“Dois discursos, dois homens, dois Presidentes”, por Hália Santos

Dez anos separam os dois discursos de tomada de posse de Cavaco Silva e de Marcelo Rebelo de Sousa. O primeiro teve cerca de 28 mil caracteres; o segundo teve cerca de 16 mil caracteres. O primeiro dirigiu-se a ‘todos os Portugueses’; o segundo dirigiu-se a ‘cada Portuguesa’ e ‘cada Português’. Para além disso, fruto do tempo que passou, Marcelo adotou o Acordo Ortográfico. Pormenores na forma? Talvez! Mas são pormenores que deixam antever mudanças em termos de Comunicação Política.

Cavaco tomou posse pela primeira vez em 2006, altura em que o país ainda não tinha entrado na crise. Talvez por isso, um dos seus principais desejos seja hoje um pouco irónico: “Desejo que a minha eleição para Presidente da República fique associada a bom tempo para a vida do País, que brisas favoráveis o conduzam no rumo certo, que os Portugueses reavivem a esperança e ganhem o ânimo e a crença que permitam conduzir a nau colectiva para além da distância, da incerteza e do desconhecido, até porto seguro.” Ao fim de dez anos, muitas foram as brisas desfavoráveis e a maioria dos portugueses e portuguesas certamente se sente em porto muito pouco seguro… Talvez por isso Marcelo tenha preferido dizer que é preciso “cicatrizar as feridas”.

Independentemente dos momentos em que os Presidentes da República tomam posse, o primeiro discurso é sempre uma expressão de vontades, que se espera que crie esperança nas pessoas. Apesar de serem momentos muito diferentes, e do atual momento ser consideravelmente pior para o país do que foi o primeiro momento de Cavaco, Marcelo fez um discurso que caiu bem na generalidade da opinião pública, dos comentadores e até de políticos de áreas diferentes da sua, o que o coloca numa situação de vantagem.

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Beneficiando também de uma forte popularidade, Marcelo fez um discurso dirigido às pessoas, evitando falar para uma massa de cidadãos. Abordagem inteligente, como se esperava, inclusiva, como se aprecia. Assim, manifestou-se a favor “do jovem que quer exercitar as suas qualificações e, debalde, procura emprego”,  “da mulher que espera ver mais reconhecido o seu papel num mundo ainda tão desigual”, “do pensionista ou reformado que sonhou, há trinta ou quarenta anos, com um 25 de Abril que não corresponde ao seu atual horizonte de vida”, “do cientista à procura de incentivos sempre adiados”, ” do agricultor, do comerciante, do industrial, que, dia a dia, sobrevive ao mundo de obstáculos que o rodeiam” e, ainda, “do trabalhador por conta de outrem ou independente, que paga os impostos que vão sustentando muito dos sistemas que legitimamente protegem os que mais sofrem no nosso Estado Social”.

A primeira parte do discurso de Cavaco foi para apresentar cinco desafios para o seu primeiro mandato: “criação de condições para um crescimento mais forte da economia portuguesa e, consequentemente, para o combate ao desemprego e para recuperação dos atrasos face à União Europeia; “recuperação dos atrasos em matéria de qualificação dos recursos humanos”; “criação de condições para o reforço da credibilidade e eficiência do sistema de justiça”; “sustentabilidade do sistema de segurança social”; “credibilização do nosso sistema político, um domínio de crescente insatisfação dos cidadãos que importa não ignorar”. No fundo, tratava-se de um conjunto de desafios que poderiam ser formulados por qualquer um, uma espécie de diagnóstico feito pela generalidade dos comentadores.

Marcelo preferiu identificar o que é preciso fazer, utilizando uma linguagem próxima da generalidade das pessoas, indo ao cerne das questões sem formalismos. Também aqui ganhou em proximidade, o trunfo que tem vindo a utilizar e que poderá continuar a dar-lhe tranquilidade durante os próximos meses de estado de graça. E fê-lo apelando à auto-estima de um povo, apelando ao que temos de melhor: “Temos de sair do clima de crise, em que quase sempre vivemos desde o começo do século, afirmando o nosso amor-próprio, as nossas sabedoria, resistência, experiência, noção do fundamental.” Marcelo apelou ainda no sentido de irmos “mais longe”, com realismo e visão de futuro, em áreas determinantes, como a Educação e Ciência, a Saúde, da Segurança Social, a Justiça e a Administração Pública. E sem esquecer a necessidade de moralizar o sistema político, “nomeadamente pelo combate à corrupção, ao clientelismo, ao nepotismo”. São coisas que as pessoas gostam de ouvir, num registo que compreendem.

Há pontos comuns nos dois discursos, mas o enquadramento e a forma são quase sempre diferentes. Cavaco e Marcelo abordam a incontornável questão da Europa e ambos citam Torga. Mas há duas abordagens completamente distintas. Marcelo descreve o essencial da sua futura atividade tendo como base inquestionável a Constituição da República. Mas não refere o atual Governo nem deixa cair o pano sobre a forma como vai exercer a sua influência a esse nível. Talvez seja este o principal vazio do discurso de Marcelo. Por prudência, talvez.

Cavaco foi mais longe do que Marcelo quando se dirigiu ao Governo de então: “Num momento em que as dificuldades que Portugal atravessa estão suficientemente diagnosticadas e reconhecidas, reafirmo ao Senhor Primeiro-Ministro e ao seu Governo a minha inteira disponibilidade e empenhamento numa cooperação leal e frutuosa.” E acrescentava: “Há seguramente domínios onde podem e devem ser procurados entendimentos alargados entre Governo e oposição e mesmo com organizações da nossa sociedade civil.”

Marcelo, certamente que pela sua formação, mas também pelas suas convicções, optou por se centrar na Constituição da República Portuguesa: “O Presidente da República será, pois, um guardião permanente e escrupuloso da Constituição e dos seus valores, que, ao fim e ao cabo, são os valores da Nação que nos orgulhamos de ser.” E destaca os seguintes valores: “O valor do respeito da dignidade da pessoa humana”, “a vida, a integridade física e espiritual, a liberdade de pensamento, de crença e de expressão e o pluralismo de opinião e de organização”, “mais justiça social” e ” identidade nacional”.

Independentemente de recorrer à Constituição ou não, a questão dos valores é obrigatória num primeiro discurso para Presidente da República. Cavaco também o fez: “Um dos princípios fundamentais da acção política é o respeito pela dignidade da pessoa humana, de que resulta como corolário que o desenvolvimento é económico para poder ser social. Daí que a busca da coesão social, do desenvolvimento justo que a todos aproveite, não possa deixar de constituir uma prioridade para todos os responsáveis políticos.” E, verdade seja dita, fez questão de manifestar a sua preocupação com camadas especiais da população, referindo-se “aos idosos, aos cidadãos portadores de deficiência, aos desempregados e às vítimas de violência, destacando, de entre todas elas, as mais desprotegidas: as crianças”.

Cavaco terminou com um apelo aos Portugueses: “Ajudem Portugal a vencer as dificuldades, é o apelo que nesta ocasião dirijo a todos. Portugal precisa de todos os Portugueses numa atitude de dedicação ao trabalho, de rigor e persistência, num esforço redobrado para fazer bem e com qualidade o que lhes compete fazer, numa nova atitude de iniciativa criadora e de um optimismo fundado na certeza de que os nossos problemas não são maiores do que a nossa vontade colectiva de os vencer.” Marcelo preferiu recorrer à Torga, agora num discurso mais poético, mas também envolvente. “O essencial, é que continuamos a minimizar o que valemos. E, no entanto, valemos muito mais do que pensamos ou dizemos. O essencial, é que o nosso génio – o que nos distingue dos demais – é a indomável inquietação criadora que preside à nossa vocação ecuménica. Abraçando o mundo todo.”

Cavaco deixou uma conclusão que agora deveria ser repescada, por todas as razões e mais algumas: “Os Portugueses podem contar comigo. É para servir os Portugueses e servir Portugal que aqui estou.” Marcelo deixou claro aquilo que quer ser, uma ideia que nos deve acompanhar ao longo dos próximos cinco anos: “Um Presidente que não é nem a favor nem contra ninguém. Assim será politicamente, do princípio ao fim do seu mandato.” Mais uma vez, o novo Presidente mostrou a sua perspicácia, deixando uma importante salvaguarda, que o protege de eventuais críticas: “Sem promessas fáceis, ou programas que se sabe não pode cumprir, mas com determinação constante.”

Como nota de rodapé, um avivar de memória… Disse Cavaco Silva, há dez anos, Presidente da República em início de funções: “Tentar preservar a competitividade à custa de salários baixos é uma estratégia sem futuro.” A sério?

 

 

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