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Sexta-feira, Dezembro 3, 2021
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Crónicas da Pandemia | Luís Faria é de Torres Novas e aguarda regresso a casa retido num paraíso nas Caraíbas

Nos próximos dias vamos partilhar os olhares de pessoas da nossa região pelo mundo, nestes tempos de pandemia. Hoje a palavra é dada a João Faria, 48 anos, natural de Torres Novas, e a trabalhar desde 2019 em Guadalupe (arquipélago nas Caraíbas), onde ficou retido.

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“Tal como eu, e mais seis colegas da mesma empresa, cerca de mais 100 portugueses trabalham na construção do novo hospital de Guadalupe. Jamais imaginámos, apesar da gravidade da situação atual com o novo coronavírus, vir a estar “prisioneiros” aqui em Guadalupe”, relatou ao mediotejo.net.

“Trabalho desde setembro de 2019 na construção do novo hospital de Guadalupe Francesa, nas Caraíbas e quando a empresa onde trabalho me fez o convite para ir trabalhar para Guadalupe, confesso que não pensei duas vezes. Por um lado o factor financeiro, mais vantajoso, e por outro o facto de poder conhecer um destino de sonho, que de outra forma seria muito difícil de acontecer. Longe de mim imaginar que poderia vir a passar pela situação actual, e que infelizmente assola todo o mundo.

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Tal como eu, e mais seis colegas da mesma empresa, cerca de mais 100 portugueses trabalham na construção do novo hospital de Guadalupe. Jamais imaginámos, apesar da gravidade da situação atual com o novo coronavírus, vir a estar “prisioneiros” aqui em Guadalupe. Desde há duas semanas a esta parte a nossa preocupação era evidente, com o crescimento dos casos de infectados um pouco por todo mundo. Mas por aqui não existiam sinais de preocupação, não se conheciam casos, e tudo decorria normalmente.

Tudo mudou a partir do dia 13 de Março, quando foi conhecido o primeiro caso aqui na ilha. Ficámos todos mais preocupados porque custa, é o primeiro, e sendo uma ilha de muito turismo, com barcos de cruzeiro a chegar com alguma frequência, deixou-me bastante apreensivo.

Até porque há 2/3 semanas atrás eu tinha sido infectado com dengue (para quem não conhece, tem uma taxa de mortalidade muito elevada) e foi uma experiência terrível, uma semana de cama, praticamente sempre a soro. Como o meu sistema imunológico estava enfraquecido com mais receio fiquei e os cuidados começaram a ser maiores.

Guadalupe é um arquipélago francês nas Caraíbas Foto: Luís Faria

Dia para dia os casos iam aumentando. Na segunda-feira passada chegámos à obra às 05h30 da manhã para começar a trabalhar. Estava tudo normal, como somos os primeiros a começar não estranhámos. Mas às 07h00, quando começa a obra a trabalhar em pleno, começou-se a notar muita preocupação nas pessoas, quer nos residentes em Guadalupe, quer nos estrangeiros (portugueses, italianos e outros). Uns trabalhavam, outros não…

O meu chefe mandou-nos para casa até novas ordens. Na terça-feira não trabalhámos, na quarta-feira fomos às 05h30 para trabalhar, mas eram 08h00 e já tínhamos parado. Notava-se bastante nervosismo nas pessoas, principalmente nos portugueses. Acabámos por ir para casa o resto do dia.

Na quinta-feira foi tipo feriado e ninguém trabalhou. Os casos aumentavam cada vez mais. Na sexta-feira que passou já estávamos perto dos 50 casos confirmados, as medidas de prevenção já tinham sido todas revistas e alteradas, a preocupação, o medo a incerteza já pairava no pensamento de todos…

Na terça-feira passada tive, eu e os meus colegas, a oportunidade de ir embora para Portugal. A empresa disse-nos que quem quisesse regressar a Portugal que tiravam o bilhete, mas decidimos ficar e dar a cara pela nossa empresa, para que não nos pudessem acusar de ter abandonado a obra.

Na sexta-feira passada estava marcada uma reunião de esclarecimento com as entidades médicas do hospital de Guadalupe e com o prefeito do governo de Guadalupe, para tentar resolver a situação de uma vez por todas. Como se pode imaginar foi uma reunião muito acesa, com muito nervosismo e ânimos muito exaltados. Por questões económicas e políticas eles não queriam de forma alguma encerrar a obra. Infelizmente estavam a meter os interesses económicos a frente da saúde e da vida das pessoas.

Estamos a falar de uma obra onde trabalham mais de 200 pessoas. Os residentes de Guadalupe vêm de todos os pontos da ilha, com os riscos que daí resultam, e numa obra daquelas não podemos andar afastados uns dos outros, a maioria dos trabalhos são realizados por várias pessoas em conjunto.

A reunião terminou sem qualquer conclusão, a obra continuava aberta, quem queria trabalhar trabalhava, quem não queria trabalhar ficou proibido de entrar nas instalações. Viemos embora para casa mais uma vez sem qualquer certeza…

Nessa tarde foi-nos comunicado que finalmente tinham decidido fechar a obra por tempo indeterminado… Agora colocava-se outro problema… Como vamos sair daqui?

As restrições aéreas estão cada vez mais apertadas, voos poucos ou nenhuns, os que existem com escalas, com as restrições de cada país… Sinceramente estou com medo, estou muito apreensivo, muito nervoso com esta situação…

Estou numa ilha a 6000kms de casa, onde as condições médicas são escassas, os casos de infetados sobem a cada dia que passa. Neste momento temos 56 casos e já temos o hospital saturado, os supermercados começam a não ter capacidade de resposta, existem bens essenciais em falta, o abastecimento é feito de barco, demora muito mais, é todo este contexto de incertezas, de medo e de apreensão que vivo neste momento…

Para finalizar este meu comentário, peço aos portugueses que sejam conscientes, respeitem as regras que foram impostas, e valorizem tudo aquilo que têm neste momento… Porque o futuro é uma incerteza… Quem puder fique em casa…

Um orgulhoso português, João Luís Faria.

*Guadalupe é uma ilha que fica nas Caraíbas, um local turístico de excelência, território Francês. Tem cerca de 40 000 habitantes, numa área total de 1628 km2, e tem uma densidade habitacional elevada, com cerca de 250 habitantes por km2.

**relato no dia 22 de março a partir de Guadalupe

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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