“Ditadura do pensamento único”, por Vasco Damas

Cartoon: Falco

A sabedoria oriental diz que se duas pessoas pensam da mesma maneira, uma delas é dispensável porque apenas a outra está a pensar. A ocidente afirma-se que, quando todos pensam o mesmo, ninguém está de facto a pensar. Apesar da existência destes dois conceitos, e de eles serem incentivados e implementados nas organizações empresariais, parece que se estimula precisamente o contrário quando entramos no universo da política.

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Aí, o contraditório é perigoso e incómodo, e aquilo que verdadeiramente se pretende cultivar é uma ditadura de pensamento único, tentando condicionar de todas as formas todos aqueles que ousam pensar diferente.

Nas redes sociais é comum observarmos a apologia do poder defendida por uma imensa horda de perfis falsos, normalmente acompanhada pela censura através do “apagamento” dos comentários que criticam as opções tomadas.

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Outra das estratégias de defesa do poder, fazendo jus ao princípio de que “a melhor defesa é o ataque”, é a participação de atores secundários que são “empurrados” para a frente para a realização do combate, da provocação, da falta de respeito e do trabalho sujo.

Neste âmbito é normal e frequente lermos meias verdades acompanhadas por ofensas gratuitas e chega mesmo a ser possível observarmos confusão entre conceitos, vendo figuras que personalizam na perfeição uma espécie de ave exótica originária da América do Sul, a acusar outros de serem os verdadeiros representantes dessa espécie.

Bem sei que alguns desses exemplares, refiro-me àqueles que verdadeiramente o são porque se limitam a repetir aquilo que os “donos” lhes mandam dizer, estão essencialmente concentrados na defesa do seu posto de trabalho em virtude de, nunca tendo feito nada na vida, correrem o risco de ter de começar a trabalhar, cruzes credo, se aqueles que pensam diferente conseguirem ter sucesso na partilha das suas ideias.

É esta a tolerância democrática que tem quem se quer perpetuar no poder. Mas se é legítima a ambição nessa perpetuação, ela perde-se na falta de elevação e na vacuidade dos argumentos que tentam construir a sua defesa.

Não pode valer tudo. E se alguns não pensam ou não agem assim, defendendo e praticando precisamente o “vale tudo”, isso deve-se ao facto de nova confusão entre conceitos.

Em democracia, a verdadeira, a única que realmente existe, toda a ditadura é abominada. O problema é que as maiorias absolutas acabam por legitimar pequenas ditaduras e estas acabam por se sentir ameaçadas com a probabilidade de terem que regressar às rotinas democráticas.

Dentro da lógica de dar um passo atrás para depois se darem dois passos em frente, enquanto não houver consciência da necessidade deste regresso ao passado, continuaremos condenados a adiar o futuro, e é também por isso que não devemos desistir de fazer ouvir a nossa voz para combater esta crescente ditadura do pensamento único.

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