“Desenhando com o lado direito do cérebro”, por Massimo Esposito

Nas minhas idas ao estrangeiro , uma das minhas preocupações é visitar as livrarias,  porque encontro uma enormidade de livros e imagens (sou apaixonado por livros e tenho um pequena biblioteca em casa) e também porque  encontro edições que não existem em Portugal. Uma verdadeira perdição.

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Por exemplo, no Recife (Brasil) encontrei um livro de anatomia maravilhoso, da minha autora preferida (nesta área) Sarah Simblet, Anatomy for the Artist, que cuido com amor.

Mas entre tantos encontrei um livro que já há muito tempo procurava: Desenhando com o lado direito do cérebro, de Betty Edwards, um livro de uma professora de desenho, com longa experiência e uma metodologia pessoal de ensino.

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Na minha “biblioteca “comecei a ler e, devagar, regressei ao passado.

As aulas em Ravenna, em Itália, com o professor Ruffini, no velho convento transformado em Liceu Artístico, as horas passadas ao cavalete a desenhar esculturas gregas e renascentistas, a medir, “esfumar”, e todas as sensações do aluno na escola que escolheu que a arte fosse parte dele.

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Logo depois comecei a ter outras lembranças, estas mais recentes mas não menos agradáveis. Quando comecei a dar aulas de desenho, numa língua não minha, mas com uma metodologia atualizada e personalizada ao lugar e aos alunos presentes.

A dificuldade de trazer a “Academia” a um nível pratico e moderno, e lembro-me bem das expressões dos alunos quando tentava explicar como medir as proporções, um mais 1/3, dois e ¼, com o lápis apontado a roldanas e garrafões e a traduzir estas indicações em desenhos.

A dificuldade de explicar o que era o “puxar para fora” e a importância dum prumo e dum espelho e o rosto feliz de quando entendiam e conseguiam realizar obras agradáveis.

Às vezes vi chorar e a vontade de desistir era grande, mas quem persistiu conseguiu participar em exposições, concursos, ouvir elogios e até vender quadros.

O livro da Edwards, corrobora os métodos por mim adotados nestes últimos 20 anos.

Ela também fala em como devemos ver, numa maneira diferente, com mais atenção, em como devemos exercitar-nos o mais possível (quem progrediu mais foram os alunos que mais se dedicaram ao exercício).

Ver os desenhos ao contrário e fazer desenhos ao contrário, desenhar tudo o que aparece, copos, parafusos, caras, ossos, troncos e sobretudo mãos, sem achar isto difícil e outro mais fácil. Não existe um desenho fácil para executar porque, se nós o encaramos como estudo, pode ser complicado como um desenho do Escher ou de Durer.

O importante no desenho é a entrega que se faz ao estudo e a prática subsequente.

O livro de Betty Edwards explica que as dificuldades que muitos encontram ao desenhar são devido ao facto que o cérebro é dividido em duas parte, o direito e o esquerdo.

Em geral o lado esquerdo (lógico, programador, calculador) dirige todo o nosso pensamento em detrimento do lado direito (sonhador, intuitivo, imaginativo) e assim, uma operação ilógica como querer pôr um navio ou um elefante numa folha A4, cria dificuldades ao lado dominante analítico e racional.

O esforço, e aqui aparece o exercício, é deixar que na atuação artística o lado direito tome a prerrogativa de mandar na mão e assim poder desenhar ou pintar.

É uma questão de conseguir pensar e atuar com uma parte do cérebro pouco usada, que na nossa sociedade é pouco conveniente mostrar, mas que dá uma excelente alegria quando conseguimos, e os meus alunos sabem bem disso.

Às vezes chegam ao atelier frustrados ou um pouco deprimidos mas depois de duas horas a desenhar saem mais aliviados e felizes. E o livro da Edwards explica isso ao dizer que o uso do lado direito do cérebro é como uma terapia, uma possibilidade de sair do “lógico”, do “verbal” e do “racional para passar ao “intuitivo”, ao “imaginativo”, ao “holístico”, em maneiras não-verbais, não-temporais e não-racionais.

É como uma viagem, fora dos sentidos normais e as vezes o tempo passa tão rápido que não damos conta dele, e também não sabemos explicar porque usamos aquela cor ou fizemos aquele traço. Fizemos e …pronto, está feito!

Temos então de progredir no modo de usar o lado direito do cérebro. Seja como pensamento seja como exercício prático.

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