Segunda-feira, Dezembro 6, 2021

“E essa saúde mental, como vai?”, por Sara Cura

“Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, ninguém escapava aos emissários do alienista. Ele respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural e as segundas a um vício. Se um homem era avaro ou pródigo, ia do mesmo modo para a Casa Verde; daí a alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental. Alguns chegam ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco além dele, em Itaguaí.”
– “O Alienista”, de Machado de Assis

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Porque a minha vida e a minha saúde mental melhoraram extraordinariamente no último ano e meio, no dia 10 de outubro estava a desfrutar de um maravilhoso dia no Porto, na companhia de uma amiga que não via há 11 anos. Tantos quantos os piores da minha vida em termos de saúde mental. Assim, não escrevi no dia 10, mas não saiu do meu pensamento que era o Dia Mundial da Saúde Mental.

Sabemos da urgência das questões relacionadas com a saúde mental em Portugal (estima-se que 1 em cada 5 portugueses sofra de um problema a necessitar de apoio especializado), mas muito à moda dos pudores nacionais, pouco ou nada se fala deste enorme problema e do desastre que é o seu tratamento ou a falta dele. E até podemos dizer que somos sensíveis, mas é sempre um problema dos outros, e quando é nosso é vivido em silêncio, porque ainda é tabu. Porque muito pouco se fala disto e pouco se sabe, os rótulos vão do cómico ao cruel, com variados gradientes.

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A Marisa Matias, deputada europeia pelo Bloco de Esquerda e uma das pessoas que mais admiro neste país (agora ainda mais), falou sobre o seu burnout. Vários artigos em nome pessoal surgiram por estes dias em vários jornais. É muito importante que pessoas com visibilidade nos falem das suas experiências. Sentimo-nos menos sozinhos e até pensamos que, se lhes aconteceu e não têm vergonha, porque hei-de eu ter?

É de facto preciso falar disto, até porque a pandemia agudizou enormemente o problema. É como diz o filósofo Byung-Chul Han: “Quando o tempo perde a sua estrutura, a depressão começa a afetar-nos.” Mais, a perda de estrutura do tempo com o teletrabalho levou muitos à fadiga total e aumentou o risco de burnout. Porém, ainda há quem perversamente ache que em teletrabalho, regra geral, se trabalha menos…

Tive um burnout em 2012 e na sua origem estiveram, mais do que o excesso de trabalho, duas doenças mentais que não havia ainda aceitado: dependência e bipolaridade (esta estava já diagnosticada, mas eu não tomava a medicação como deve de ser, não aceitava e, claro, continuava a beber, pelo que fritei completamente). Assim, o meu percurso de paciente é, como podem imaginar, longo e muito diversificado, para o mal e para o bem, pelo que me sinto segura em falar do assunto pela lente da minha própria experiência (vale somente como isso).

Admito que o meu processo de aceitação foi difícil sobretudo por razões pessoais e de preconceito. Não é fácil aceitar que se sofre de doenças mentais crónicas, que são para a vida, e cujo controlo exige uma vida em tudo diferente da que eu levava. Mais difícil ainda, superar a vergonha de sofrer de desequilíbrios e instabilidade, logo eu que tanto prezo a minha cabeça e sobretudo a minha racionalidade. Aceitei mais rapidamente o diagnóstico de dependência do que o diagnóstico de bipolaridade.

Mas, tanto num caso como no outro, andei anos às turras e sem receber ajuda apropriada (diagnósticos errados, medicações excessivas, medicações que provocaram perigosas alergias…) ou sem saber pedi-la. Vai dar ao mesmo: uma vida totalmente desgovernada. 

Quando finalmente comecei a receber ajuda psicológica de altíssima qualidade no centro onde me internei, tudo o resto se organizou. Aceitei que era bipolar e tomo regularmente a medicação, procurando imediatamente ajuda quando há alterações que exijam ajuste de medicação. Em relação à dependência, não só reforcei a aceitação, como percebi o que se passou e passa comigo e com isso ganhei a capacidade de entrar em recuperação. A minha cura, apesar de suportada por medicação imprescindível, é antes de tudo uma cura pela fala. E é disso que quero falar, porque é na ausência de ter alguém espcializado com quem falar que reside, a meu ver, o busílis do desastre que é o tratamento da nossa saúde mental.

Vejo o diagnóstico do campo da psiquiatria como excessivo (o actual DSM, a bíblia dos transtornos mentais, elenca mais de 300!) e sempre discutível (Focault dizia que a doença só tem realidade e valor de doença no interior de uma cultura que a reconhece como tal) e por isso acho a facilidade da prescrição de químicos assustadora.

Com efeito, vivemos num estranho tempo em que os diagnósticos são em larga medida a forma contemporânea de subjectivar as nossas vivências emocionais. Um tempo que que com facilidade se pretende controlar as emoções pela química (mesmo quem não tem problemas de dependência química). Esperamos da ciência a última palavra sobre os nossos males emocionais, há uma autêntica medicalização da vida, e a questão legítima é: estaremos a transformar em patologias os problemas naturais do dia-a-dia? E se temos problemas no dia a dia, em vez de um comprimido, não seria o bastante falar com alguém capacitado?

É inevitável pensar nisto e não lembrar o “Admirável Mundo Novo” de Haldous Huxley, em que as pessoas são controladas pela administração do prazer. O Estado distribui uma droga chamada “soma” para que toda a gente se sinta feliz…

Eu, olhando para as centenas de transtornos potencialmente diagnosticáveis, pergunto se queremos cuidar deles ou antes colocar toda a gente numa mesma norma? A sociedade actual sobrevaloriza determinadas qualidades numa perspectiva competitiva em detrimento de outras que caem na invisibilidade. Todos querem ter foco, todos querem fazer mindfulness, justamente porque neste mundo competitivo os lugares de topo requerem extraordinário foco e concentração. Mas e quem tem um pensamento mais desfocado, mais lateralizado, e, que por isso mesmo, consegue encontrar coisas novas, não tem lugar neste mundo? Diria que é dessas pessoas que mais precisamos (na maioria dos casos são artistas e o mundo sem eles não teria qualquer sentido). Elas não têm qualquer transtorno. Isto é bem válido para o exagero de diagnósticos de Transtornos de Défice de Atenção e Hipertactividade (TDAH) e consequente medicação nas crianças.

As questões da saúde mental são muito sérias e nós devemo-nos interrogar profundamente. Não sou contra toda a indústria farmacêutica, não sou contra a medicação, até porque preciso dela e precisarei para o resto da minha vida (são substâncias de que não posso prescindir, mas que têm de ser muito bem usadas). Sou é contra a redução dos problemas de saúde mental a algo que se trata unicamente com um diagnóstico de remédio.

O que me indigna é o ridículo número de psicólogos no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e o alarmante número de profissionais que com enorme facilidade prescrevem ansiolíticos, antidepressivos e estabilizadores de humor, e não encaminham para a terapia (uns porque não têm sensibilidade, muitos porque sabem que não há resposta no SNS).

O que me entristece é existirem médicos que, e digo por experiência própria, diagnosticam transtornos mentais de forma reducionista e com abordagens medicamentosas excessivas, não alertando para a necessidade do essencial acompanhamento psicoterapêutico.

São todos? Claro que não, mas são demasiados. E quando os pacientes até têm noção de que necessitam desse acompanhamento, pouca ou nenhuma resposta encontram no SNS e, na maioria das vezes, não podem recorrer ao privado. Eu abdico de muito para poder pagar fora do SNS a garantia da minha saúde mental com regularidade. Não deveria ser assim.

Não se trata de dispensar a medicina biomédica, não seria nem justo nem inteligente, mas de valorizar e tornar acessível o indispensável acompanhamento psicológico regular. É mesmo urgente.

Sara Cura

Natural de Vila Nova da Barquinha, formou-se em Arqueologia na Faculdade de Letras de Lisboa e especializou-se na Sorbonne, em Paris, tendo trabalhado quase 20 anos como arqueóloga no Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado no Vale do Tejo, em Mação. Atualmente exerce funções no Gabinete de Apoio à Investigação e Qualidade da Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa.

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