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“Desaire arrozeiro”, por Armando Fernandes

A pandemia assombra-nos os dias, à noite provoca-nos insónias, leva-nos a fazermos conjecturas relativamente a esperança de vida e, receosos, procuramos modos de suavizarmos as horas infindáveis na clausura atormentada que Dante nunca poderia imaginar quando escreveu a sua obra-prima a qual originou o vocábulo dantesco.

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Por ser assim, e é, no Inverno da Vida mentalmente estruturei o preenchimento das horas, dos ócios e ofícios de forma a desanuviar o espírito e o corpo levando em linha de conta as minhas afinidades electivas e efectivas. Uma delas é a refeição do almoço, que considero uma bem-aventurança e não contas de um rosário de tristes queixumes face à ameaça de a espada de Damôcles desabar nos meus ombros debaixo do formato de vírus. Tudo pode acontecer!

Ora, há dias o almoço adquirido no vaivém take-away no referente a prato principal era arroz de polvo. Ao saber a memória relembrou o polvo tenro a humedecer o arroz, a conceder-lhe cor avermelhada, temperado com conta, peso e medida, a exalar aromas resultantes do feliz enlace do precioso cereal tão elogiado por Confúcio, e de cariz marítimo provindos do octópode que Júlio Verne imortalizou.

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E, o que vi na travessa? Vi rodelas de polvo a boiarem num líquido aquoso, distante de molho, arroupadas por bagos de arroz num colorido deslavado. Provei o dito arroz, desenxabido, ora al dente, ora espapaçado. Um desastre palatal. O que teria acontecido?

Vislumbro a possibilidade de o polvo ter sido cortado enquanto congelado em virtude de o corte ser mais fácil e mais igual, a seguir entrou na panela a ressumar a água da congelação dando azo ao desastre.

O almoço deixou de o ser, lamuriei imprecações tal qual o almocreve de o Amor de Perdição, foi-me dito que o arroz de polvo passou à categoria de interdito como o toucinho é para Mafoma. É a vida em época de pandemia!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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