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Editorial | Covid-19, números incongruentes e dois pesos para várias medidas

Fizemos e refizemos as contas e não há como explicar a inclusão do Sardoal na lista dos concelhos de "risco elevado" deixando o Entroncamento de fora.

Desde o início desta pandemia, já lá vão 8 meses, deparamo-nos diariamente com problemas na análise de dados. Queremos dar a melhor informação aos nossos leitores e, por isso, nunca nos conformámos em apresentar apenas os dados disponibilizados pela Direção-Geral de Saúde, que não incluem diariamente os casos totais dos concelhos, além de tratarem com atrasos significativos as informações enviada pelos laboratórios, hospitais e unidades de saúde pública locais.

Tantos meses passados e tantas reclamações depois, a DGS continua a publicar mapas com um inadmissível asterisco (que vai variando de dia para dia, dificultando ainda mais os estudos comparativos que tentamos fazer):
*Este mapa inclui apenas 65% dos dados nacionais

A atualização semanal dos casos por concelhos é agora “revelada” apenas à segunda-feira.

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Entendendo que os cidadãos merecem ter melhor informação, assegurámos a colaboração da Unidade de Saúde Pública do Médio Tejo, que diariamente foi partilhando os dados que recolhia – os mesmos dados que a DGS trabalha, evidentemente, mas com os tais atrasos na comunicação que, em nosso entender, são prejudicais ao esclarecimento público no contexto que vivemos.

Não noticiámos, por isso, casos que nos primeiros meses da pandemia eram “avançados” por outras entidades (alguns depois desmentidos), e nos mapas que desenhamos diariamente passámos a colocar a informação: “O jornal mediotejo.net só noticia casos de infeção validados pelos Delegados de Saúde Pública da região”.

A diretora da Unidade de Saúde Pública do ACES Médio Tejo prestou, durante todos estes meses, esclarecimentos diários aos nossos jornalistas, gravados em áudio e partilhados com os nossos leitores. No último mês, sem capacidade de resposta, tem-no feito pelo menos duas vezes por semana, facto que realçamos e agradecemos publicamente – há vastas regiões deste país onde nenhum delegado de saúde fala diretamente com os jornalistas, e o ministério da Saúde chegou a querer limitar esses contactos, no início da pandemia.

Graças também às pressões dos autarcas, que necessitam de informação fidedigna – até como responsáveis máximos pela proteção civil dos seus territórios –, passaram a ser divulgados mapas resumidos dos casos nos concelhos do Médio Tejo. Faltam ainda nesses relatórios, contudo, vários dados que não são tornados públicos, nomeadamente o do número de testes realizados por concelho versus o número de casos positivos, ou o número de óbitos, que tem sido atualizado esporadicamente, e sem sequer mencionar na totalidade a que concelhos reportam (sempre que o valor é menor que 3).

Vem tudo isto a propósito das medidas que este sábado foram reveladas pelo governo para os 121 concelhos classificados como sendo de “risco elevado”. Nessa lista, como noticiámos em primeira mão, encontram-se os concelhos de Constância e Sardoal, mas, segundo o critério partilhado pelo primeiro-ministro, de que seriam os locais que, nos últimos 14 dias, registavam mais de 240 casos por cada 100 mil habitantes, teríamos de juntar à lista os concelhos de Alcanena e do Entroncamento.

O mediotejo.net tem vindo a calcular essa percentagem de casos por 100 mil habitantes nas últimas semanas e a incluir essa informação nos mapas diários que publicamos. Tínhamos até já entrevistado a Delegada de Saúde Pública a esse propósito, a 29 de outubro, por existirem concelhos com valores superiores aos registados nalguns concelhos do Norte, onde foram instituídas cercas sanitárias. Maria dos Anjos Esperança referiu que os números na região “estão longe dos 120 casos por cada 100 mil habitantes” (ao contrário das contas a que chegamos) e explicou que não se previam medidas restritivas desse tipo para a região porque há também outros factores a pesar, nomeadamente o da densidade populacional (muito baixa em territórios como o de Constância, por sinal).

Perante a lista de concelhos de “risco elevado” ontem anunciada pelo governo, tentámos perceber que diferenças poderiam existir entre os nossos cálculos e os da DGS. Infelizmente, os dados usados pelas autoridades de saúde não foram revelados publicamente, referindo-se apenas o rácio de 240 casos por 100 mil habitantes, utilizando o critério matemático instituído pelo Centro Europeu de Controlo e Prevenção de Doenças (que também estudámos aqui).

Calculando o número de casos positivos versus o número de habitantes, e considerando a população de cada concelho com base nos últimos dados provisórios disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística, relativos a 2019, temos portanto quatro concelhos do Médio Tejo com mais de 240 casos por cada 100 mil habitantes, nos 14 dias anteriores a 30 de outubro: Alcanena, com 242, Constância, com 248, Entroncamento, com 382, e Sardoal, com 241. Contudo, apenas Constância e Sardoal foram incluídos na lista dos concelhos que terão medidas restritivas adicionais a partir de 4 novembro.

Considerámos inicialmente o dia 30 de outubro como o dia final das contas usadas para a tomada de decisão do governo, porque o anúncio foi feito a 31 de outubro, ainda antes das análises nacionais dos casos diários poderem ser considerados. Mas poderiam ser dados relativos aos dias até 29 de outubro, ou 28, ou 27, ou 26? Fizemos todas as contas e há, uma vez mais, diversas incongruências.

O concelho do Entroncamento poderia ter ficado de fora se as contas do governo se reportassem até ao dia 27, data em que houve um aumento/atualização de 63 casos neste município; mas, se assim fosse, o Sardoal nunca entraria na lista, pois só os 6 casos reportados a 29 de outubro elevam o seu grau de risco acima dos 240 casos por 100 mil habitantes.

Decidimos também fazer as contas com base nos dados da DGS, tendo assim apenas os valores publicados a 26 de outubro, verificando ainda a diferença de casos reportados pelo nosso jornal nas últimas semanas, por concelho:

Como se pode verificar, continuam a existir disparidades muito grandes de números, entre os dados regionais e nacionais. Ainda assim, cruzando toda a informação e fazendo e refazendo todas as contas, não há como explicar a inclusão do Sardoal nesta lista, deixando o Entroncamento de fora – até porque é o concelho com maior densidade populacional do Médio Tejo, um factor agravante de risco.

O texto vai longo mas sentimos que era necessário explicar aos nossos leitores como chegamos às contas que apresentamos nos mapas que desenhamos diariamente.

Infelizmente os dados oficiais divulgados não facilitam o nosso trabalho, mas continuaremos a tentar obter todos os esclarecimentos necessários sobre este assunto. Um dos pilares do jornalismo é a verificação, e desse princípio não abdicamos.

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Patrícia Fonseca
Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

1 COMENTÁRIO

  1. Duas possíveis razões. Como os 63 casos foram uma actualização de números, sem se saber as datas concretas em que ocorreram, podem não estar a ser contabilizados. A outra razão seria, de acordo com o primeiro ministro, casos relacionados com surtos localizados, como é o caso de lares, também não são considerados para este números.

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