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Domingo, Agosto 1, 2021

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CRÓNICA: Uma certa forma de contar de estórias, entre a ficção e a realidade

Xerazade contava histórias ao rei Shahriar mas nunca as terminava. Assim garantia que a sua vida seria poupada no dia seguinte. Esta personagem do clássico livro “As Mil e Uma Noites” inspirou o realizador Miguel Gomes e levou-o a conceber um filme que cruza a ficção com a realidade. As histórias das arábias vão-se entrelaçando com as estórias de um Portugal real, vividas entre agosto de 2013 e julho de 2014. São os anos da crise passados para o cinema, num registo que tanto emociona como nos deita à terra, para sentirmos a realidade o mais possível. O resultado começou esta semana a ser exibido em Abrantes.

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Ao longo de um ano, uma equipa de três jornalistas foi produzindo reportagens sobre assuntos que, por diferentes razões, marcavam a atualidade. Maria José Oliveira, João de Almeida Dias e Rita Ferreira andaram pelo país a recolher informação, a falar com protagonistas de estórias à portuguesa para depois as escrever e divulgar no site www.as1001noites.com . Quem não se lembra do caso do Manuel “Palito” ou daquele episódio tão caracteristicamente português de alguém que levou a tribunal o galo da vizinha porque, supostamente, cantava fora de horas e não deixava ninguém dormir?

Nem todas as estórias jornalísticas foram aproveitadas por Miguel Gomes para o seu filme. Mas o resultado final (dividido em três volumes: O Inquieto; O Desolado; O Encantado) resulta de uma necessidade imperiosa de contar estórias e histórias. É o tal cruzamento entre a realidade e a ficção, brilhantemente trabalhado por um realizador que passa, ele próprio, para o outro lado das câmaras, aparecendo entre os atores e as figuras reais do país que retrata. Não é uma abordagem frequente, esta forma de fazer cinema. Mas é um documento visual que cria laços com quem o vê, seja pela proximidade dos temas, seja pela capacidade de fantasiar. Ou, ainda, pela facilidade com que desperta sentimentos.

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Presente nos mais prestigiados festivais de cinema internacionais, este filme é também marcante pela forma como recorre ao jornalismo. E embora não tenha sido fácil – porque se tratava de uma equipa de jornalistas que abordava as pessoas sem, de facto, estar a trabalhar para um órgão de comunicação social – o certo é que produziram reportagens de elevado nível que poderiam ser publicadas em qualquer jornal ou revista de referência. Mas não: foram publicadas no site das 1001 noites, com a principal intenção de servirem de suporte ao genial filme de Miguel Gomes.

E é aqui que entra mais um elemento marcante desta nova abordagem cinematográfica: um eventual novo modelo de comunicação, assente na realidade, mas que vive de braços dados com a ficção. Num momento em que a produção de conteúdos jornalísticos experimenta novos caminhos, esta solução pode muito bem ser uma nova forma de enquadrar o trabalho de profissionais que têm um olhar especialmente treinado para realidades sociais, políticas e económicas. A técnica de contar estórias, envolvida por uma criatividade evidente, pode reconciliar o público em geral, cansado de relatos negativos, com a sua natural necessidade de ouvir estórias da vida.

Próximas exibições de “As Mil e Uma Noites” em Abrantes, no Sr. Chiado:

– 21 de outubro, “O Desolado”, seguido de debate com a equipa de jornalistas

– 28 de outubro, “O Encantado”

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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