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Sábado, Julho 24, 2021

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Editorial | A defesa da verdade em dia de mentiras

A 1 de abril, Dia das Mentiras, tornou-se quase tradição publicar-se nos jornais alguma “notícia falsa”, brincando com os leitores. Também aqui no mediotejo.net o fizemos, nos últimos três anos. Mas hoje não conseguimos. Há demasiadas mentiras a circular todos os dias e, para nós, o assunto passou a ser demasiado sério.

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Vivemos tempos muito estranhos. Não gosto de dizer que vivemos tempos difíceis porque, apesar de assim ser, não são tempos mais duros que os vividos pelas gerações que nos precederam. Basta-nos recuar 50 anos para vermos o país mergulhado na pobreza e nas trevas da ditadura, da guerra e da censura. Havia demasiadas crianças de estômago vazio, e havia também fome de cultura e de educação, de saúde e de justiça, de liberdade.

No meio de todas as dificuldades, houve sempre a imprensa. Com maiores ou menores limitações, os jornais foram sempre a fonte mais fidedigna do estado da nação, um espaço de debate público, e ao serviço do público.

os jornalistas estiveram sempre na linha da frente para mudar o estado das coisas, quais soldados das causas perdidas e de todas as utopias

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Quando recebi a minha carteira profissional de jornalista, há 25 anos, recordo que os inquéritos nacionais revelavam ser esta uma das profissões mais respeitadas pelos portugueses. Hoje a tendência inverteu-se, e muito por culpa dos próprios jornalistas, que permitiram a desvalorização da profissão. De repente um blogger já era jornalista, um comentador era jornalista, um apresentador de televisão era jornalista, qualquer cidadão era jornalista.

Este país tem muitos treinadores de bancada e especialistas em generalidades, mas ninguém se atreve a dizer que é advogado quando opina sobre um caso judicial, ou que é médico quando conversa sobre doenças. “Onde é que está a sua carteira profissional?”, eis o que eu gostava de ouvir perguntar a muitos dos que se fazem passar por jornalistas, de microfone na mão.

A culpa, repito, é dos jornalistas, que não souberam distanciar-se de alguns comportamentos e comprometimentos, nem ergueram a voz no meio de tanto ruído. Como a maioria dos portugueses tem hoje a capacidade de atenção de um peixinho dourado (3 segundos, mais coisa menos coisa), apanha-se tudo assim por alto, ouve-se dizer, vê-se no Facebook e, no final, nada distingue o jornalista que dedica três meses a uma investigação sobre esquemas fraudulentos do “repórter” de um programa da manhã que “analisa” à porta de um café o mais recente crime de faca e alguidar. Somos todos farinha do mesmo saco.

Não é justo. Ainda por cima, a maioria daqueles-que-se-dizem-jornalistas “inspiram-se” nas notícias que os jornalistas-de-verdade revelam e espalham-nas com muito mais eficácia pelas redes sociais e pelos seus sites-que-fingem-ser-jornais do que os jornais-a-sério, que pagam impostos e os salários dos jornalistas-de-verdade. Fazem títulos estrondosos, atraem os leitores como quem encanta serpentes e, no fim, são recompensados pela Google e pelo Facebook, que pagam por cliques, não pela qualidade dos conteúdos.

Hoje, os jornais lutam pela sobrevivência enquanto outros “meios” enriquecem com o trabalho que estes (ainda) vão conseguindo fazer. De caminho, foram-se replicando ad nauseum as mentiras, as chamadas “fake news”, que servem interesses obscuros. No meio de 5 000 loucos a gritar “sim!”, quem vai ouvir o tipo com bom senso a dizer “talvez não…”?

a maioria daqueles-que-se-dizem-jornalistas espalham as notícias com mais eficácia do que os jornais-a-sério, que pagam impostos e os salários dos jornalistas-de-verdade

Não é justo. Mas o mundo nunca foi justo.

É preciso resistir, e persistir. Lembrar que, embora falte muitas vezes a coragem, os jornalistas estiveram sempre na linha da frente para mudar o estado das coisas, quais soldados das causas perdidas e de todas as utopias, movidos pela convicção de que é preciso contar o mundo como ele é, para que todos possam decidir em consciência que futuro querem construir para os seus filhos.

Este mundo que nos surge tantas vezes a preto e branco mas também a cores, tantas vezes manchado pela má fé de alguns mas também iluminado pela bondade de outros, está transformado num casino desenhado para beneficiar sempre a casa. Os jornalistas são cada vez menos, e estão cada vez mais cansados e desanimados, mas fazem hoje tanta falta como no Portugal amordaçado de há 50 anos. Ou ainda mais.

Esta é a verdade: quem se julga dono disto tudo tem conseguido paulatinamente domar os velhos “cães de guarda”, porque o mundo que serve os seus negócios é muito melhor se “vigiado” por cachorrinhos inofensivos.

Os cidadãos precisam de abrir os olhos e valorizar de outra forma aqueles que (ainda) se dispõem a morder a canela de outros em sua defesa. Não precisam de afagar-lhes o lombo, bastará que não os escorracem a pontapé. Um cão de guarda não precisa de mimos para ser feliz, precisa apenas que o deixem fazer o que melhor sabe – mantendo um olho aberto mesmo quando o julgam a dormir.

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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