. Se aqui estivesse um bom vinho local, sem especificar marca, a que brindaríamos?

(Ri-se) Pois, com água não porque diz que dá azar. Com vinho brindaríamos a Tomar porque eu acredito em Tomar. Digo isto porque falta uma coisa nos tomarenses, em alguns, que é o orgulho de ser tomarense. Eu tenho orgulho em ser tomarense e acho que os tomarenses têm de ser mais positivos. Tomar tem crescido muito, o número de visitantes tem aumentado. Há muito por fazer ainda, mas também há muito por fazer por nós próprios. Eu tenho orgulho na minha terra. Se nós não acreditarmos no nosso concelho, quem acredita? Portanto, eu brindo a Tomar porque eu acredito em Tomar.

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