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Quarta-feira, Dezembro 1, 2021

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“Do Alforge ao Tupperware”, por Armando Fernandes

Estou crente que os leitores mais antigos se lembram de os asininos transportarem no seu dorso um artefacto composto por duas bolsas fundas e largas unidas entre si, de tecido grosseiro muitas vezes exibindo dotes artísticos de quem os executou. Este artefacto fala árabe e serve para levar de um lado para o outro aquilo que se entender, por norma, no decorrer dos trabalhos campestres a comida destinada aos trabalhadores que nos campos mourejavam.

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Por seu turno os leitores mais modernos conhecem o termo tupperware termo inglês que significa artefacto de plástico de vários formatos e superfícies empregues na conservação e de transporte em todos os meios de locomoção de produtos alimentares crus ou cozidos. Entre a idade dos dois instrumentos de suavização da vida dos humanos medeiam milhares de anos.

Se escavarmos ao modo dos arqueólogos na História dos povos e do progresso científico e técnico vamos encontrar milhares e milhares de objectos com a mesma finalidade, sejam pedras dotadas de cavidades, sejam faustosas peças de joalharia, passando por todas as outras cujo objectivo é sempre o mesmo – colocar ao nosso alcance comida sápida e em boas condições – porque o se o «Homem se faz a si próprio» (título de um interessante livro) convém que se faça de forma sustentada, jubilosa e de molde a ficar na nossa memória.

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Não por acaso estamos sempre a recordar (memória) uma receita de uma comida de tal forma apelativa que nunca mais a esquecemos. Nesse patamar memoralístico ganham as nossas avós e as nossas mães, sem esquecer as sogras, as tias, nos meios urbanos aquele cozinheiro, aquela cozinheira. No cômputo geral a cozinha feminina ganha à cozinha varonil, esta última provinda dos centros do poder, seja o político, o eclesiástico, o económico e o social nas suas várias gradações.

A quarentena obrigou e vai consolidar profundas alteridades nesta área a ultrapassar os ditames da cozinha rápida geralmente conhecida por fast-food. Uma senhora do Tramagal ainda se lembra de alforges, há anos que utiliza os tupperwares, não tardará a ver bater à sua porta distribuidores de vários tipos de comida para lá da precursora pizza.

No tempo da pedra lascada até as cascas de nozes serviam para conter comida, agora as cascas de frutos secos são fontes de energia, os nossos avós mercê de infindos trabalhos conseguiram chegar à cozinha tecnológica, no futuro outras inovações vão surgir nas nossas cozinhas, importa que não seja perdida a presença do essencial de uma receita culinária – matéria principal, ingredientes e condimentos – porque os nossos descendentes também merecem a alegria da exaltação dos seus palatos conforme os seus gostos.

Até porque em matéria de gostos nada está escrito advertiam os romanos, o que é uma grande e redonda mentira, basta verificar as prateleiras de uma Biblioteca recheadas de aquisições bibliográficas em vários suportes onde impera o «bom senso e o bom gosto» dos seus leitores, coisa que por estas bandas não é prática de praticar.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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