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Trincanela

Sábado, Julho 24, 2021

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“Encontros ocasionais, a sabedoria das coisas, as coisas em vez de nós …”, por Nelson Carvalho

Há uns meses, na Estação do Oriente e para vir para Abrantes, sentei-me respeitosamente no meu lugar no intercidades. No lugar ao lado estava um rapaz, 30 anos, negro, sorridente. Sentei-me. Aguardou um par de minutos e disparou: “azar, hein?”  Olhei, interrogativo, e ele completou “a companhia” acrescentando: “calhaste logo ao pé do único preto na carruagem”. Olhei. Era verdade.

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1º round: ele ganhou.

Mas ele queria conversa e atirou “como te chamas” e logo de seguida “Nelson, tens um ar preocupado!” … Lá começou uma conversa para a viagem.

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2º round: ele ganhou. Queria conversa e teve.

“Tás a ver, eu sou de Angola, o meu pai foi se embora, vivi com a minha mãe, tive algumas mulheres, tenho um filho, varios empregos, fui “chefe” num hotel, saí, só tenho isto (apontou para a mochila), e vou aqui nas calmas … e sou um tipo feliz, já fiz muitas coisas na vida, vivi, passei experiencias, sei lá … e disse-me isto com um sorriso semi brincalhão semi provocatório. E tu  és português e europeu e vais aí com um ar de preocupações e isso tudo não sei os europeus são todos assim, têm coisas, casas, carros, dinheiro … mas são preocupados e infelizes … agora vou p’ra coimbra ver aquilo, encontrar pessoas, ver lugares … E tens lá amigos, ficas aonde, atalhei. Não sei, logo vejo … e ainda por cima brincava-lhe um indestrutível sorriso a olhar para mim. E tu aí vais, preocupado não sei lá com quê, provocou …

3º round: ele ganhou. Ia por aí, tranquilo e feliz da vida. E eu com as preocupações típicas de um ocidental e europeu comum …

Sabes, lá continuou. Gostava mesmo de conversa. Vocês ligam sempre a ideia de felicidade com a ideia de dinheiro e de ter coisas. São uns infelizes. Nós não. O dinheiro e as coisas são só dinheiro e coisas. Nós vivemos, temos experiências, vivências, somos livres, e somos felizes …  Eu não tenho nada, vivi o que vivi, vou por aí, farei o que farei, vou conhecer muitas pessoas e situações … e sorria, sorria sempre.

4º round: ele ganhou: Certeiro. O diagnóstico numa equação em três palavras. Felicidade=dinheiro+coisas. Caminho para as preocupações e a infelicidade. Um mundo.

Não me lembro quem terá sido. De memória ou Barthes ou Baudrillard, Mas pode ter sido outro. A crítica à economia dos objetos: O homem designa os objetos, hoje ao contrário deixamo-nos designar pelos objetos. Mas os objetos são fugazes. têm ciclos curtos de vida. Usos cada vez mais limitados, a morte e o “ficar fora de moda” e de “validade” cada vez mais rápidos. E nós, como os objectos e por eles definidos, também submetidos à lógica do hiper-consumo, somos coisas que se consome  e se dão ao consumo. Efémeros, voláteis, sem relações com configurações duráveis.

E nós, produtores de objetos e de coisas que nos tornam coisas e objetos que se usam e consomem como objetos fechados numa economia de “bens transacionáveis” e de “acrescentar valor” aos objectos e às coisas, tornamo-nos igualmente bens transacionáveis numa economia de ciclo curto e de inutilidade garantida a curto prazo.

Ainda somos humanos?

5ª round: ganhaste, pá!

 

Ex-presidente da Câmara Municipal de Abrantes e ex-presidente da Assembleia Municipal de Abrantes, é o atual presidente da direção do Centro de Recuperação e Integração de Abrantes (CRIA).
Escreve no mediotejo.net às sextas-feiras

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