VN Barquinha | Natália Nobre, uma jovem avó marinheira

Natália Nobre e a neta Leonor no leme. Foto: mediotejo.net

O Dia das Avós, assinalado a 26 de julho, é dedicado não aos que criam, mas aos que mimam. Pelo menos, é isso que se diz quando falamos dos avós, aqueles que dão os doces às escondidas depois dos pais terem dito cinco vezes “não”. Não lhes associamos apenas essa doçura traquina, mas também a sensação de que estamos perante um livro de estórias vivo de que é preciso cuidar. No entanto, nem todos os netos associam esta imagem aos “pais dos pais”, e se Leonor já conseguisse falar, contava-nos uma história muito diferente sobre a avó Natália, hoje com 39 anos, que tem a carta de marinheiro e até já a meteu no leme…

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*Reportagem publicada em julho de 2017, republicado em agosto de 2019

Cabelos brancos, bengalas, óculos e as marcas do tempo justificam a publicidade de aparelhos auditivos, pomadas e outras coisas que fazem parte da chamada terceira idade, mas nem todos os avós precisam de ligar para o “número que aparece no ecrã”. Leonor tem cerca de onze meses e chegou à esplanada de Tancos nos braços de Natália Nobre, cujos cabelos escuros ainda não precisam de tinta, nem revelam que é avó aos 37 anos. Quem as vê chegar pensa que são mãe e filha e não têm conta as vezes que se ouve: “Avó? Está a brincar comigo.”

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Apesar de ser extrovertida, nisto não brinca. É mesmo avó. “É um amor que não sei explicar. Achava que o amor que sentimos pelos filhos já era imbatível… que não existia maior, mas esta aqui…”, diz, olhando para a neta. Não consegue explicar o sentimento, mas concorda que aquilo que se sente é “uma loucura” e a dose de carinho e instinto protetor são “a dobrar”. Assume-se como “mãe galinha”, mas é “avó leoa”, inspirada pelo amor ao Sporting e à garra que tem para enfrentar os desafios da vida.

Natália cresceu em Vila Nova da Barquinha. Foi na sede de concelho que brincou com os primeiros colegas de escola e onde se tornou adolescente, até decidir casar aos 18 anos, “com medo que o mundo acabasse no ano 2000”. Faltavam dois anos para o tão anunciado “fim do mundo” e achou que devia aproveitar o amor e conhecer a maternidade antes de confirmar se as mil e uma previsões estavam corretas. Na entrada para o novo milénio tinha Micaela, mãe da Leonor, no colo.

A entrevista foi feita com o rio Tejo por perto. Fotos: mediotejo.net

As teorias não passaram disso mesmo e, anos depois, nascia o Rúben, que tem o sonho de ser futebolista e começou a conhecer o mundo com a mãe nas horas em que esta não estava a trabalhar na sede do grupo “Os Mosqueteiros”, em Alcanena. Quando nasceu o “Vitinho”, do segundo casamento, as “maleitas”, como refere Natália, já a tinham obrigado a deixar o posto, por não lhe terem dado “melhoria de trabalho”, apesar de estar efetiva.

Encontrou novo sustento no balcão de uma pastelaria na terra onde cresceu e dali passou para outro café na vila, ligado ao verde do clube que tanto gosta, que explorou cerca de dois anos. Nessa altura, a casa em Vale Florido, no concelho de Tomar, estava cheia. Não com três filhos, mas com seis, porque diz ter tido duas raparigas no primeiro parto, dois rapazes no segundo e um casal no terceiro. Natália ri-se quando explica que Leonor tem cinco tios e os três que chegaram mais tarde não são os mais novos do grupo.

Os filhos do segundo marido foram abandonados pela mãe biológica e a avó da menina revela: “O meu coração abriu.”

Abriu-se o coração e a porta da nova habitação da família no Entroncamento, com um quarto onde João, Rúben e Vitinho partilhavam carrinhos, e outro onde Micaela, Ana e Ritinha brincavam com bonecas. Falamos em sentido figurado porque, atualmente, as bonecas conduzem carrinhos e os super-heróis cozinham. Além disso, algumas brincadeiras mudaram com a idade pois Micaela e Ana têm já 17 anos, João 16, o Rúben fez 14, a Ritinha tem 12 e o Vitinho, 11.

Leonor com os pais, a avó e os tios Vitinho, Ritinha e Rúben. Fotos: mediotejo.net

Uma nova casa cheia, mas não apinhada, e que recebeu mais um elemento depois do telefonema em que Natália descobriu que ia ser avó. Micaela engravidou aos 15 anos e, uma vez tomada a decisão de levar a gravidez até ao fim, o namorado passou a partilhar os dias na moradia perto do Parque de Campismo e do Hospital São João Baptista.

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A primeira reação da futura avó foi de indignação perante a quantidade de métodos contracetivos existentes, mas depressa deu lugar ao apoio total. A gravidez foi acompanhada e vivida como se fosse sua, e estava por perto na hora do parto da filha, momento que recorda com orgulho: “Só houve um grito.”

A ideia de ser avó foi encarada com naturalidade. Mais um desafio de quem diz nunca “baixar os braços”, mais uma viagem inesperada em que agarrou o leme, preparada para enfrentar a bonança e a tempestade.

O leme, sim, porque esta avó de 37 anos tem carta de marinheiro e, até finais do ano passado, era a “capitã” do barco que faz os passeios turísticos entre o Cais d’El Rei, em Tancos, e o Castelo de Almourol. Função incluída na lista das que continua a desempenhar na Junta de Freguesia de Tancos, onde assegura o serviço administrativo e as iniciativas ligadas aos avós mais tradicionais.

A experiência é relembrada com sorrisos intercalados pela tristeza, devido à forma como terminou no dia em que pegou no “barco pequeno” e teve um acidente. A cirurgia à coluna cervical resolveu parte do problema, mas ficou impedida de fazer aquilo que gosta: “Trabalhar onde posso conhecer pessoas e aventurar-me em coisas que não conheço.”

Ficaram as memórias dos momentos com o grupo de amigos que recordou um colega falecido através da música, a t-shirt oferecida com dedicatórias ou a criança paraplégica de quatro anos que fez sorrir no leme.

Entre elas destaca, igualmente, as reações (sobretudo femininas) quando os visitantes e turistas lhe perguntavam se “o senhor do barco” demorava muito a chegar e ela respondia que “o senhor” era ela. Naquele caso, era mesmo ela, mas podia ser o marido, a filha Micaela ou o genro, pois a casa do Entroncamento é lar de mais três marinheiros devidamente certificados. Em breve passarão a dois, uma vez que Leonor e os pais vão mudar-se para a casa de Vale Florido.

A pequena Leonor já partilha o gosto da avó marinheira pelo barco. Fotos: mediotejo.net

Saem três e na cidade ferroviária ficam sete sem qualquer apoio institucional para famílias carenciadas e com uma rotina diária que se desvenda mais simples do que pensamos. A entrada na escola trouxe-lhe também uma educação em que se incute a responsabilidade e alguma independência. Ao contrário do que imaginámos, o despertador de Natália não toca de madrugada, toca às 7h15 da manhã, e os mais velhos são chamados.

Começa então o rodopio nas duas casas-de-banho e na cozinha e, cerca de uma hora depois, estão prontos para sair. Os atrasos são raros e acontecem, sobretudo, quando o Vitinho faz ronha. Ao longo das 24 horas há tempo para aprender, para os treinos de futebol e as danças de salão, entre as outras atividades dos pequenos, e ainda para as saídas dos adultos e os ensaios do Rancho Folclórico “Os Pescadores” de Tancos, em que participam alguns elementos da família.

O tempo de Natália parece esticar e, em 2012, também concluiu o ensino secundário à noite, na área das Ciências Sociais e Humanas, em Vila Nova da Barquinha – na mesma escola que tinha abandonado aos 18 anos, para ir trabalhar. Saía às 18h00 do trabalho, passava por casa para orientar o jantar e às 19h00 estava sentada em frente ao quadro.

Uma aventura que nos faz lembrar um provérbio africano no qual dizem ser “preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. A Leonor encontrou a Aldeia da Avó Natália, a marinheira.

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