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Terça-feira, Novembro 30, 2021

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“Eça, agora”, por Adelino Correia-Pires

Por aquele monóculo já se avistava o talento.

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Daquela figura franzina, seca de carnes mas cheia de espírito, atormentada de medos mas inspirada de mundos e afantasmada pela vida, haviam brotado algumas das mais notáveis páginas da nossa escrita.

De onde lhe viria tal arte? De onde a inspiração? Da orfandade forçada, sempre presente nas principais personagens que criaria, uma vez rejeitado pela mãe e aclandestinado pelo pai?

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Do colégio da Lapa, no Porto, onde conhecera Ramalho Ortigão, amigo do peito, com farpas escritas na vida e algumas espetadas pós morte? Da inspiradora Coimbra, onde cursara Direito por linhas tortas, afogado na turbulência intelectual de Antero que lhe apresentara Proudhon, Flaubert, Zola ou Balzac? Ou ainda da grande Lisboa, palco que pisou amiúde, salpicando-a na sua ficção, mergulhando nas Conferências do Casino ou tertuliando com os Vencidos da Vida?

Em Eça, o seu espírito acutilante nunca o deixara ficar indiferente. Fosse em Évora ou em Leiria, fosse nos postos consulares que abraçou, tudo observava com lente telescópica, ironia singular, inteligência refinada. E é curiosamente Leiria que estará na génese do seu primeiro romance realista “O Crime do Padre Amaro” –  “…uma intriga de clérigos e de beatas tramada à porta de uma velha Sé de província portuguesa…”. E que intriga! Na escrita e nas peripécias da sua publicação. Dele, escreveria Torga no seu primeiro Diário: “… arrancar desta terra um tal romance parece uma obra de Deus…”.

Mas Eça foi também um traga-mundos. Num país com 80% de analfabetos em apenas quatro milhões de habitantes, pôde viajar como poucos. Palmilhou, teve mundo. Com 24 anos apenas, assistiu à abertura do Canal do Suez e viajou pelo Egipto e Palestina. Marcou-o para sempre essa viagem. De romântico e idealista, tudo aquilo o transportaria para um outro realismo na sua escrita.

Assume, então, a diplomacia como carreira. Primeiro em Cuba, que reparte com Nova Iorque, como fait-divers. Percebe que esta, apesar de nova, é já uma cidade podre. E que para ele, “… a civilização, não é ter uma máquina para tudo e um milhão para cada máquina…”. A civilização é bem mais do que isso. É feita de sentimento. E na América, mais do que nunca, sente-se um verdadeiro europeu. Falta-lhe “política, crítica, corrupção literária, humorismo, estilo, colorido, palheta…”.

Muda-se para Inglaterra. Na velha Newcastle, onde o carvão tudo acinzenta e a luz de Lisboa é algo do fim do mundo, arranca algumas das mais notáveis páginas da sua escrita. O Primo Basílio para alguns a sua obra-prima, terá sido escrito em pleno spleen. Machado de Assis não lhe poupa na polémica, o que para Eça, será um elogio.

Depois Bristol e, por fim, Paris. Era um sonho, seria também o ocaso. O fascínio de Eça por França era antigo. Desde Coimbra. Paris era o símbolo da modernidade e o centro cultural da Europa. Foi-se o nevoeiro, chegavam as luzes. A Belle Époque. E os encontros com Victor Hugo, António Nobre e alguns mais. E há ainda algo com o “nosso” Carlos Reis, que não cabe aqui neste texto.

Entretanto, a doença e a morte aos 55 anos acabariam por chegar. A Eça, muito lhe devemos. Quem o lê, horas de deleite. Quem escreve, horas de mestria. Quem nunca o fez, horas para o fazer. O Conselheiro Acácio ou o Padre Amaro, João da Ega, Luísa ou Teodorico Raposo, Zé Fernandes ou mesmo o Jacinto, não nos perdoariam o esquecimento.

Por mim, estará na hora de o reler um pouco mais: “… Depois parei nas cercanias do Douro, em Santa Cruz, onde fiquei a descansar (quase dizia a convalescer), do tremendíssimo almoço com que o meu rendeiro me honrou, logo na manhã da chegada… O prato mais ligeiro era um anho assado! Na cabidela entrava toda uma capoeira. Sobre a mesa, em vez de garrafa, estava um pipo! Honrei o festim: depois foram os dois dias, os dois dias lentos de cansaço e digestão, sentado numa pedra, debaixo de um castanheiro…”

Para Eça, há sempre tempo. Eça, agora!

Nasceu em Portalegre, em 1956, em dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Mais monge que missionário, é alfarrabista no centro histórico de Torres Novas. Vai escrevinhando por aí, nomeadamente no blogue "o tom da escrita" e é seu o livro “Crónicas Com Preguiça”. E continua a pensar que “não pode um país estar melhor se a sua gente está pior e apenas lhe resta ir colhendo a flor da dúvida, bem me quer, mal me quer...”

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