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Sábado, Maio 8, 2021

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Crónicas da Selva | “Machismo-Feminismo”, por Tiago Salazar

“Pensar é emocionalmente doloroso, bem como fisiologicamente exigente; mais do que qualquer outra coisa – excepto não pensar.”
Jordan Peterson

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Este título não é uma provocação. Ocorreu-me ser adequado para o tema da igualdade de género, ao olhar para o cartaz de um combate de boxe que tenho pendurado na sala onde escrevo. O boxe é parte da minha catarse e aprecio o tempo dos duelos de justas causas, quando as questões de honra se resolviam com os punhos.

Um dos melhores ensaios de boxe foi escrito por uma mulher, a escritora feminista norte-americana Joyce Carol Oates. É um livro honesto e lúcido onde não se encontra a definição do homem como dono do cromossoma da iniquidade bestial.

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O boxe é tido por um desporto masculino, uma crua e bruta demonstração de virilidade à maneira dos antigos gladiadores. Mas não é bem assim. Por exemplo, um dos melhores filmes de boxe, Million Dollar Baby, é a história ficcional de Maggie Fitzgerald (Hillary Swank), uma pugilista que sublima as suas frustrações nos ringues, quando (Clint Eastwood) o mestre treinador lhe aparece. No auge da sua carreira será um golpe baixo de uma mulher que a atirará para a morte.

The Ragging Bull, a biopic de Martin Scorcese sobre o raivoso Jack La Motta, o touro do Bronx, é um filme anátema da desigualdade de género. La Motta (interpretado por Robert de Niro), além de brutal nos ringues, é um tipo de quotidiano conjugal violento e misógino.

Porquê a analogia do boxe na guerra dos sexos? Nos seus íntimos, um machista e uma feminista nos seus ringues a céu aberto, padecem da mesma raiva incontida que o pugilista transporta para o ringue, ainda que ali ganhe a vida a praticar um desporto. Nenhum está certo, apesar de ambos terem as suas razões.

Não sou ensaísta, não sou psicólogo, não sou um teórico. Enquanto romancista ou escritor (de viagens, sobretudo) tenho o privilégio de criar personagens ou basear-me em histórias verídicas, que mais me apaixonam. Acabo sempre por ir parar aos laços de famílias e de como, ao sobreviver com elas, nos podemos entender melhor, homens e mulheres.

Cresci na casa de uma avó viúva, católica, franciscano, numa casa habitada por 4 homens (3 tios e eu). A minha mãe praticou comigo uma educação pela força (e a violência física), tal como nunca se ficou diante do confronto (físico e psicológico) com os irmãos, isto perante os discursos pacifistas da minha avó.

É claro que tudo isto me provocou um cocktail de emoções na relação com as mulheres. Por um lado, uma avó exemplar, a minha primeira professora, pedagoga e fonte de afectos. Por outro, uma mãe ausente ou, quando presente, agressiva. A isto há que juntar a educação sentimental de um pai Casanova, para quem a mulher era (e é) um ser a subordinar aos seus caprichos, porventura por defeito de educação. Foi o que se chama um menino do papá e da mamã, em quem a Guerra Colonial teve um efeito detonador.

Como olho hoje para as mulheres, com este historial, a que vieram a somar-se três casamentos e duas filhas? As maioria das mulheres que conheci são das que correm com lobos. A minha avó, por exemplo, ficou viúva aos 37 anos, com 5 filhos, e no lugar de ceder à dor, enfrentou-a e furou a vida para encontrar trabalho(s) e criar os filhos, chegando ao topo de uma carreira na função pública e nunca parando de esgrimir os seus argumentos de que a paz e a compaixão são os únicos caminhos.

A minha mãe, que foi mãe sem o querer e demasiado jovem, fez a sua redenção tal como eu fiz a minha, perdoando e fazendo do passado uma ferida sarada. É claro que me custou a entregar o coração a um mulher (e por vezes, muitas vezes, o corpo) e muitas vezes tratei de fugir ou trair.

Até ao dia em que conheci a minha primeira editora numa redacção de jornal, a Maria Augusta Silva, um exemplo de grandeza intelectual e espiritual, para quem o estudo do cérebro se tornou o derradeiro trabalho de uma vida de jornalismo de investigação.

Não sei explicar em que parte do cérebro está o rio (oceano) de neurónios que dita a capacidade de olhar e sentir o outro(a) por igual, por um semelhante de género ou cor, sem ceder à tentação do domínio, do escárnio ou ao esquecimento do respeito mútuo e muito. Viver ultrapassa o entendimento, tal como é difícil entender porque o correr dos séculos não nos livra das barbáries.

Tiago Salazar

Jornalista e escritor, nasceu em Lisboa, em 1972. Formou-se em Relações Internacionais e estudou Guionismo e Dramaturgia em Londres. É doutorando no Instituto de Geografia, com uma tese sobre “A Volta ao Mundo”, de Ferreira de Castro. Trabalha como jornalista desde 1991, atualmente como freelancer. É formador de Escrita e Literatura de Viagens. Idealizou, escreveu e apresentou o programa "Endereço Desconhecido", da RTP2. É autor de 14 livros: Viagens Sentimentais (2007), A Casa do Mundo (2008), As Rotas do Sonho (2010), Endereço Desconhecido (2011), Crónica da Selva (2014), Hei-de Amar-te Mais (2013), O Baú Contador de Histórias (2014), Quo Vadis, Salazar? Escritos do Exílio (2015), A Escada de Istambul (2016), O Moturista Acidental (2017), A Orelha Negra (2019), A Fala-Barata (2020), O Magriço (2020) e Cartas do Confinamento (2020). Escreve mensalmente "Crónicas da Selva" no mediotejo.net.

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