“Debaixo de terra”, por Berta Silva Lopes

Foto: Diego Torres, Pixabay

Queríamos ficar famosos, acho que era isso. Íamos ficar famosos, aparecer nas notícias e nos livros, explicar como tínhamos conseguido tamanha proeza, dar entrevistas e fazer visitas guiadas ao local.

PUB

O local era uma espécie de gruta, parcialmente obstruída no início, que juntos ajudámos a desimpedir num trabalho de equipa repetido durante várias manhãs de domingo e ocupou para cima 20 jovens, eu incluída, em cada uma dessas manhãs.

Não me recordo como soubemos da existência daquele corredor subterrâneo mas depressa começámos a ouvir histórias antigas sobre a suposta ligação ao rio Tejo. Era isso que nos entusiasmava, saber que cada balde cheio de pedras retirado do seu interior era um passo em direção ao rio e a uma história gloriosa, uma façanha digna de registo onde figuraria o nome de cada um de nós. Nunca nos passou pela cabeça que alguma coisa pudesse correr mal ou que a glória pudesse acabar em tragédia.

PUB

Todos os domingos partíamos em direção à aldeia da Ribeira de Boas Eiras, subíamos à Cova dos Mouros, e retomávamos trabalhos. Íamos munidos de pás e baldes, tudo movido a adrenalina e aventura. Trabalhávamos afincadamente numa organização em cadeia, os mais corajosos à frente a destravancar caminho, e os baldes a passar de mão em mão até à superfície.

Lá dentro, nem sempre se conseguia caminhar de pé, havia passagens estreitas onde tínhamos de passar praticamente a rastejar e todas as semanas tínhamos de expulsar dali dezenas de morcegos. Não me recordo que idade teriam os mais novos nem os mais velhos. Talvez as idades do grupo andassem entre os doze e os vinte e poucos anos. A mesma idade dos jovens que ficaram recentemente encurralados numa gruta na Tailândia.

PUB

No dia em que escrevo esta crónica já todas as crianças e o seu treinador saíram do hospital e inclusivamente falaram esta semana à comunicação social, mas desde o seu desaparecimento até ao fim da vigilância hospitalar o mundo não deixou de acompanhar o caso.

Foram dias de angústia e sofrimento, sobretudo para os pais e familiares, mas também para quem acompanhava a operação de resgate e torcia para que tudo corresse bem. Tirando a morte de um mergulhador, a intervenção foi um sucesso.

No terreno estão já vários realizadores a recolher depoimentos para aquele que se antevê vir a ser um grande filme sobre a aventura do grupo de ‘javalis selvagens’ debaixo de terra e a sua história com final feliz.

Contudo, importa saber ainda as razões que levaram aqueles jovens para o interior da montanha, estando isso desaconselhado e sendo esta uma gruta perigosa. Que motivações estiveram na origem da exploração da gruta por do grupo? O que terá levado a que se tivessem embrenhado tanto no seu interior?

Terá sido somente o desejo de aventura, antevejo, tal como aconteceu com o grupo de jovens da minha aldeia há muitos anos. Ou então apenas a necessidade de proteção perante a tempestade repentina. Tal como nós, talvez não tivessem real consciência do perigo, mas, ao contrário de nós, as coisas não correram bem e a sua história deixou o mundo em suspenso durante vários dias.

Porém, tudo terminou da melhor forma para ambos os grupos. O grupo da Tailândia foi resgatado com sucesso e a malta da minha aldeia abandonou a exploração ao fim de poucas semanas, após um pequeno susto que nos deu a impressão de uma possível derrocada. Felizmente não nos tornámos notícia pelas piores razões, enquanto o grupo da Tailândia surge agora nos ecrãs do mundo inteiro pelas razões opostas: estão todos salvos, aparentemente sãos ou só com pequenas mazelas. Entre eles e nós, apenas uma coisa em comum: uma história para contar aos nossos netos, fazendo, claro, em ambos os casos, as devidas advertências: não é proeza que se deva repetir.

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

- Publicidade -
Artigo anteriorEmprego | Professor Adjunto para a Escola Superior Agrária do IPCB
Próximo artigoVila de Rei | Reunião de Câmara Municipal
Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here