“Da morte domesticada ao tabu da morte”, por António Matias Coelho

Frontão da entrada do cemitério de Constância, um dos mais antigos cemitérios liberais do Ribatejo Foto: António Matias Coelho

Embora o Dia de Finados (ou de Fiéis Defuntos) seja só amanhã, dia 2, há muita gente que aproveita o feriado deste 1.º de novembro (Dia de Todos os Santos) para visitar os cemitérios e deixar flores em lembrança dos que partiram.

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Neste tempo de outono em que se presta homenagem aos mortos e que convida à reflexão sobre a finitude da vida humana, faz sentido pensarmos um pouco também sobre a forma como a nossa sociedade tem encarado a morte ao longo do tempo. Ao contrário do que se possa supor, a atitude perante a morte não foi sempre a mesma e mudou bastante nos últimos dois séculos. Só então se criaram os cemitérios civis, verdadeira cidade dos mortos, e passou a haver um lugar de enterramento para cada corpo. E só então se passou a tentar esconder a morte, como se ela não fosse parte integrante da vida e escondê-la pudesse resolver alguma coisa.

A morte: inevitabilidade e tabu

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Em bom rigor, a morte é a única coisa que todos temos certa na vida.

Esta é uma verdade que sabemos há milénios. Mas só nos dois últimos séculos tecemos em torno da morte uma teia de preconceitos que conduziu primeiro à rejeição, depois ao afastamento e finalmente ao tabu. Evitamos, até ao limite, lidar com a morte. Escondemo-la, atiramos os mortos para espaços murados e distantes do nosso quotidiano e passamos a vida a fazer de conta que a morte não virá, se não a dos outros, pelo menos a nossa. A morte, durante tanto tempo domesticada, tornou-se estranha, enigmática, repulsiva. Ora o que mudou nestes últimos duzentos anos não foi a morte, que continua sendo o que sempre foi. O que mudou foi a vida e a forma como a encaramos e como estamos nela.

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Apesar do caminho já percorrido – os primeiros passos foram dados na Chamusca, há quase 30 anos, com a realização dos dois Encontros sobre as Atitudes perante a Morte, em 1989 e 1991, pioneiros no tratamento desta temática em Portugal –, a morte tem sido e continua a ser tabu na nossa cultura. Mas nem sempre foi assim e nem sempre assim foi tanto.

No Antigo Regime – o longo período da História da Europa ocidental que antecedeu a Revolução Francesa e as revoluções liberais que ela inspirou –, ou seja, até há apenas dois séculos, os mortos eram sepultados nas igrejas (os principais) ou no adro delas (o povo comum). Numa sociedade rigidamente hierarquizada e profundamente religiosa, em que a vida era encarada como uma caminhada para se merecer o Céu e o que contava não era tanto o indivíduo mas o coletivo – o povo de Deus –, a morte era entendida, em geral, como uma libertação: preparava-se, morria-se em casa, em família e depois enterrava-se o morto junto dos demais, muitas vezes em vala comum, sem honras nem epitáfios, ao pé da igreja. De modo que vivos e mortos comungavam o mesmo espaço e os vivos passavam pelo meio dos seus mortos cada vez que iam à missa.

O triunfo da burguesia e das ideias liberais veio criar uma sociedade nova, fundada nos valores iluministas da liberdade, da igualdade e da fraternidade que privilegiam o indivíduo, o trabalho, a razão e a ciência e progressivamente se seculariza e se afasta de Deus e da Igreja. É esta sociedade, construída a partir dos finais do século XVIII e princípios do século XIX – a sociedade em que vivemos nós hoje – que impõe a criação dos cemitérios civis, fora das povoações, murados com altos muros e que reservam um espaço para cada morto, segundo a lógica Um homem, um voto / Um homem, uma campa. E um nome. E um epitáfio. E depois uma fotografia. E o muito mais que podemos descobrir nos nossos cemitérios.

Não foi a morte que mudou. Foi a vida. E a criação dos cemitérios contemporâneos, ou seja, a criação da cidade dos mortos, separada do mundo dos vivos, não representa apenas uma simples mudança de lugar de enterramento: significa sobretudo uma profunda alteração de paradigma da nossa existência na Terra.

Atitudes perante a morte até aos finais do Antigo Regime

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Nos tempos medievais e modernos, tanto nas cidades como nas vilas ou nas aldeias, a igreja era o centro do espaço de enterramento. Existia uma rígida hierarquia na morte como na vida: nobres e clérigos principais tinham direito a sepultura no interior do templo, individualizada e identificada com o nome do defunto e muitas vezes palavras de louvor da sua pessoa e da sua ação, ao passo que a grande maioria dos mortais, o povo comum, era enterrada no adro, em frente ou em torno da igreja.

Lápide funerária do nobre D. Gualdim Pais, séc. XII –
Igreja de Santa Maria do Olival, Tomar
Foto: Foto: António Matias Coelho

Para a gente miúda não havia epitáfios. Os corpos eram sepultados em vala comum, em altura de epidemias, ou, fora disso, numa cova que se abria em qualquer lugar, muitas vezes sobre corpos ainda em decomposição, sem nada a assinalar nem qualquer ordenamento. O corpo vinha sem urna, quando muito num esquife que se reutilizava (como o berço), envolto num sudário ou nem isso e assim era lançado à terra.

Para a mentalidade da época, o que contava não era tanto o indivíduo – esse seria um valor burguês, afirmado muito mais tarde – mas o coletivo, o povo de Deus. Vivos e mortos partilhavam o mesmo espaço, o espaço sagrado que a divindade protegia. Vida e morte coexistiam naturalmente e todos se acostumavam, desde crianças, a lidar com esta proximidade. Como afirmava, em 1959, o notável economista francês Jean Fourastié, a morte estava no centro da vida como o cemitério no centro da aldeia.

Durante o Antigo Regime, a morte era domesticada. Morria-se em família e o momento final era preparado: reuniam-se os filhos para os últimos conselhos e recomendações; chamava-se o tabelião para fazer o testamento; vinha o padre para administrar a extrema-unção e dar o viático – o alimento para a via, o caminho. Nos mosteiros e conventos a comunidade reunia-se em torno do moribundo, rezando e aguardando em conjunto o inevitável desfecho.

Leito de morte de Filipe de Commines (detalhe) – Manuscrito francês do século XVI
Foto: DR

Até aos finais do século XVIII / inícios do século XIX, a morte não se escondia a ninguém. Não havia razão para esconder um momento natural da existência humana que representava a passagem da vida terrena, associada ao pecado e ao sofrimento, para a vida eterna, junto de Deus, dos anjos e dos santos, associada à plenitude e à felicidade para sempre. A morte era entendida como uma libertação, determinada por Deus que era servido ao chamar um filho seu à sua divina presença.

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Por isso, as crianças e os jovens participavam desse momento vivido em família, como testemunha o quadro do pintor flamengo Anthony van Dick, da 1.ª metade do século XVII, que aqui reproduzimos. A atmosfera familiar representada pelo artista como testemunho da atitude perante a morte no seu tempo vai ao ponto de incluir, até, um cão que se junta aos donos que estão chorando.

Rubens chorando a esposa – Anthony van Dyck, 1.ª metade séc. XVII
Foto: DR

A administração do viático, na ocasião da extrema-unção, para além de simbolizar o alimento necessário para o caminho até ao Paraíso, representava também o encontro da morte de Cristo, o salvador, presente na hóstia consagrada, com a morte da pessoa que estava iminente. Era um momento reconfortante em que todos sentiam ser chegada a hora de quem tinha de partir, mas que partia em paz com Deus e alimentado para o que lhe faltava percorrer até chegar até ele, onde viveria para sempre.

Os valores liberais e a construção do tabu da morte

As revoluções liberais ocorridas na Europa Ocidental nos finais do século XVIII e inícios do século XIX, na sequência da Revolução Francesa, trouxeram consigo o triunfo dos ideais iluministas e criaram um novo paradigma da vida e da morte.

Em termos de mentalidade, com essas revoluções impuseram-se valores como:
·  o individualismo: um homem, um voto; um homem, uma campa; e um nome; e depois uma fotografia; e muitas vezes uma profissão;
·  a família, perpetuada nos jazigos e nas sepulturas perpétuas;
·  o trabalho, expresso em menções escritas e em representações de instrumentos e ferramentas de trabalho;
·  as preocupações sanitárias: daí a obrigatoriedade da construção dos cemitérios civis, fora das povoações, de preferência em lugares altos e arejados, cercados por muros. Foi o liberalismo, no século XIX, que criou a cidade dos mortos. Ou seja, foi o liberalismo que desfez a plurissecular comunhão entre vivos e mortos e expulsou os mortos do mundo dos vivos;
·  o materialismo: sem deixar de ser cristão, o burguês investe cada vez mais nos bens materiais, na felicidade terrena;
·  o cientismo positivista, ou seja, a ideia de que a ciência será capaz de resolver todos os problemas e conduzir o homem à felicidade. Ora, como a ciência não conseguiu resolver a inevitabilidade da morte, a morte passou de domesticada a escondida e progressivamente foi-se transformando num tabu.

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Os cemitérios liberais, que se tornaram obrigatórios em todo o lado, organizam-se como verdadeiras cidades dos mortos, com as suas avenidas, bairros, habitações, vizinhanças, hierarquias sociais, diferentes gostos, diferentes perspetivas. Como na vida.

Quem faz os cemitérios não são os mortos. São os vivos. E fazem-nos não apenas para os mortos mas também, para não dizer sobretudo, para os vivos. Para os vivos verem.

Os cemitérios constituem, pois, reproduções das sociedades que os produzem. E são verdadeiros repositórios de informação sobre a sociedade dos vivos porque conservam, de forma mais duradoura, o que, pela dinâmica da vida, mais rapidamente desaparece do mundo dos vivos.

Nestes primeiros dias de novembro há muito quem vá ao cemitério. Vai para evocar os familiares ou amigos que lá tem. Por norma, as pessoas entram no espaço da morte apenas por duas razões: para enterrar alguém ou para fazer culto aos mortos, como é o caso agora. Mas há um outro motivo, e forte, para se entrar num cemitério: conhecer a cidade dos mortos, a sua organização, as suas características, a sua beleza (porque, não sei se já reparou, há muita arte nos cemitérios), como forma de melhor entender a cidade dos vivos que a produz e a mantém.

Uma visita a qualquer comunidade – aldeia, vila ou cidade – ficará sempre incompleta se não incluir a visita ao seu cemitério.

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