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Domingo, Julho 25, 2021

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Trincanela

“E se vivêssemos numa Reserva Natural?”, por Bruno Neto

No Fabuloso Lado B

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No ano passado tive a oportunidade quase única de ir visitar os Gorilas da Montanha… os famosos e portentosos SilverBack. O coração de Africa é onde se encontram as últimas áreas onde restam os últimos exemplares, pois esta é uma espécie em vias de extinção.

Vivia em Goma, na República Democrática do Congo, e de lá até uma das entradas do parque Virunga fizemos um percurso em 4×4 de cerca de 3 horas, em estradas sofríveis. Depois de entrarmos no parque, e de conhecermos os Rangers que tomam conta de todo o território e de conhecermos as outras pessoas que seguiriam no mesmo grupo, iniciámos uma caminhada à procura da família de Gorilas que tinha sido designada para nós.

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Fizemos quase 2 horas de dura caminhada seguindo sinais da presença dos Gorilas – tal como árvores com ramos partidos, fezes, ou mesmo pegadas nas zonas de lama. Ainda que muito cansativo, a cada pequeno sinal da sua presença sentíamos uma emoção difícil descrever. Chegámos a uma altitude de cerca de 3000 metros e finalmente lá encontrámos a família que tanto andávamos à procura. São poucas as palavras para descrever as emoções sentidas, é pouca a semântica para descrever a ternura, o toque, o amor entre os variados membros, desde os bebés até aos mais velhos.

Estes Gorilas estão ameaçados de extinção. Há pouco mais de 700 famílias e frequentemente são mortos Gorilas para serem levados para embalsamar, colocar em coleções privadas nas casas de gente rica e irresponsável, ou mesmo em Jardins Zoológicos. Também é frequente roubarem-se crias para parques privados que são sempre ilegais e onde os animais acabam por viver em condições deploráveis. É também normal receber notícias de que os Rangers que defendem o parque e tratam de assegurar a segurança desta espécie acabam por ser mortos e atacados nas várias tentativas de matar ou sequestrar os Gorilas.

É nossa responsabilidade sabermos em que mãos anda este mundo. É nossa responsabilidade fazermos parte ativa do futuro que queremos para os nossos filhos e filhas.

O Parque de Virunga é gerido por 3 países: Uganda, Ruanda e RD do Congo. Devido aos conflitos antigos teria tudo para não correr bem, mas corre. Os guardas, o staff, as forças armadas, as linhas de comunicação e a preservação destes Gorilas, de Elefantes, de Hipopótamos, de Búfalos selvagens e tantas outras espécies que fazem deste eco-sistema algo único no mundo e que até está relativamente bem organizado e gerido.

Mas uma petrolífera inglesa descobriu petróleo nos territórios do parque Natural e quer explorar, tendo começado já a pagar e a “comprar” estes países com milhões de dólares para reduzirem o território do parque e ajudar à sua destruição. À destruição de um pedaço imensurável do valor do nosso planeta. Sempre faço a reflexão que, mesmo do outro lado do mundo, onde tudo parece bonito e nunca se sabe o que se pode fazer, o consumo é sem duvida uma enorme arma que temos em mãos.

Devemos boicotar as empresas e grandes corporações que no nosso mundo bonito parece que são anjos e depois onde é mais fácil comprar pessoas, pela miséria que elas próprias produzem, conseguem também comprar a destruição silenciosa do nosso presente. A Shell esteve quase a começar a perfurar o Ártico, mas graças à GreenPeace e a tanta gente que assinou as diversas petições e se demonstraram contra, conseguiram parar (para já que esse crime aconteça), por isso, é fácil sim, salvar o mundo. Basta tocarmos no que mais dói a estas empresas, basta para isso sabermos o que consumimos.

Consumamos então o mais localmente possível, consumamos produtos que não são testados em animais, produtos que não destroem florestas para nos alimentar ou nos tornar mais bonitos, e desta forma sim, poderemos ver o mundo como uma grande família, com todas as cores e formas que, naturalmente, possamos imaginar.

Um Obrigado aos Rangers que continuam a dar a sua vida pelos Gorilas da Montanha. Não visitem zoos, não alimentem o rapto de animais para tristes exposições. Aventurem-se, vão até onde eles vivem e com as regras e cuidados para não danificar o seu ambiente natural, podem acreditar que a experiência é única e brutalmente impactante. Mudará a vossa vida e a percepção do nosso lugar no mundo.

No Facebook do Virunga National Park podem ir acompanhando a vida das famílias de gorilas e das notícias sobre a natureza e a biodiversidade da região.

Marcaram-me os olhares, a profundidade da mais imponente e intensa força existencial destes seres. Fotografá-los foi uma experiência profundamente religiosa.
A fotografia é do macho Alfa, um Gorila que fazia 4 de mim… era qualquer coisa impressionante. Na fotografia estava deitado e pelo seu calmo e profundo olhar, senti que estas pudessem ser as suas palavras:

“Vejo o presente como uma forma de passado lentamente consumido pela destruição dos sonhos que nas florestas verdejantes das altas montanhas nos levaram.
Deito-me e penso em tudo o que já não posso fazer, controlar… fico na memória de ser o que nunca pude e vou perdendo a esperança de poder dar aos meus filhos uma réstia de sonho e de alegria de viver…” in memórias de uma quase extinção.

Esta foi uma visita a uma parte importante da minha família, a família do planeta Terra. Desejo que todos os dias toda a gente se responsabilize um pouco mais e seja proativa, para o deixar um pouco melhor.

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

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