Quarta-feira, Dezembro 8, 2021

“De luto”, por Helena Pinto

Passadas as eleições autárquicas é tempo de retomar a crónica de “opinião” no mediotejo.net.

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Pensei em vários temas que gostaria de abordar – o novo ciclo autárquico, o balanço de dois anos da governação, os desafios do próximo Orçamento de Estado… Mas a realidade é incontornável e impossível não falar sobre o que se passa no nosso país. A tragédia que vivemos nos últimos dias é muito difícil de explicar e as perguntas que ainda não tiveram resposta interpelam a responsabilidade política.

Aquilo a que assistimos nos últimos dias e aquilo a que assistimos em Pedrógão Grande exige uma resposta, exige acção. Um povo completamente desprotegido, em desespero, enquanto o inferno das chamas consumia aldeias e floresta é muito mais que uma imagem, é uma coisa que se cola à nossa pele, que marcará por muito tempo este país.

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Não alinho nas respostas fáceis e no tom acusatório contra tudo e contra todos. Mas também não alinho em “apelos à resiliência”. Acredito que existam múltiplas causas para a tragédia, umas mais determinantes que outras, acredito que as condições climatéricas são complicadíssimas, acredito que os anos de abandono da floresta potenciam tudo o que aconteceu, assim como a expansão do eucalipto em prejuízo de outras espécies. Mas o povo e o país precisam de respostas mais profundas e é preciso explicar porque é que quase tudo falhou e se gerou uma incapacidade de prestar socorro a quem dele tanto precisava.

É uma questão de confiança. É isso que está em causa. É isso que é preciso reconstruir.

Não alinho nos pedidos de demissão porque sim, ou porque é preciso estar mais à frente na competição para abrir telejornais – o anúncio do CDS sobre a moção de censura é completamente descabido e até insultuoso para o país, sobretudo vindo de quem vem, com as responsabilidades governativas que teve em relação à floresta e na protecção civil.

Mas, reconstruir a confiança, implica responsabilidade de quem governa, de quem dirige os serviços que falharam. A demissão não é uma fuga, a demissão é um acto digno de um ou uma governante que falhou.

Faço votos para que não se perca muito mais tempo a estudar o que já foi estudado, a juntar relatórios a outros relatórios que ficaram perdidos no tempo. Diga-se a verdade ao povo e mãos à obra para todas as reconstruções.

Helena Pinto, vive na Meia Via, concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da associação Feministas em Movimento.
Escreve no mediotejo.net às quartas-feiras.

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