ENTREVISTA: “Ir ao encontro das pessoas está a tornar a nossa fotografia mais intensa”

Augusto Brázio e Nelson D’Aires são os participantes da terceira residência artística de Vila Nova da Barquinha. O primeiro madruga e o segundo apenas pega na máquina à noite. Conseguimos juntar os dois fotógrafos da extinta Kameraphoto “entre turnos” para falarem sobre os trabalhos que estão a desenvolver no concelho, os percursos profissionais, o coletivo e a fotografia contemporânea no nosso país.

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A noite é de outono, mas ainda convida a sair de casa e os fotógrafos Augusto Brázio, 51 anos, e Nelson D’Aires, 40 anos, aceitaram o convite para uma conversa de esplanada no parque ribeirinho sobre as “Residências Artísticas de Vila Nova da Barquinha”. Ambos estão no concelho desde o passado dia 19 de setembro e participam na terceira edição desta iniciativa do projeto Parque de Escultura Contemporânea Almourol (PECA) promovida pela câmara municipal, a Fundação EDP e o Instituto Politécnico de Tomar.

Os trabalhos que irão desenvolver até ao próximo dia 30 focam pormenores desconhecidos pela maioria dos habitantes. Augusto Brázio vive o dia a dia do Polígono Militar de Tancos e Nelson d’Aires descobre a vila durante as noites. Apesar dos horários desencontrados, une-os a passagem pelo coletivo Kameraphoto e o tom vibrante com que falam sobre os mundos da fotografia contemporânea.

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O que os motivou a escolherem os temas dos trabalhos que estão a desenvolver?

NELSON D’AIRES – Quando perguntaram o quê pensei “Não conheço a Barquinha, estou como na noite, não faço ideia. Não é agora, em dois minutos, a fazer uma pesquisa Google que vou descobrir o que quero fazer.” Então lembrei-me da noite, mas lembrei-me da noite por uma razão muito simples, porque a noite já me tem vindo a interessar há uns tempos atrás. Não tanto a noite, mas sim o espaço que o preto ocupa numa fotografia que me interessa. Coisas de mancha, visuais.

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AUGUSTO BRÁZIO – Quando recebi o convite imediatamente me veio à memória uma situação familiar, o meu pai, que fez tropa aqui em engenharia, em 1963 ou 64. Portanto, foi sempre um território que eu não conheço, mas que esteve sempre presente na minha vida. Como todos os ex-combatentes, é um assunto recorrente. Sempre, sempre, sempre. Aí foi logo, já que tenho que tenho de olhar para aquela zona, vou à procura da memória que fui construindo, que não é minha, é a memória do meu pai. E entrei naquela parte territorial que está sobre a alçada militar.

Augusto Brázio
Augusto Brázio tem passado os dias no Polígono Militar de Tancos, resgatando memórias do seu pai, que ali cumpriu serviço militar nos anos 60

A experiência tem corrido bem?

N.D. – Essa é daquelas perguntas que quando é feita durante o trabalho tenho tendência a dizer que está a correr mal. A pessoa tem sempre uma expetativa e depois o terreno ocupa-se de mostrar as dificuldades inerentes ao próprio processo. Eu venho para aqui à noite. É um deserto no sentido em que as aulas já começaram, o Verão está a acabar, estamos na entrada do Outono, ouve-se o vento nas canas aqui. À medida que formos subindo para a linha do comboio deixamos de sentir o vento e sentimos o calor, mas as ruas estão desertas porque o Inverno já se faz sentir. As pessoas já se recolhem e aquilo que eu ouço são cães. Cães a ladrar. Cães, cães, cães. Cães que me intimidam no sentido em que me denunciam e eu não gosto de ser denunciado.

A.B. – O trabalho, geograficamente, é bastante circunscrito, bastante limitado. O primeiro desejo que tive foi refletir um pouco sobre a parte geográfica e a maneira como os militares ocupam o território em si. Quais foram as transformações naquele espaço físico. Depois o trabalho vai-se desenrolando, como o Nelson estava a dizer, e vai-nos guiando. O trabalho vai-nos apontando caminhos. Ainda que tenha tido atenção a essa parte geográfica, da paisagem, comecei também a refletir sobre outras questões lá dentro, naquele espaço. As pessoas. No fundo, vou sempre bater ao mesmo assunto da minha fotografia, que tem a ver com pessoas. Raramente consigo fugir às pessoas, ao retrato.

O que descobriram nestes primeiros dias?

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N.D. – Eu não conheço as outras freguesias porque estou a pé. É uma novidade para mim porque sempre trabalhei com carro. Acabei por me centrar na Barquinha e percebi que aqui há duas coisas distintas. Há a beira-rio que tem este jardim, esta parte mais antiga, e depois há lá em cima aquela parte abrigada das cheias. São coisas distintas, têm movimentos distintos, até as pessoas são distintas. E só hoje percebi que nestes últimos quatro dias andei a desperdiçar o início da noite, em termos de rentabilidade. Percebi que aqui é mais deserto a partir de uma determinada hora. Lá não. Lá é quando a vida começa a acontecer. Porquê? Porque é a parte residencial, do hipermercado, onde estão as escolas, as novas urbanizações. Eu lá ainda não conheço como é às três da manhã, aqui eu já sei como é que é.

Nelson dAires
Nelson D’Aires tem explorado as ruas de Vila Nova da Barquinha à noite, quando as ruas ficam desertas

A.B. – O meu trabalho corre mais lento do que gostaria. Como é uma instituição militar, tudo carece de autorização. Há questões de segredo, há questões logísticas, de horários que é preciso respeitar. Há ali um ritmo próprio.

Qual é a mensagem que pretendem transmitir com os vossos trabalhos?

A.B. – Estou focado em alguns aspetos. Um tem a ver com a paisagem, outro no retrato e um outro… Eu estou a fugir às imagens estereotipadas que estamos habituados a ver num quartel. Não fotografo paradas, não fotografo saltos de paraquedas. Tento fugir a todas essas imagens. Centro-me, então, em alguns rostos. Centro-me em algum tipo de arquitetura. É engraçado porque também estou a fazer algumas coisas no final do dia/noite por forma a isolar alguma da arquitetura que lá está e que é bastante sui generis.

N.D. – Ainda é muito cedo para dizer isso. Eu não me comprometo com as pessoas que vou abordando, com uma mensagem. Aquilo que eu sei é que é esta coisa que me dá o input para trabalhar, para transformar o que tiver que transformar. O meu trabalho tem uma palavra-chave. Essa palavra-chave chama-se “corrente”. Ela vem de um sítio, vem do rio, mas eu ainda não fiz uma fotografia ao rio e não sei se irei fazer. Eu estou à noite e o que tenho à noite? Tenho esta eletricidade que me acompanha. Eu jogo com estas palavras, meto-as no meu computador (aponta para a cabeça) e, a partir daí, elas são literalmente uma corrente. Uma fotografia leva à outra e então eu parto de uma corrente que é um enigma. De que corrente estou a falar? Da corrente do rio? Da corrente elétrica? Tenho feito fotografias que são esculturas, isto é, tenho fotografado caixas da EDP, de eletricidade, mas transformo-as de acordo com a luz que uso. Aquilo é um objeto transformado, uma paisagem transformada. É uma apropriação minha. Eu estou a apropriar-me. Não é minha pretensão dizer que esta é a identidade deste sítio. Eu estou a trabalhar em Vila Nova da Barquinha e Vila Nova da Barquinha está a dar-me estes inputs e a partir daí eu crio. Claro que tento aprender a história do sítio para aprender como posso relacionar, para perceber como funciona a balança. Apetece-me meter a identidade da Barquinha no meu trabalho através das palavras que podem ser textos de poetas, textos de pequenas notícias, de arquivo. Relacionar isso e construir então uma narrativa minha. É uma experiência pessoal. Eu sinto mais isto como uma experiência pessoal.

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Existe alguma situação ou algum rosto que vos tenham marcado particularmente?

A.B. – Tenho alguns rostos, tenho. Aliás, de uma maneira geral, os rostos que eu tenho encontrado são jovens com um uniforme e isso tem-me intrigado muito, ou seja, a personalidade anula-se, de certa maneira, com o uniforme. Só o facto de eu olhar aqui em volta, das pessoas estarem vestidas de determinada maneira, já começo a fazer filmes. Ali tem sido extremamente difícil porque aquelas pessoas estão todas com o mesmo uniforme. Hoje dei por mim a perguntar a uma rapariga para tirar o bivaque, queria ver se havia qualquer coisa que me permitisse criar uma maior ligação com ela. Como é o cabelo, de que cor é o cabelo. Na verdade, daqui (aponta para o pescoço e desce) para baixo são todas iguais. E daqui (aponta para a testa e sobe) também. Aqui (aponta para a cara) é que eu tento encontrar qualquer coisa.

N.D. – Eu só comecei a falar com pessoas a partir de ontem. Nos primeiros dias cumpri escrupulosamente aquilo que disse. Noite. Depois comecei a perceber que precisava de falar com pessoas porque a minha fotografia também é toda ela na base da pessoa. Ela vai lá sempre dar, sempre. Mesmo a fotografia de natureza morta que eu possa fazer tem uma dimensão humana. Eu já sentia necessidade de colocar retratos nas imagens, então vi uma garagem aberta e vi um carro. Os carros… Esta coisa de eu não ter carro… Agora olho para os carros. Vi um descapotável branco, lindo, e uma penumbra num sofá. Não era de noite sequer e então decidi. Fotografei o senhor e o cão, eles nos sofás e uns guarda-chuvas.

A residência artística de Vila Nova da Barquinha contribui de que forma para o vosso percurso profissional?

N.D. – Eu trabalhei em fotojornalismo, tenho truques na algibeira. Tenho essa consciência e como não gosto de fazer muitas vezes a mesma coisa aproveito estas residências artísticas para honrar esse mesmo nome e ser, verdadeiramente, um espaço onde eu me liberte. A fotografia, por si só, é um processo repetitivo. Já faz parte dela, é uma coisa reprodutiva, uma coisa de cópia. Eu não gosto de fazer isso e como sinto que tenho poucas oportunidades para fazer coisas novas optei por vir para aqui.

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A.B. – Não sei.

Os percursos profissionais de ambos têm pontos comuns. Um deles é o coletivo Kameraphoto…

N.D. – O ex coletivo…

Sim, o ex coletivo Kameraphoto que terminou em Outubro de 2014. Porquê?

A.B. – Não sou um dos fundadores, entrei para aí em 2004. Quando há pessoas juntas a trabalhar… as coisas, inevitavelmente, chegam ao fim.

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N.D. – A Kameraphoto teve muitas fases e eu nem sou do início. Eu só entrei no final de 2006, já o Augusto lá estava. Éramos pessoas muito diferentes. Se fores perguntar a cada pessoa, provavelmente cada pessoa vai dar uma razão diferente porque acabou. A questão é que acabou. Vamos lá ver o lado positivo desta coisa, que é o melhor. O que eu sinto é que nós, a Kameraphoto, desempenhou um papel… Na altura, em 2014, tínhamos onze anos. Temos que ver esse período, como é que a fotografia se comportava e perceber que coletivos é que existiam, como era essa coisa da coletividade e de trabalhar em conjunto. Temos que fazer essa análise. Se calhar havia pouca coisa, o fotógrafo trabalhava mais sozinho. Hoje nós não existimos, mas começaram a existir outros coletivos e há grupos que não se denominam como coletivos, mas que agem como coletivos. A verdade é que há uma mudança e eu gosto de pensar que nós tivemos ali uma pequenina… mas, atenção, nós portugueses não somos inventores, nós vimos criados de outros coletivos, inclusive, um dos primeiros, o Tendance Floue, de Paris.

O que mudou na fotografia contemporânea desde essa altura?

N.D. – Eu sou um novato nesta coisa. Dez anos é pouco.

A.B. – Quanto a mim foi o seguinte, até entrar para o coletivo eu trabalhava muito na imprensa. Não trabalhava em editorial, trabalhava com outro tipo de fotografia. Trabalhava muito no retrato, trabalhava em fotografia documental. Na verdade, trabalhava com o propósito de publicar em jornais, essencialmente no DNA/Diário de Notícias que termina, mais ou menos, quando entro para a Kameraphoto. Aí começo a desenvolver projetos pessoais que não desenvolvia quando trabalhava no jornal. Essa é a grande mudança para mim, no meu caso. Tenho uma forma diferente de encarar a fotografia, começo a centrar-me em projetos, que era coisa que eu não fazia.

E no caso específico do fotojornalismo, como avaliam o atual panorama português?

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N.D. – Eu acho que evoluiu, muito honestamente, mas é como digo, só estou há dez anos nisto. Eu não tenho aquele histórico, no mínimo, a partir do 25 de abril. Se me perguntarem sobre fotógrafos do 25 de abril eu digo as respostas que quase todas as pessoas dizem, que é Alfredo Cunha, Eduardo Gageiro e não sei dizer mais nomes porque sou um filho tardio da coisa. Dos dez últimos anos o que eu sei e conheço a nova geração, é que é uma geração com muitas ganas, com muita vontade de trabalhar. O que acontece é que, de há dez anos para cá, o mercado mudou radicalmente.

A.B. – Há um conjunto de pessoas bastante talentosas e esse talento vê-se quando têm tempo para trabalhar assuntos. As fotografias mudam completamente e isso vê-se. São muito melhor informados, quando podem investem, estão a par do que é feito. Entre gerações havia uma certa rivalidade idiota. Hoje o que eu consigo perceber das gerações mais novas é que eles conseguem conviver muito bem uns com os outros e falam de fotografia. Uma das mensagens que nós tínhamos na Kameraphoto era sempre a partilha. Era ver, discutir, por em questão o trabalho do outro. Era o nosso e o do outro. Eu acho que houve aí uma geração que percebeu isto, estes ensinamentos.

N.D. – E não haver segredos.

A.B. – E não haver segredos. Eu não chego aqui, mostro a minha foto e vou-me embora. Não, eu digo que vou fazer, trago e depois ponho à consideração. Há aqui uma metodologia que não fomos nós que inventámos, mas usámo-la em Portugal com muitas repercussões. Os miúdos novos que estão no fotojornalismo vão a muitos workshops

N.D. – Nunca houve tantos workshops como agora, formações gratuitas. Nós próprios fazemos isso. Quando é possível, propomos a entidades que possam suportar o que for em ambientes fora das grandes cidades, quando falamos das grandes cidades falamos de Lisboa e Porto, para que possamos oferecer uma experiência partilhada a pessoas que gostem de fotografia de forma gratuita.

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A.B. – Neste momento, por exemplo, temos um projeto aqui ao lado, em Torres Novas. Estes conceitos todos de que estamos a falar estamos a aplicá-los localmente.

N.D. – É uma coisa em que acreditamos, na captação e formação de novos públicos. Há pessoas que se souberem disto e daquilo irão para a fotografia em que nós acreditamos, naquela fotografia em que nos metemos. Eu já tive pessoas que se deslocavam 150 quilómetros para ir a um workshop meu, e não me conheciam de lado nenhum. Não era por ser eu, era apenas porque era a coisa mais próxima que existia.

A.B. – Há aqui uma mudança. Nós tomámos uma decisão há um ano e tal que foi contrariar isso, ou seja, nós é que estamos a ir ao encontro das pessoas. Na verdade, vamos ter com as pessoas porque é isso que torna a nossa fotografia, a maneira como trabalhamos, uma coisa muito intensa. Isto é sofrido. Sofre-se. Eu, aqui, levanto-me às seis e meia, vou para lá e chego às nove horas.

O que gostariam de fazer no concelho até ao próximo dia 30?

A.B. – Eu quero conhecer o concelho! (ri-se) Atenção, eu estou muito contente a fazer aquele trabalho. É uma realidade nova para mim. É um luxo. Estou a fazer algumas imagens que nunca pensei fazer. Apesar das dificuldades, sinto-me muito bem a andar ali.

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N.D. – Eu quero encontrar alguém que seja o primeiro elo para outras pessoas, mas de uma camada jovem porque toda a minha vida fotografei pessoas idosas e com muito saber. Estou atento às camadas mais jovens. Estou eu, está ele (aponta para Augusto Brázio) e está muita gente. Olho para os putos de vinte anos, para aquela geração, e tenho uma curiosidade imensa, mas de uma maneira sem julgamentos, sem aquela coisa do jornalismo. Não quero perceber como é que eles são na verdade, senão precisava de três ou quatro anos. Se estou aqui, quero fotografá-los. Quero fazer fotografias como se faziam antigamente, sem saber grande coisa sobre eles. Essas fotografias são memória e a minha intenção é essa. Não tanto trabalhar sobre as memórias, mas criar memória. Memória fotográfica de alguém, de lugares e não lugares.

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