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Crónicas da Pandemia | Luís Morgado, relembrando Abrantes durante a quarentena no Canadá

Luís Morgado viveu a infância e a juventude em Abrantes. Estudou Arquitectura em Lisboa, onde passou a residir, até emigrar para o Canadá. É Arquitecto no Atelier “architects Alliance”, em Toronto, Ontário, desde março de 2019. 

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Abrantes, onde vivem os meus pais, as minhas irmãs, os meus tios e muitos dos meus amigos de juventude tornou-se de repente muito mais próxima. 

25 de Março – Recebo uma mensagem no Instagram do Filipe Morais, de Rio de Moinhos, meu amigo e colega na Escola Preparatória D. Miguel de Almeida, que está em Montreal, dizendo-me que tenho aqui um conterrâneo perto de Toronto.

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26 de Março – Uma boa surpresa. Troco mensagens no Facebook com o tal conterrâneo. É o Pedro Velês. Há 45 anos foi meu vizinho na Rua de Angola, filho da minha querida Professora Maria Luis Velês. Está em Cambridge, a poucos Quilómetros de Toronto.

27 de Março – A Professora Helena Bandos, também através do Facebook, troca comigo uma curta, mas calorosa, mensagem. Pergunto pelo filho, o meu amigo Zé Bandos, colega de escola primária e vizinho por uns tempos em Lisboa. Fico com o contacto dele e envio-lhe um email.

28 de Março – Recebo boas notícias do Zé. Ele e a família estão bem, apesar da incerteza que nestes dias paira sobre todos nós.

29 de Março – Domingo chuvoso em Toronto. Depois de falar por Whatsapp com os meus pais e com a minha filha, que estão de boa saúde e com boa disposição, recebo um email do Zé perguntando-me se tenho disponibilidade para contribuir com a minha experiência Canadiana para uma “crónica da pandemia”. 

Abrantes!!! Vêem-me à memória as recordações de tempos de muita liberdade, infinita energia e de uma enorme felicidade. O contraste com o que se passa nestes dias cinzentos não podia ser maior.

Aqui em Toronto, há um mês perguntava a um dos colegas mais velhos se o nosso atelier já tinha um plano para quando o vírus chegasse. A resposta negativa surpreendeu-me um pouco. A aparente indiferença com que a maior parte dos Canadianos olhava a “distante” tragédia que estava a ocorrer na China e em Itália chocava com as preocupações de alguém que como eu seguia diariamente as notícias do que se estava a passar.

O atelier onde tenho a sorte de trabalhar é um pouco o espelho do Canadá. Trabalhamos em equipa 70 pessoas de culturas e nacionalidades muito diversificadas. Apercebi-me que neste microcosmos as minhas interrogações eram acompanhadas principalmente pelos colegas que tinham laços com a Europa, Hong-Kong, China ou Irão. Questionávamo-nos nós como é que o Canadá, um país com tantos emigrantes, vindos de todo o mundo, ainda não estava a ser afectado, em força, pela pandemia, nem estava a dar mostras de inquietação pelo que pudesse vir a acontecer.

Financial District. King Street W, praticamente deserta.

Bastou uma quinta-feira para tudo mudar. O Governo do Ontário ordenou o fecho das escolas. Lembro-me de voltar para casa nessa tarde de 12 de Março e da enorme tensão que se manifestava nos olhares e no silêncio de todos aqueles com que me ia cruzando pelas ruas da cidade. Há uma semana que tinha deixado de utilizar transportes públicos. Passei a fazer uma agradável caminhada de 25 minutos entre casa e trabalho. No dia seguinte o meu percurso ao longo da “King street”, que nas sextas-feiras é inundada pela atmosfera de festa que antecede os fins-de-semana, estava diferente. Em vez dos sorrisos, do burburinho animado e dos ajuntamentos de jovens e de mulheres bonitas, deparei-me com pessoas em marcha apressada, aparência nervosa e sacos de compras cheios de mantimentos. Na segunda feira-seguinte as escolas fechariam e a maior parte das famílias teria que se debater com questões logísticas que não tinham sido sequer equacionadas um dia antes.

No nosso atelier grande parte dos colegas prepararam-se para trabalhar a partir de casa, empacotando cada um o seu computador iMac, numa jornada de “Homeworking” cuja duração era, e é ainda, um mistério para todos. Teriam de compatibilizar o trabalho com o cuidado dos filhos, ou com a atenção a dar aos pais ou a familiares idosos. Alguns, de saúde mais frágil, deveriam tomar medidas extraordinárias de autoprotecção. Entretanto a capacidade de resposta e de adaptação da empresa a este desafio revelou-se notável.

Uma vez que seria importante manter pessoas nas instalações para assegurar o funcionamento básico do atelier, aquelas que fossem consideradas casos de menor risco, e se assim o quisessem, continuariam a trabalhar no segundo andar do número 317 da “Adelaide street West”. Depois de avaliar bem a situação de risco para os outros e para mim, resolvi ficar.

Mensagem à entrada de um Pub: “Estamos abertos e de boa saúde”.

No dia 23 de Março, o Governo ordena o fecho de todas as actividades não consideradas essenciais. Os poucos que como eu restavam nos postos de trabalho prepararam-se também para ir para casa. Mas no dia 24, é publicada pelo Governo a lista de excepções, ou actividades consideradas essenciais. A nossa actividade, e em particular os projectos em que me encontro a trabalhar, projectos de residências de apoio à terceira idade e habitação de custos controlados, são abrangidos. Eu e outros seis colegas continuamos no atelier – somos uma actividade essencial. Em relação à situação normal, cada um de nós dispõe agora de um espaço livre multiplicado por 10. Acabamos a trabalhar numa situação de proximidade muito distante. 

No domingo à tarde, com um tempo chuvoso e triste, estou recolhido em casa, sem ter feito algumas das minhas actividades favoritas. Já há um mês que não vou ver o filme da praxe no TIFF (Toronto International Film Festival), do qual me fiz membro. Não sei quando poderei voltar a ser o cinéfilo de fim-de-semana que me tinha habituado a ser. Os dias de descoberta e exploração da cidade, de máquina fotográfica em punho, também acabaram. Mas no contexto actual nada disso é importante. Aproveito para escrever este texto que vou enviar ao Zé. 

Amanhã será mais um dia em que acabarei por me absorver de tal modo nos projectos que temos em mãos que não terei tempo para pensamentos negativos. Estes inevitavelmente surgirão à hora de almoço, quando consultar as notícias. Os casos confirmados de Coronavírus e de mortes vão teimar em aumentar, numa tragédia verificada por expressões matemáticas e gráficos que nos dizem que o pior ainda está para vir.

Os artigos “de luxo” do momento, numa loja de bairro.

Passarei por uma cidade deserta. Deserta daqueles que lhe dão sentido e que são a sua razão de ser. Só os estaleiros de construção estarão ainda em actividade. Pontualmente verei ainda um ou outro café em tímido regime de “takeaway”. As poucas pessoas que encontrarei, fugirão de mim e eu delas, num gesto em que o afastamento é sinónimo de respeito. Julgo que não durará muito este estranho ritual, o trabalho a partir de casa será o próximo passo. Tudo está já preparado.

Tento adivinhar os pensamentos dos meus colegas que devem coincidir afinal com os dos meus compatriotas em Portugal. Vidas em perigo, apreensão, medo, projectos interrompidos, empregos em risco, um futuro incerto, são sentimentos comuns em todos os países do mundo. Por momentos concluímos que é mais aquilo que nos une, Portugueses, Chineses, Americanos, Russos, Italianos, Iranianos, Canadianos, do que o que nos separa. Era bom que essas conclusões perdurassem para além das pandemias.

A entrada do Hotel Fairmont Royal York, sem a animação habitual.

Os Canadianos, tal como eu, confiam no Governo que rapidamente soube lançar medidas de apoio ao Sistema de Saúde, aos desempregados, aos desprotegidos, às empresas e à economia. Cada um terá agora que levar a sério o seu papel, trabalhando, isolando-se, voluntariando-se, ajudando, e respeitando as directivas dos Estados e das Instituições que gerem a crise.

O que vivemos não é uma guerra, mas é uma luta que exige esforço, disciplina, paciência e fé na bondade e solidariedade do ser humano.

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4 COMENTÁRIOS

  1. Conheço os Pais e a mana Sara, conheço os Tios e principalmente o primo André, não me lembrando de si, o que não surpreende pois estou já estou nos 80. De qualquer forma uma afirmação cheia de clarividência, assertiva e que li com todo gosto. Ao fim e ao cabo, no meio desta tormenta, é sempre agradável saber dos abrantinos que labutam longe da terra e dos seus e que nos transmitem a sua vivência em paragens mais ou menos longínquas. Obrigado. Mande mais notícias sff.
    Ferreira da Costa

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