“Em defesa do verbo”, por José Rafael Nascimento

Ilustração de Till Lauer para o New York Times

“Ler é essencial, para quem procura estar acima do vulgar.”
– Jim Rohn

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Dizem-me alguns bons amigos para não escrever crónicas tão longas porque “assim, as pessoas não lêem”. Compreendo bem o conselho, ou não fosse eu professor de comunicação (não imune a erros, naturalmente, inclusive de comunicação). Mas, com excepção de uma ou outra crónica e para desilusão desses meus bons amigos, continuarei a escrever como escrevo, endossando aos destinatários da minha sofrível prosa a responsabilidade pela sua (não) leitura. Afinal, é uma liberdade que têm e eu jamais a questionaria, embora me alegre e motive saber que me resta alguma audiência.

Não se trata de um qualquer “autismo escrevedor”. Além de um estilo pessoal, trata-se sobretudo da vontade de partilhar conhecimentos e não apenas meritórias opiniões, reflexões ou estados de alma. Por alguma razão sou professor, naquilo que o determinou e, consequentemente, bem ou mal me moldou. “As pessoas não lêem porque as tuas crónicas são longas”, insistem, sem todavia criticarem o seu conteúdo. Terão elas palha, floreados ou vangloriosos rodriguinhos? Não me parece. Algumas palavras “caras” ou menos comuns, talvez, mas não terão elas justificação no contexto, desde que não abuse?

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“Quem não lê bons livros, não tem vantagem sobre quem não consegue lê-los”, dizia Mark Twain. E nada melhor do que o exemplo para influenciar os outros a ler.

Ainda sou do tempo em que o dicionário era a bíblia literária de sequiosos autodidactas, objecto de leitura obrigatória e prazerosa a cada deitar. Assim eram aprendidas muitas palavras e novos significados, não necessariamente para exibir frívola cagança, mas para saciar estimulante curiosidade, vontade de aprender e gosto em inovar. Não sou escritor nem pretendo sê-lo, tendo até de mim a ideia de que escrevo de forma (por vezes demasiado) sintética. Daí a falta de vocação para a escrita criativa, embora me esforce por tornar os textos minimamente interessantes de ler.

Estivesse eu a escrever para um reclame comercial e a abordagem seria diferente. A “Peixaria do Manel”, por exemplo, poderia ter como slogan “Aqui vende-se peixe fresco”. Mas, para quê o “Aqui” se o estabelecimento não é noutro sítio? E, qual a justificação do “vende-se” se o negócio tem fins lucrativos? Ademais, o que venderia necessariamente uma Peixaria senão “peixe”? E bom, quanto ao “fresco” seria preciso que não fosse congelado nem exalasse molesto fedor. Logo, o slogan seria redundante e desnecessário, pese embora o facto de o pleonasmo até poder ter excepcional utilidade (neste caso, para o Manel “vender o seu peixe”).

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“Acho a televisão muito educativa. Cada vez que alguém liga o aparelho, vou para outra sala e leio um livro.” – Groucho Marx.
Imagem: Anúncio da marca de calçado Friedman-Shelby (1954)

Defendida a minha visão do verbo e do conhecimento, só posso lamentar que as pessoas não leiam. Diz-se que lêem cada vez menos e mal, privando-se do contributo essencial da leitura para a estruturação neuronal que viabiliza a inteligência. Afirma-se que preferem ouvir e ver sem esforço, privilegiando a televisão e o scrolling nos visores dos dispositivos pessoais. “Boa sorte!”, diria o cínico, eu digo que é uma pena e que devia fazer toda a gente reflectir e dar meia-volta literária. Não tarda, estão a dizer-me “Não escrevas, fala, as pessoas não lêem!”. E fico a pensar se, pelo andar da carruagem, não acabaremos todos um dia a roncar e gesticular…

E depois há os outros, os que temem o verbo alheio, os que temem que se diga qualquer coisa, seja lá o que for. Porque eles são os ‘intelectuais’ e ‘especialistas’, donos do saber e da verdade. O saber olímpico de uma certa academia, elitista e situacionista. E a verdade dogmática da autoridade dominante, anestesiante e infantilizante. Pois eu defendo o verbo, seja lá de quem for e sobre o que for, sabendo que o silêncio imposto não substitui a pedagogia, dificulta a aprendizagem e definha o indivíduo, em todas as suas dimensões. Porque o verbo é – já Nietzsche o afirmava – poderoso e redentor: “Tudo o que eu preciso é de uma folha de papel e de algo com que escrever. Com isso, viro o mundo ao contrário”.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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