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“Da baleia azul à ‘baca castanha’”, por Hália Santos

Hoje é incontornável falar de baleias. O assunto é demasiado sério para nos passar ao lado, mas também importa pensar nas coisas com alguma serenidade.

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As azuis, as verdes ou as rosa?…

Vá, não brinques… É importante falar, ao contrário do que dizia uma suposta especialista, num canal de televisão, numa das primeiras vezes que ouvi falar sobre isto. Ela dava um conselho ‘maravilhoso’: se tem filhos adolescentes e eles não lhe falaram no assunto, também não fale, para não lhes suscitar curiosidade!

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Como? Importa-se de repetir?

Isso mesmo. Foi mesmo assim. Como se fugir do assunto fosse a melhor estratégia. É certo que, em muitos casos, os pais e as mães serão as últimas pessoas com quem os adolescentes vão falar sobre estas coisas, sobretudo aqueles que encaixam no perfil que está a ser descrito como sendo o perfil das vítimas deste jogo. Mas é fundamental chegar a estes miúdos… Se não for pela mãe nem pelo pai, que seja de outra forma qualquer.

Sim, por isso mesmo, a pergunta sobre as baleias verdes e rosa não era uma brincadeira. Era mesmo para chegar aos jogos alternativos que mostram aos jovens como ocupar o tempo de forma positiva.

Eu sei, mas agora a conversa é mesmo sobre o jogo da baleia azul e dos miúdos e miúdas que entram nele, sem noção das consequências. Assusta-me muito o facto de saber que ainda existe muita falta de informação.

Não podes ver as coisas assim. Não se trata exatamente de falta de informação. Há vários fatores que têm que ser analisados. Não se trata só de aceitar ‘amizades’ de desconhecidos, coisa que já todos os miúdos e jovens devem saber que não podem fazer.

A minha, de 13 anos, já me disse que está farta de saber, tantos são os nossos conselhos, tantos são os avisos dos professores. Até já foi a palestras sobre o assunto. O problema não é a falta de informação dos miúdos. O problema é a vulnerabilidade de alguns deles, em acreditarem em determinadas coisas sem terem uma zona de conforto onde as possam discutir.

Depois há o fascínio pelo desconhecido e a curiosidade que a seguir se transforma em medo.

Pois, e o que eu acho estranho é que só se vejam as crianças e adolescentes como vítimas. Então os adultos também não entram em coisas desse tipo sem perceberem bem como? Olha os filmes e as fotografias… As chantagens. As ameaças. Acontece aos melhores e, até, aos mais informados. São momentos em que se conjugam determinadas sensações que, juntas, provocam o impensável. E depois vem o medo ou mesmo a vergonha de denunciar.

Tens que reconhecer que num jovem, ainda a formar a sua personalidade e a descobrir que tipo de pessoa é e quer ser, é tudo mais complexo.

Sim, reconheço, mas não os vejo como únicas vítimas. Assim como me parece que jovens sem aparentes problemas ou depressões também possam ter entrado no jogo da baleia azul.

A diferença é que provavelmente conseguiram sair porque tiveram o discernimento de compreender que as ameaças não se concretizariam. Isso é uma capacidade que nem todos têm, como não têm muitos adultos. Parece-me que é mais uma questão de perspicácia do que de experiência de vida.

Poderá ser, mas eu gostaria muito de saber quem são, efetivamente, estes miúdos e miúdas que entraram no jogo. Que tipo de literacia digital têm, que tipo de acesso têm às redes sociais. Não me parece que sejam só jovens com falta de informação e com muito acesso às tecnologias. Acho que acontecer isto a alguém é uma espécie de lotaria pela negativa. Pode acontecer a qualquer um, como ser atropelado. É estar no sítio errado no momento errado a fazer a opção errada. Podia nunca acontecer…E pode acontecer a qualquer um.

Incluindo a quem nem tem telemóvel! Pelos vistos, a jovem de Matosinhos nem telemóvel tinha, usava um de uma amiga.

Vês?… É tudo tão difícil de analisar. Podemos ter pistas que nos indicam que quem entra nestes jogos são sobretudo jovens emocionalmente fragilizados e com fácil acesso às tecnologias, mas não podemos generalizar. Detesto generalizações, embora admita que sejam precisas, nomeadamente nos sinais de alerta que são lançados para evitar mais situações dramáticas.

Difícil é perceber quem poderá andar à procura da tal zona de conforto onde possa expor-se para se livrar de coisas destas.

Por isso é que as mensagens têm que ser claras. O ideal seria que cada criança e jovem tivesse perto de si alguém com quem pudesse falar. Apesar de reconhecer que boas iniciativas como a criação do jogo “Desafio da Baleia Rosa”, para promover as boas ações, ou do “Desafio da Baleia Verde”, para educar os jovens, podem ser um caminho, parece-me que o desejável era mesmo que todos olhássemos para os miúdos e miúdas que conhecemos. Podem não ser os que temos em casa ou na sala de aula. Podem e devem ser os que estão por perto, mas não tão perto que nos digam que estão fartos das nossas conversas.

Estás a falar de uma espécie de rede de responsabilidades, em que todos olhássemos para o lado para ver como chegar aos jovens que estão perto, mas que nos ouvem?

Sim, seria um grande desafio para todos nós: ganhar a confiança desses jovens e sermos o porto de abrigo deles, que não rouba lugar aos pais, mas que permite uma abertura sem condenações imediatas. Vai pensando nisso e no que podes fazer. E, entretanto, para desanuviar, vai ouvir a crónica do Ricardo Araújo Pereira sobre o ‘jogo alternatibo da baca castanha’. Diverte-te, mas não deixes de pensar nas coisas sérias!

 

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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