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Sexta-feira, Dezembro 3, 2021
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“Entre o terramoto e as cinzas”, por Adelino Correia-Pires

1 de novembro de 1755. Fosse por pressentimento, fosse pelo destino, Gabriel Malagrida rezara missa mais cedo do que era costume. Passou à capela, fechou-se no confessionário e ali ouviu os últimos desabafos de muitos dos fiéis. Eu pecador me confesso, diziam, prontos a pecar de novo. Depois, um abalo aqui, um abanão acolá, e assim se foram as paredes da igreja e da capela e, com elas, todas aquelas centenas de pecadores que ali enviaram a alma ao criador. Como que por milagre, salvou-se Malagrida, o jesuíta, atónito ao que assistia. A força da natureza, cruel e impiedosa, reduzia o homem à sua insignificância. A destruição era total. O Paço Real, os seis hospitais da cidade, dezenas de palácios da grande nobreza, igrejas e bibliotecas, o velho casario, animais e toda aquela gente, tudo literalmente engolido pelo desabar do mundo. Do ar, do fogo e do mar. Qual tragédia grega, os deuses deveriam estar loucos.

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Ausente de Lisboa, a família real escapara, não sei se por milagre também. E, ainda, Sebastião José de Carvalho e Melo, secretário do reino e futuro Marquês de Pombal. Para Malagrida, como desabafaria no seu opúsculo “Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto”, era a justiça divina no seu esplendor. Tal como em Sodoma e Gomorra. Ali estava a punição dos erros do povo e de quem o governava. Sebastião José, esse, não lhe perdoaria. E uns anos depois, sem dó que se ouvisse, nem piedade que lhe valesse, o velho jesuíta encontrou no cadafalso, o garrote e a fogueira com que pagou com a vida a sua demasiada ousadia.

Deixemos o malogrado Malagrida e voltemos a Sebastião José. A diplomacia em Londres e Viena deram-lhe mundo. D. José, o Rei, deu-lhe poder. À data da catástrofe era já o homem forte do reino. E, enquanto o Rei, angustiado, não mais recuperou do susto, passando a viver em tendas e barracas gigantes montadas na Ajuda, com receio que o céu lhe caísse em cima, Sebastião José, homem de vistas largas, de pés na terra, pulso firme e nervos de aço, sabia não ter tempo a perder. Das gentes, cuidou dos vivos, enterrando os mortos. Da cidade, gizou com os seus mestres uma reconstrução visionária, a pedir meças ao inimaginável.

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Naquela tragédia, milhares perderam a vida, uns perderam os outros e muitos o pouco que tinham. Sobre a tragédia escreveram Voltaire, Kant, Goethe e Rousseau. Mas sobre os seus escombros ergueu-se aquela que é, reconhecidamente, uma das mais belas cidades do mundo. E, sobre ela, se continuará a escrever.

Dois séculos e meio depois, Portugal, verão e outono de 2017. Uma vez mais a natureza no seu esplendor. Cruel e impiedosa. Sem Malagridas no confessionário, mas com pecados ainda por expiar. Porque haverá momentos em que a história se repete, que bom seria que os marqueses de hoje, fosse de Belém ou S. Bento, fosse até de parte incerta, fizessem das fraquezas forças e voltassem a fazer boa história, como o outro, o de Pombal. Que teria coisas terríveis, mas fez outras intemporais.

Porque, com o bom povo lusitano, entre o terramoto e as cinzas, sobrará sempre uma nação valente!

Nasceu em Portalegre, em 1956, em dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Mais monge que missionário, é alfarrabista no centro histórico de Torres Novas. Vai escrevinhando por aí, nomeadamente no blogue "o tom da escrita" e é seu o livro “Crónicas Com Preguiça”. E continua a pensar que “não pode um país estar melhor se a sua gente está pior e apenas lhe resta ir colhendo a flor da dúvida, bem me quer, mal me quer...”

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