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Segunda-feira, Julho 26, 2021

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O duplo atentado nas duas “Paris”, por Tiago Ferreira Lopes

Do Leste para o Este: O duplo atentado nas duas “Paris”

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Quase 180 almas ceifadas, em menos de vinte e quatro horas, pelo terrorismo, alimentado pelo fanatismo religioso. Beirute sofreu a primeira vaga. Dois bombistas suicidas deixaram um rasto de 43 mortos e mais de 200 feridos, num ataque que abalou a capital do Líbano. Paris sentiu a segunda onda. Ataques dispersos, pelas mãos de, pelo menos, oito terroristas deixaram um rasto de quase 130 mortos e mais de 250 feridos.

O Daesh (vulgarmente conhecido por Estado Islâmico) clamou a autoria de ambos os ataques. Mas porque atacou Daesh estas duas cidades quase em simultâneo? A resposta não é simples, até porque é sempre complicado assumir as razões de um grupo fundamentalista religioso. Mas a primeira razão será, com pouco grau de erro, para mostrar capacidade e para impor medo na Europa e no  Médio Oriente ocidentalizado.

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A escolha das cidades não foi casual. Beirute, conhecida no Médio Oriente como a Paris Oriental, é o epítome do cosmopolitismo de tipo ocidental que sobrevive no tenso Médio Oriente. Beirute representa também a capacidade várias confissões religiosas partilharem, de modo imperfeito é certo, o mesmo espaço sociopolítico. Beirute é ainda símbolo do Imperialismo Europeu.

A Paris europeia, por seu turno, representa o expoente máximo desse mesmo cosmopolitismo e do multiculturalismo. Paris representa a ideia do Humanismo Europeu que não esquecendo  Deus, se centrou no Homem. Paris representa ainda, e claro, o Ocidente responsável pelo declínio da Civilização Islâmica. Foi isto que a Daesh atacou em duas cidades, “duas Paris”, em menos de vinte e quatro horas.

O Daesh é um agregado de muitas pulsões que vão do extremismo ultraconservador sunita, ao revisionismo histórico. Os seguidores e líderes do Daesh não aceitam a implosão da era dos Califados Omíada e Abássida. Não aceitam que a vibração pujante da Civilização Islâmica, que teve em ambos os Califados momentos de expansão assinalável, tenha declinado na chamada “Era da Pólvora” (séculos XVI – XVIII) e ainda por cima em detrimento do Ocidente Cristão.

O duplo atentado nas “duas Paris” é, no fundo, uma reacção a esse mesmo declínio. Uma reacção de quem, antes de mais, luta contra o devir do Tempo. Uma reacção de quem perante a ecléctica mas incerta pós-modernidade, responde com as certezas do dogmatismo ultraconservador em que nada muda, nada se altera, nada se transforma.

O duplo atentado na “duas Paris” é consequência da ausência de uma política consertada entre os países da OTAN e a Rússia. É consequência directa e concreta dos joguinhos de poder feitos nos bastidores, que acreditam poder controlar hidras criadas em laboratório, até ao momento em que a hidra morde na mão e foge. Parece que não se aprendeu nada com a Al-Qaeda…

Daesh é assim o corpo, cada vez mais gordo, de uma hidra com demasiadas cabeças. Uma cabeça em Riade apostada no contraponto ao Teerão.  Outra cabeça em Ancara apostada no contraponto ao Curdistão. Outra cabeça em Washington pelo uso contínuo, já desde a Guerra do Afeganistão de 1979, de milícias locais que logo se descartam como se fossem lenços de papéis. Outra cabeça em Bruxelas pela tentativa de monopolização política de uma suposta Primavera, que se tem revelado mais invernia que outra coisa.

O duplo atentado nas “duas Paris” irá agora testar-nos a todos na capacidade de resistir ao medo, deixando de lado xenofobias desinformadas. É importante sublinhar que o primeiro autor conhecido dos atentados em Paris é um muçulmano francês e não, como muitos querem crer, um dos refugiados que pedem ajuda à Europa fugindo do Daesh.

O duplo atentado nas “duas Paris” irá testar, de novo, a força dos valores centrais europeus: Democracia, Direitos Humanos, Liberdade Individual. Se ao sangue derramado reagimos com mais derramamento de sangue, então tornamo-nos a Daesh que combatemos. É pois vital que a barbárie seja respondida (porque o silêncio também mata!) com sapiência; que o terror seja repelido com prudência.

Professor Auxiliar no IBA (Paquistão), licenciou-se em Comunicação Social na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA-IPT), cidade onde cresceu e viveu até aos 22 anos. Doutorado em Relações Internacionais (ISCSP-UL), colabora com vários centros de investigação internacionais. É autor da coluna “Cadernos do Tiaguistão” publicada na revista PACTA (ISCSP-UL, Lisboa), autor-residente da revista MindThis (Canadá), editor de opinião para a revista think.act.lead (Eslováquia) e editor-chefe do SOJRS (Turquia).
Escreve no mediotejo.net ao domingo, quinzenalmente.

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