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Quarta-feira, Julho 28, 2021

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CRÓNICA: O Diabo e as 500 Cruzes no Capim

Quando tinha três anos e meio, estava com os meus pais a passar férias nas Caldas da Rainha, e tenho três recordações dessas férias – dormir numa tenda, andar de barco a remos num local com água esverdeada e estar de mão dada com a minha mãe (grávida da minha irmã), parados de um lado da estrada à espera que não passassem carros para atravessar, e de ver do outro lado a primeira pessoa com um tom de pele muito escuro. Pela primeira vez via alguém que não tinha “a cor de pele” que ainda hoje se ensina na escola primária. E, extasiado com o facto, disse: “Mãe, quero que o meu mano tenha aquela cor.”

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Aparentemente fiquei fascinado com aquela figura, que devia ser o Fernando que ia comprar um pacote de leite ao supermercado, mas que para mim era um mundo novo. Verdade seja dita que a minha irmã nasceu com um sinal bem castanho desde o pulso até ao cotovelo. Por vezes ainda penso que fui mesmo eu e o meu desejo… mas pronto, como em todas as coisas na vida, não consegui acabar o trabalho. Ainda que a minha irmanzinha hoje tenha um sinal único, graças aos desejos picassianos do irmão.

Nunca tive grande noção dos impactos da “nossa” valente história até ter ouvido um homem que numa praça gritava que era Angolano e que assim que a polícia o apanhasse o iria deportar porque estava “ilegal” em Portugal, mas que todos os diamantes angolanos “ilegais” que eram apanhados em Portugal jamais seriam deportados, terminando afirmando que as pedras valiam mais que os serem humanos. Este grito marcou-me, teria talvez os meus 16 anos, e foi aí comecei a compreender melhor o que o “nosso” rasto era mais vasto que um par de estórias do professor de História do 6º ano.

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Sempre fui uma pessoa com ideias fortes, com uma personalidade (ainda cheia de dúvidas até aos dias correntes) marcada pela diferença de ser diferente, começando por quando usava botas ortopédicas, onde com a “normal” naturalidade era frequentemente gozado ou remetido para o lado porque as minhas botas podiam estragar a bola de futebol, onde não podia fazer as mesmas coisas que os outros meninos e meninas porque tinha de aceitar a minha “não normalidade”. E isso levou-me a ter de sobreviver por outras formas menos normais… mas essas serão outras estórias mais.

Por exemplo, a Expo 98 foi um marco importante na minha vida, porque depois de convites da escola, dos meus pais e amigos para ir, fiz aí o meu protesto formal contra a festa que celebrava a opressão de muitos povos, a violação e a chacina em cores de arraiais de matanças e decidi, por tudo isso, não ir. Não queria festejar ou compactuar com a “descobertas” de quem não estaria certamente de perna cruzada à espera que chegasse uma caravela com umas dúzias de madiês armados até aos dentes e exclamar à sua chegada: Obrigadinho, já andava para aqui meio perdido mas felizmente vocês descobriram-me.

Dou imenso valor ao primeiro passo, porque é sempre o mais difícil, aos iluminados que decidiram estudar, inventar e criar coisas novas, ideias novas, artes e ciências novas e que depois da teoria toda se fizeram ao desconhecido, se fizeram à arte e ao engenho de quererem ser mais. Mas por mais que tenham feito ou por mais onde tenham chegado, nunca poderei suavizar os factos da escravatura, da violência racial, das violações, da ocupação de terras e da submissão religiosa.

Foi um caminho interessante entender o que era o racismo e finalmente começar a compreender como é que a quantidade de melanina tinha a ver com a quantidade de discriminação que essa pessoa sofria.

Vesti sempre essa camisola, vesti sempre esse sonho de tentar explicar aos infinitos da paciência que raça há uma, a humana.. o resto são estórias antropocêntricas para justificar comportamentos imbecis, etnocentrismos parvos, devaneios de pseudo-superioridade e outras “ciências tais”.

Quando decidi meter-me nesta vida da cooperação internacional, do trabalho humanitário, bati sempre o pé para não ir para uma das ex-colónias portuguesas, porque não queria entrar no mundo da existencialismo tropical da “ajuda”, da caridadezinha, das selfies com os meninos pretinhos, ou da venda de uma imagem do neo-colonialismo.

Felizmente não tenho família directa que tenha ido à Guerra Colonial, por isso não teria problemas em ir para um destes países lusófonos, mas fui relutante e recusei algumas oportunidades. Até ao dia que, finalmente, entendi que poderia mesmo fazer a diferença e não ia em nenhum projecto para ir “ajudar” (como já entenderam uma das palavras que mais detesto quando tentam definir o que faço). Então os Médicos del Mundo de Espanha e os Médecins du Monde de França selecionaram-me para ir para o interior de Angola – N’dalatando, Kwanza Norte – trabalhar em Saúde Materna e Infantil, assumindo dois postos em simultâneo, Coordenador de Incidência Política e Desenvolvimento Comunitário.

Assim que escrevi no Facebook que ia para N’dalatando, tive logo imensos comentários de apoio e de contentamento por ir para mais uma aventura, outros a desejarem-me sorte porque sabiam que desta vez era Portugal que me empurrava para fora (porque não consegui trabalho, por mais que tenha procurado), outros pensavam que ia para uma missão suicida (há pessoal que cada vez que vou para um país novo, ficam sempre com a ideia que vou falecer na selva ou assim e escrevem sempre como se fosse a última mensagem) mas outros logo me acalmaram com a sua experiência de braço tatuado com a Mãe África. Um conhecido disse-me: “Bruno, tu não vais para N’dalatando, tu vais para a Vila Salazar (nome do tempo colonial), aquilo é boa terra, tens é de ter cuidado com os pretos, mas especialmente cuidado é com as pretas” e pisca-me o olho com uma cumplicidade como se partilhássemos a mesma camarata la do quartel.

E esta é a introdução perfeita para a fotografia que partilho convosco hoje. Duas mulheres, rodeadas de capim numa terra vermelha molhada pela época das chuvas na região norte do Kwanza Norte, entre o município de Ambaca e a estrada que nos levava ao município vizinho do Puri, mas numa zona muito remota quase na fronteira com a República Democrática do Congo. Partilho que ia eu com o nosso motorista João – Johnny como ele preferia ser chamado, e depois de uma chuvada intensa, passámos por bastante gente que estava a regressar da lavra (horta) e decidi dar boleia na parte de traz da pick-up. As pessoas iam pedindo para sair até que restaram esta 2 mulheres, como uma tinha um bebé e a outra era uma mulher mais velha (todas as mulheres que já foram mães são “naturais” parteiras tradicionais) então esta era a minha dica para poder saber um pouco mais da vida delas e entender melhor a problemática da mortalidade materno-infantil, que tão importante era para depois poder desenhar os planos de intervenção o mais ajustados possível à realidade e que de facto fossem uma solução para fazermos parte da solução e não parte da inutilidade de tantos programas de “ajuda”.

Peço ao Johnny para parar o carro para eu poder ir para o pé delas, subo lá para trás e começo a falar, apresento-me, digo que sou dos Médicos do Mundo, que estava num programa de redução da mortalidade materno-infantil, que iria trabalhar com as parteiras tradicionais e enquanto vou falando, a senhora mais velha diz: pare o carro, caiu uma coisa. Descem as duas do carro, deixando os chinelos-de-enfiar-o-dedo, os alguidares com todos os produtos hortícolas, os instrumentos para trabalhar a terra – um pequeno sacho e uma catana e começam a andar as duas, digo que as vou ajudar e exclamam: Não! Não!! Ainda parvo com tão linda paisagem, um cheiro a terra molhada, um calor tropical intenso e com uma imagem fabulosa na subjectiva da minha máquina fotográfica, tiro esta foto lindíssima, profunda, de uma calma aparente única. Mas segundos depois elas começam a correr, a mais velha grita para a mais nova que tem o bebé às costas: Corre!!! Numa aflição que quase me parava o coração. Disse para fazermos marcha atrás e quanto mais nos aproximávamos mais elas gritavam e corriam. Pedi para o Johnny parar o carro e esperei um pouco. Pedi para irmos à aldeia mais próxima, porque não podia simplesmente ir-me embora, deixar toda aquela aflição. Primeiro porque não seria ético da minha parte, segundo porque comportamentalmente eu tinha entender o que se tinha acabado de passar.

Assim que chegámos, vimos que a aldeia estava meio em alvoroço e de imediato pedi para falar com o Soba (líder comunitário) e ele juntamente com vários outros homens da comunidade vieram ter comigo e me perguntaram o que é que vocês fizeram às nossas mulheres? Juntamente com o Johnny, explicámos quem éramos, o que estávamos ali a fazer e todos os nossos propósitos. Os homens então pediram para chamar as mulheres que tinham fugido de mim como se tivessem visto o Diabo e então lá lhe devolvi todos os seus pertences e o Soba explicou-lhes que não éramos gente má nem lhe queríamos fazer mal.

Depois das senhoras irem já mais calmas e com alguns sorrisos meio nervosos à sua vida, perguntei ao Soba o porquê daquela reacção. Então ele explicou-me que eu era o primeiro Português a passar ali desde 1974, porque os últimos a passar eram soldados Portugueses e alguns Colonos que antes de irem embora massacraram aquela aldeia, violando várias mulheres e depois de as matarem colocaram as suas cabeças em estacas.

Esta é uma cruz que carregaremos sempre. Ouvir uma estória destas olhos-nos-olhos, sentir o medo daquelas mulheres, ouvir os gritos de aflição e entender o que a imagem de uma pessoa com “cor-de-pele” criou em todo aquele universo, faz-me reforçar a ideia que somos mesmo um povo com cor de burro quando fugimos.

Mas porque tudo isto foi demasiadamente forte para mim, decidi guardar esta fotografia com palavras que pudessem de alguma forma acalmar aquelas mulheres e fazerem as pazes comigo.

carrego-te nas paisagens,

agito o corpo de cá para lá como as searas em ventos e sem abrigos..

e corro para ti, no medo ou no apego que já não sei mais..

porque só tu és terra,

porque só tu és pegada de barro do meu estreitar

e na forma, na tez e na festa

carrego-te nas paisagens que só nós sabemos desfrutar.

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

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