Editorial | “Sr. primeiro-ministro, pode explicar-nos isto como se tivéssemos 5 anos?”

Ensinaram-me os velhos mestres que uma das principais missões de um jornalista é “trocar por miúdos” as informações complicadas, de forma a que todos possam realmente compreender o que se passa ou o que está em causa. A linguagem científica, económica ou política chega-nos quase sempre codificada, seja ou não de forma consciente ou propositada, e se nos limitarmos apenas a reproduzi-la não estamos, muitas vezes, a prestar um bom serviço aos leitores. Não podemos escrever sobre a crise do subprime, é preciso explicar que os bancos andavam a emprestar dinheiro tendo como garantia imóveis que, sendo barracas, eram avaliados como mansões de luxo. Os bancos sabiam, mas não queriam saber – e no final, quando as prestações ficaram por pagar, quem acabou a tapar o buraco fomos todos nós.

O meu mantra tem sido, ao longo dos últimos 25 anos, semelhante ao de Denzel Washington, no papel de um advogado combativo no filme Filadélfia: “Explique-me isto como se eu tivesse 5 anos…”. Questionar, estudar, procurar entender – essa tem de ser a base de todo o trabalho jornalístico, e não pode haver vergonha em fazê-lo. Sempre fiz muitas perguntas, e a muitas pessoas diferentes. Sobretudo quando pensava ter já todas as respostas. Só cruzando os conhecimentos de vários especialistas podemos nós, jornalistas, fazer o que nos compete: comunicar os factos de forma clara, mas igualmente precisa.

Contudo, como costuma dizer uma grande amiga minha, “milagres só com Nossa Senhora de Fátima”. Há assuntos que, por mais voltas que lhes tentemos dar, terão sempre zonas claro-escuras, sujeitas a múltiplas interpretações. Vem isto a propósito da apresentação das novas regras de combate à pandemia de covid-19, no final de (mais) um Conselho de Ministros Extraordinário, na noite deste sábado, 7 de novembro. Há, logo a começar, uma mensagem subliminar passada para o público com a hora a que foi realizada a conferência de imprensa. Era mesmo necessário fazer uma “comunicação ao país” já depois da meia-noite?

“Se o primeiro-ministro vai falar a esta hora, é porque é mesmo importante”, será normal pensar-se. E era importante, claro. Mas seria urgente? Se as medidas só entram em vigor na segunda-feira, não poderiam ter sido anunciadas na manhã deste domingo? E não poderia ter sido tudo explicado de forma mais curta, direta e clara, sem deixar margem para semear mais dúvidas entre uma população já saturada de notícias sobre covid-19?

No final, o objetivo que o governo quer alcançar só se consegue com a participação de todos – e com todos a fazerem o que é realmente necessário e correto. Se hoje nos dizem uma coisa e amanhã outra, se hoje anunciam uma medida e logo depois enunciam todas as exceções à regra (que acabam por anular o desejado efeito da medida), se nos vêm falar em proibições sem criar sanções, de que serve tudo isto?

Se há muitos grupos de jovens a beberem na rua à noite, a solução era mesmo proibir a venda de álcool a partir das 20 horas? Como se viu, não. Às 19h30 compravam cinco grades de cerveja e estava feita a festa. Então a panaceia agora será o “recolher obrigatório” durante a noite? Ou vão apenas aumentar os “ajuntamentos ilegais” em garagens ou nas casas de uns e de outros?

Como pode o governo apresentar dados apontando os encontros familiares como a principal fonte das infeções que se têm verificado, como se a casa de todos nós não fosse apenas o ponto de confluência de quem chega das escolas, das fábricas, dos hipermercados, dos transportes públicos, e tão somente a ponta mais fácil de pegar para traçar as linhas de contacto entre casos positivos?

Ir almoçar a casa da mãe, não. Mesmo que não deem beijinhos e fiquem a 2 metros de distância, numa sala com janelas abertas, e por menos de uma hora. Ir almoçar com a mãe num restaurante, sim, sem problema. Faz sentido? Ou sou eu que não estou a conseguir perceber?

Foi criada uma listagem dos concelhos de “risco elevado”, com mais de 240 casos por cada 100 mil habitantes, tendo como base os dados de 16 a 29 de outubro, como explicou por email a Direção-Geral de Saúde ao mediotejo.net, na sequência de um pedido de (mais) explicações sobre a metodologia aplicada. Mas sendo a resposta rápida fundamental para travar a progressão do vírus na comunidade, fará sentido manter a mesma lista durante 15 dias, ainda que a 30 de outubro já existissem situações muito mais complexas em concelhos que a população entende como sendo mais “seguros”?

Na nossa região essa situação verifica-se de forma muito clara em Ourém e em Alcanena, por exemplo, que não constam da listagem governamental – e é por isso que, no sentido de fornecer essa informação, que consideramos vital, diariamente fazemos as contas e publicamos um “mapa de risco” atualizado no nosso jornal.

As medidas anunciadas pelo governo ontem irão vigorar por 15 dias, explicou António Costa. Para todos os portugueses? Não, apenas para os que vivem nos 121 concelhos de risco. Mas essa lista, que ia ser revista a 14 de novembro, vai ser revista na próxima quinta-feira, 12. Porque não foi já atualizada para ser anunciada esta segunda-feira, dia 9, ao mesmo tempo que entram em vigor as novas medidas da “situação de emergência”?

E agora, diz-nos o primeiro-ministro, haverá “proibição de circulação na via pública entre as 23h00 e as 5h00, com as exceções de pessoas que vão ou vêm do trabalho, ou que têm de sair por motivo de urgência”. Mas o que é um “motivo de urgência”? O cão teve de ir fazer xixi à rua? Sim, é uma das excepções previstas. Tal como um passeio para “fruição de momentos ao ar livre”.

Não vamos poder circular nas tardes dos dois próximos fim de semana, a partir das 13 horas, mas podemos ir aos magotes comprar brinquedos com 60% de desconto a um hipermercado? Sim, até às 22h30 está tudo à vontade.

Sr. primeiro-ministro, por favor explique-nos tudo isto como se tivéssemos 5 anos…

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Patrícia Fonseca
Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

7 COMENTÁRIOS

  1. Texto que merece uma ponderação acentuada, sobretudo em função das pertinentes e assertivas questões formuladas. As perguntas feitas correspondem às mesmas que faria, ou faz, um simples cidadão. Há agora a noção, porque o afirmaram, que deveriam ter sido abrangidos apenas 46 concelhos e não os 121, dado que para além dos primeiros, os restantes não reuniam as condições determinadas. Mas isso é apenas um pormenor… O problema que existe com o Covid-19 em Portugal é outro: Sendo um problema de saúde, é agora tratado como um problema político e isso altera quase tudo. Portanto uma parte das respostas às perguntas que formula, e bem, está no outro lado: Na política deste governo. Obrigado.

  2. Se o governo não comunica com o povo, faz nas costas de toda a gente, se comunica é porque foi depois da meia noite. Por acaso o jornalista que escreveu esta peça dormiu descansado na manhã de domingo? Pois o primeiro ministro e seus acessores também tem direito a dormitar na manhã de domingo.
    A justificação de que proibindo leva a mais festas ilegais em casa de uns e outros é estúpida e sem fundamento. O governo não tem culpa da estupidez de quem contra tudo e todos faz festas privadas. Na autoestrada existe sinalização a proibir a velocidade superior 120 mas o governo não é culpado de quem anda a 180km/h. Cada um tem de ser responsável.

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