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Terça-feira, Novembro 30, 2021

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Crónica | Quando o vento traz o cheiro e o fumo do Inferno

Poucos meses depois, o Inferno voltou a subir à Terra. A frase já soa a cliché, mas nunca foi tão verdadeira e desta vez, apesar de estar mais longe, o cheiro e o fumo dos incêndios que mergulharam o país num caos desde o passado fim-de-semana invadiram o Médio Tejo, relembrando que o “Monstro” voltou e anda à solta.

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Chegam com o vento, aliado do “Mal” que continua sem caras, nem nomes e, num puro ato de egoísmo, agradecemos que a nuvem densa que cobre a região desde o final da tarde não traga também o pânico e a dor daqueles que perderam tudo.

Pouco tempo passado sobre o drama de Pedrogão, voltamos a sentir que, a meros quilómetros de distância, aqui tão perto, se trava novamente uma luta desigual, com reservas de energia que começam a escassear, como a água, num período de seca extrema que nenhuma edição do Borda d’Água costumava prever.

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Uma batalha que esgotou os meios nacionais existentes e traz memórias de outras travadas ao longo do verão, misturadas com cinzas que terão impactos ambientais quando a ansiada chuva cumprir a promessa de regressar.

No ar paira também o medo do regresso das sirenes constantes nos quartéis de bombeiros ao final da tarde, sinónimo de que o negrume da noite volta a ser engolido pelo laranja infernal que transforma o verde em cinza e os sonhos em escombros.

Um receio reafirmado ao longo das últimas horas nas redes sociais, pelas dúvidas que se multiplicam nos murais dos habitantes desta região. “Onde é fogo?”, “De onde vem o fumo?”. À exceção dos concelhos de Tomar e da Sertã, o Inferno não regressou em força ao Médio Tejo neste mês de outubro. No outono, o Monstro optou pelas zonas mais a Norte. Talvez porque, por aqui, pouca área florestal restou para arder.

Esta noite, a nuvem de fumo que cobre os concelhos de Vila Nova da Barquinha, Constância e Abrantes, por exemplo, vem desde o pinhal de Leiria, que ardeu quase por completo.

Perante um estado de calamidade nacional que já o era antes de ser oficializado, ficam as perguntas. Como foi possível chegar-se a este ponto num país dito de “primeiro mundo” e cujas caraterísticas territoriais exigem um planeamento integrado?

Afinal, quantos discursos valem as casas e os negócios construídos durante anos e destruídos em minutos? Quantos estudos, fundos financeiros, interesses económicos e inércia vale uma vida humana? Aliás, mais de cem?

Diz-se que não é tempo de palavras, nem de demissões, mas sim de ação. Não devia esta ação ser proativa em vez de reativa? Não se devia construir em vez de reconstruir? É tempo de ação, sim, mas quem está no terreno neste momento são bombeiros, populações, militares e autarcas locais a tentar “apagar fogos” que tiveram ignição, na maioria dos casos, pela mão humana.

E por “mão humana” entenda-se não apenas aquela que acende o fósforo…

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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