“É tempo de mudança. Chegou a hora dos idosos…”, por Rui Calado

Foto: DR

A partir do próximo dia 15 de Setembro será decretado o estado de contingência nacional devido à convicção de que se aproxima uma 2ª vaga da pandemia por Coronavírus, com base nos dados que nos chegam dos países do centro e norte da Europa. Os mesmos donde Portugal recebeu vírus na vaga inicial. No entanto, a análise dos números da 2ª vaga em França, em Espanha, Itália, Suécia, Holanda, Bélgica, Reino Unido, Alemanha, entre outros, reserva-nos uma maravilhosa surpresa que justifica este comentário de esperança.

PUB

Se ficou curioso, consulte a fonte de dados desta crónica, o Worldometer, e verifique nos países referidos, qual é a evolução do número de casos e de óbitos nos últimos dias. E com surpresa, vai constatar que, até agora, a 2ª vaga não está associada a um aumento do número de mortes, ao contrário do que aconteceu em pandemias anteriores.

Desta vez, algo de diferente parece estar a acontecer. A explicação para esse facto fará regressar todas as especulações. O vírus sofreu uma mutação e perdeu virulência dirão uns. Não foi bem isso, o que aconteceu foi que o melhor conhecimento da doença possibilitou a adopção de tratamentos mais eficazes. Então e o efeito do confinamento dos idosos, o efeito do seu isolamento?

PUB

 

“As graves e muitas vezes irreparáveis consequências psicológicas e físicas do excessivo confinamento solitário e da exclusão social estão bem documentados” é uma afirmação de Nils Melzer, Presidente da Geneva Academy of International Humanitarian Law and Human Rights, que não podemos ignorar por mais tempo. Aquela constatação, esta afirmação e os avisos dos especialistas de saúde mental, impõem a necessidade de fazermos, com urgência, uma reflexão sobre a situação dos nossos idosos, em especial dos institucionalizados.

Não, não podemos continuar a impor-lhes restrições à sua liberdade, o isolamento compulsivo, o abandono afectivo. Dado que Portugal não se encontra na mesma situação que os países que já estão em plena 2ª vaga, é preciso prudência. Mas é tempo de começar a envolver os idosos ou os seus familiares responsáveis, nas decisões que lhes dizem respeito, nomeadamente se querem manter a situação de isolamento pouco eficaz em que se encontram, ou se querem passar os dias que lhes restam recebendo, com os devidos cuidados, o afecto que só a proximidade de familiares ou amigos lhes podem proporcionar.

PUB

Em Portugal, à medida que mais e mais instituições se mostram vulneráveis à disseminação da doença, cresce a certeza da necessidade de se introduzirem modificações nos processos em curso. As equipas de emergência anunciadas irão reforçar Planos de Contingência em casos de doença nas instituições. Mas nada acrescentam quanto à pretensão e necessidade de se encontrarem soluções de promoção da saúde e prevenção da doença, dirigidas aos seus utentes. 

Perante o quadro que se vislumbra, nada impede que as instituições promovam encontros com os organismos públicos locais (segurança social, saúde, protecção civil, autarquias…), as famílias e outros recursos da sociedade (igrejas, ONG´s, IPSS, voluntários…) para discutirem e encontrarem soluções que, no respeito pelas directivas nacionais, possam ser integradas em projectos inovadores e adequados ao objectivo primordial, a melhoria das condições de saúde física e psicológica dos idosos e a diminuição do seu sofrimento. 

Há que discutir a utilização voluntária e temporária de pessoas com imunidade aumentada, os que adoeceram e se curaram, em trabalhos de proximidade com os utentes, com ganhos de segurança inquestionáveis. Ou reflectir sobre a forma segura de se realizarem visitas de proximidade, por pessoas afectivamente importantes para o utente, desde que ele manifeste essa vontade ou necessidade.

É tempo dos idosos passarem a ser, inequivocamente, o foco da atenção primordial nesta crise, dado que em última análise têm sido eles os prisioneiros do medo, os mais tristes e deprimidos, as principais vítimas da doença ou da cura. É hora de mudança, de dar voz a quem está em risco, de se tomarem decisões partilhadas, justas e adequadas.

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

pub

1 COMENTÁRIO

  1. “ESTADO DE” CONTINGÊNCIA NÃO EXISTE!
    O que existe é SITUAÇÃO DE CONTINGÊNCIA
    Do mais para o menos: estado de sítio, estado de emergência, situação de calamidade, situação de contingência e situação de alerta!

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here