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Domingo, Agosto 1, 2021

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É por causa dele que muitos sinos dobram no Médio Tejo

José Morgado tem 78 anos. Acolhe-nos com um rosto simpático, marcado pelas rugas da sabedoria. Acima de tudo, é um “engenhocas”. Natural de Leiria mas a viver há em Tomar há mais de quatro décadas foi ele que inventou um minucioso sistema eletrónico que faz tocar à hora certa muitos sinos de igrejas nas aldeias da região.

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É um ilustre desconhecido mas o seu trabalho marca as horas das vidas de muita gente. É graças a ele que ainda ouvimos, em dezenas de aldeias do Médio Tejo, o badalar dos sinos, tão característico da interioridade. E é com ele que subimos à torre da Igreja das Curvaceiras, na freguesia de Paialvo, concelho de Tomar, para ver de perto o que faz badalar o sino, um objeto sagrado e religioso, que simboliza a cultura ocidental e a cristandade.

Às cinco horas em ponto, ouvimos o toque que ecoa por toda a aldeia, após um cântico religioso. Não porque, como em tempos idos, alguém tenha ido puxar o badalo arduamente com uma corda, uma tarefa considera até perigosa, mas sim graças ao sistema eletrónico, mais precisamente um relógio, que foi totalmente concebido por José Morgado. Aos 78 anos, a vivacidade, sentido de humor e entusiasmo com que fala da sua arte é contagiante.

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O sistema de José Morgado é, inicialmente, construído na sua casa. Depois é montado e testado dentro da igreja, por exemplo, na Sacristia. No caso da Igreja das Curvaceiras, está desde há sete anos na sala que é destinada aos elementos do Coro. Ali podem ser observadas três caixas de pequenas dimensões e fechadas com uma chave sendo que, de uma delas, saem fios de várias cores. Através de uma instalação elétrica, o sistema chega ao sino que está pendurado na torre. Aplica-se um martelo na parede junto ao sino – que tem uma capacidade de martelagem fortíssima –  e que trabalha com uma mola. “Quando o sistema lhe diz para dar horas o martelo bate no sino e martela as vezes necessárias”, explica ao mediotejo.net.

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Um dos sistemas eletrónicos desenvolvidos por José Morgado, na igreja das Curvaceiras

Normalmente, todo o processo de execução deste sistema demora um mês a ficar concluído. Os toques para anunciar missas e funerais também dão para executar de forma manual, ou seja, sem implicar a necessidade de subir à torre. No caso da igreja das Curvaceiras, o sino funciona entre as 6 horas da manhã e as 21 horas. “Estamos a falar de um relógio digital, criado por mim, que martela nos sinos as horas e os quartos de hora e durante a noite está caladinho para não chatear ninguém”, atesta, sendo o mesmo comprovado por Daniel Nunes, um elemento da paróquia, que acompanha esta visita. Os sinos – ou melhor a montagem de um sistema eletrónico para fazer um sino funcionar sem ajuda humana – entram na vida de José Morgado devido à paixão que este sempre teve por fazer assistência técnica a órgãos litúrgicos eletrónicos de igreja. “Quando um se avaria temos que ser nós a deslocarmo-nos porque são muito pesados”, atenta. Com uma casa de reparações eletrónicas aberta ao público, José Morgado recorda que tudo começou quando, certo dia, um construtor civil lhe lançou um desafio. “Pediu-me para fazer um relógio para a igreja de Alviobeira. Eu fiquei a matutar naquilo porque nunca tinha feito nenhum. Fui indagar e consegui encontrar na capela do Pereiro um relógio adaptado que tinha um martelo mecânico que lhe batia para emitir o som, com um amplificador ligado. “Olhei para aquilo e pensei que estava ali o princípio da questão. Bastava aplicar alguma da minha eletrónica para que funcionasse”, prossegue.

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Depois do primeiro êxito, começou a ser procurado por outras Comissões de igrejas para pôr os relógios das igrejas a funcionar. Um dia resolveu montar um relógio seu mas precisava de uma peça especial. “Entrei em contacto por telefax com a Citizen, que está sedeada no Japão, para construírem um ‘chip’ que difundisse as horas e os quartos de horas em tempo real de modo a que o som saísse amplificado muitas vezes e que o som fosse muito parecido com os sinos. E eles fizeram e enviaram-mo para que experimentasse”, recorda com um sorriso. Depois de ter feito uma montagem rudimentar na sua oficina e gostar do resultado, mandou fabricar cem ‘chips’. Num ano, montou cerca de 50 sistemas em igrejas, um dos quais numa igreja de Campo Maior. “Foi tudo muito rápido”, recorda. A única condição passa por a igreja ter um sino na torre porque o resto fica a seu cargo.

Uma vida dedicada à eletrónica

José Morgado dedicou uma vida inteira à reparação de equipamentos electrónicos. “Já tenho uma vida mais que vivida”, atesta a rir na conversa com o mediotejo.net. Natural de Leiria, reside em Tomar há 42 anos. Inicialmente, nos anos 70, começou por trabalhar na assistência técnica de instrumentos de música. Durante 17 anos esteve sedeado nas Caldas da Rainha para onde foi, em 1978, por imposição de uma firma do ramo automóvel onde era aspirante de contabilidade. “Queria mudar de área porque era muito monótono e estava sempre fechado dentro de quatro paredes”, refere. Por motivos familiares, mudou-se para Tomar, tendo comprado um espaço na Rua Carlos Campeão, por detrás do quartel dos bombeiros municipais. A sua loja chamava-se Musitécnica e foi ali que atendeu clientes vindos de todo o país durante 37 anos. “Dava assistência técnica a instrumentos de música, tais como órgãos, acordéons, pianos, guitarras….”, conta.

Embora tenha uma vocação natural para a eletrónica, foi determinante no percurso profissional de José Morgado – e estamos a falar muito antes do “boom” da Era Digital – a frequência de um curso em Barcelona, Espanha, juntamente com um colega de Leiria. “Tive a oportunidade de poder ir tirar uma formação no Instituto Internacional de Técnica (IIT) que dava formação a pessoas que já tinham alguma experiência no ramo da eletrónica, embora pudéssemos enveredar por vários caminhos. Nós escolhemos a especialização em eletrónica musical”, recorda, acrescentando que esta foi uma experiência muito gratificante. Não havia mais ninguém no país que dominasse esta área pelo que passou a ser bastante procurado. “Fui o primeiro técnico em Portugal a mexer num órgão eletrónico”, exemplifica. O rastilho estava lançado.

Depois de ter tirado mais formação, largou a contabilidade para se lançar por conta própria na reparação. Autodidata, continuou a pesquisar em livros para não se esquecer dos ensinamentos aprendidos e abriu a loja “TVTécnica” nas Caldas da Rainha, onde também colocou instrumentos à venda, sendo o representante do Custódio Cardoso Pereira&C.ª, Lda. José Morgado já tinha muitos clientes de Tomar e arredores quando se decidiu mudar para a cidade do Nabão. “Andei muitos anos cá e lá. A Rua Carlos Campeão nem calçada tinha. Tínhamos que passar por cima de uma tábua para entrar na loja”, recorda, acrescentando que ali esteve até à idade da reforma. Sabia arranjar tudo, desde ferros de engomar, a micro-ondas, rádios ou televisores. “Tomar era uma cidade muito pacata na altura e tive algumas dificuldades em adaptar-me porque, por exemplo, queria um parafuso de rosca milimétrica e não havia em lado nenhum. O inventor, à beira dos 80, não quer parar por aqui. “Ainda há algumas igrejas na nossa região onde gostava de pôr um sino a tocar.” 

José Antunes Morgado nasceu a 5 de março de 1937 no distrito de Leiria mas reside em Tomar há 42 anos. Único rapaz nascido num agregado familiar humilde, completou a 4.ª classe mas a vontade de aprender mais e mais nunca o largou. Foi nos anos 70 que começou a dar assistência técnica a instrumentos de música, tendo estado à frente de um estabelecimento em Caldas da Rainha antes de se mudar de armas e bagagens para a cidade nabantina. Foi aqui que abriu, na Rua Carlos Campeão (por detrás dos Bombeiros) a Musictécnica, uma loja de reparação de artigos eletrónicos. “Estava em Caldas da Rainha e a minha mulher era de Abrantes. Tínhamos que andar sempre para trás e para a frente e isso era maçador. Decidi que Tomar era uma boa opção para viver e trabalhar”, explica. Casado, com um filho e dois netos, ainda se entretém todos os dias na oficina que tem nos arredores da cidade. Também é apicultor e criou a sua página no Facebook.

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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