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“É Dia de Reis!”, por António Matias Coelho

Esta quarta-feira, a primeira do ano, é Dia de Reis. Tradicionalmente, em muitas das nossas aldeias e vilas, é ocasião para se cantar os Reis, num ambiente festivo e de interação comunitária. Neste Dia de Reis de 2021 – em que não se cantam os Reis porque não o consente a pandemia – deixo aqui um registo de como eles eram cantados no Pinheiro Grande e na Carregueira, do concelho da Chamusca, dos finais do século passado, através de um texto resultante de um trabalho de recolha etnográfica que realizei em 1998 (1). Escrito então para valorizar e divulgar esta manifestação cultural da nossa gente, ele acaba, este tempo passado, por ser já uma memória.

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Noite de cinco para seis, do janeiro em que já vamos, há treze homens que se encontram, nas Cabeças do Pinheiro, para irem cantar os Reis. São treze porque dá jeito, não é por superstição, é tão-só para serem seis dum lado, seis do outro, cantando alternadamente, e ainda o tocador, que trata da concertina.

São todos homens já feitos, alguns até reformados, e todos os anos se juntam, nesta noite de Reis, cumprindo uma tradição que já ninguém sabe dizer como terá começado, nem quando, nem por quem, toda a vida foi assim e assim há de ser sempre.

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Dão a volta à freguesia, escolhendo umas quantas casas onde param para cantar. Seis de um lado, seis do outro, sai o canto afinado, uma quadra, outra quadra, vale a pena abrir a porta, mesmo indo alta a noite, porque é gente que vem em paz, trazer votos de Ano Bom, palavras de amizade e a força coletiva das suas vozes que cantam.

Cantar os Reis no Pinheiro Grande, 1998 Foto: António Matias Coelho

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Há sempre alguma coisa para comer e beber e mais alguma ainda que se dá para levar e que há-se servir para o almoço de Reis, quando o grupo se juntar, dessa vez só para comer, de canto bem bastou uma noite inteira, até ao nascer do sol.

Ali por perto, outro grupo, na maior parte mulheres, também se organizou para dar a sua volta. É gente bem mais moça, raparigas, mulheres jovens, alguns rapazes também, que há uns anos começou a cantar os Reis e o faz com determinação e uma resistência notáveis, correndo as casas a eito, sem falhar nenhuma delas, salvo as que estão de luto, cantando a cada porta todas as quadras dos Reis, dezanove no total.

Os versos que vão cantando têm a ver com o Natal, que nesse dia se encerra:

S. José e mais Maria
Ambos vão para Belém
Eles vão cantar os Reis
Nós cantamos cá também

e apelam à oferta, tudo o que vier faz jeito para o jantar de convívio que se há de fazer depois:

Levante-se ó minha senhora
Do cantinho do seu lar
Venha abrir a sua arquinha
Se tem coisa para nos dar.

Entre juncos e junqueiros
Alguma coisa há de haver
Venha abrir a sua adega
Venha dar-nos de beber.

Cantar os Reis no Pinheiro Grande, em 2018. Foto: Gisela Matias / Cortesia de Francisco Matias

Na vizinha Carregueira, tal e qual, à mesma hora, há outro grupo na rua, cantando de porta em porta. São umas vinte pessoas, aqui homens e mulheres, que há vários anos estão juntos neste cantar de ano novo.

São os mesmos os versos que cantam, muitos sabem-nos de cor, ensaiam várias vezes a afinação das gargantas, é assim todos os anos e nunca, nunca se cansam.

Há muitas portas que se abrem e muita gente que dá, mas há também quem não oiça ou não esteja para sair da cama. Há quadras para uns e outros. Se não vem resposta de dentro, canta o grupo estas palavras:

Ou o toucinho é alto
Ou a faca não quer cortar
Ou a moça é preguiçosa
Não se quer levantar.

Mas se correspondem, e são a grande maioria, sai uma quadra a agradecer, que é também uma esperança:

Agradecemos esta esmola
Que este senhor nos veio dar
Queira Deus que de hoje a um ano
Tenha mais para nos dar.

Há de ter, querendo Deus! (2)

(1) Este texto foi publicado nos Cadernos da Ascensão: a Fé e a Festa, editados pela Câmara Municipal da Chamusca em 1998, p. 56-58. Atualizada a ortografia pelo acordo em vigor.
(2) Os grupos femininos do Pinheiro e da Carregueira deixaram de existir, mas o masculino do Pinheiro, entretanto renovado, mantém-se e ainda no ano passado cantou os Reis. Este ano não o fez devido à pandemia. Mas há de voltar, em podendo.

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António Matias Coelho
É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou. Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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