Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Sábado, Julho 24, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

CRÓNICA: No Fabuloso Lado B

Sou de Tramagal, a terra do meu conceptual Além Tejo, onde vive também praticamente toda a minha família. Tenho 36 anos, uma linda namorada e companheira de vida – Tânia, que vive comigo – e um cão (ou ele têm-me a mim). Infelizmente, só posso ver o Habibi quando estou em Portugal.

- Publicidade -

Comecei o meu trabalho internacional em 2004 e, 20 e tal países de quatro continentes depois, estou agora a viver em Freetown, capital da Serra Leoa, no Oeste de África. A minha vida pessoal confunde-se com o meu trabalho, e o meu trabalho faz a minha estranha forma de vida. Adoro aprender, sou viciado em aprender coisas novas, detesto dominar o gueto (como me diziam os putos com quem trabalhava em Chelas), e quando sinto que já estou confortável, prefiro mudar de realidade – e isso, muitas das vezes, leva-me a ir para um outro país.

Gosto de jazz, rock alternativo, músicas do mundo, ópera enquanto estudo ou me sento numa vistosa varanda, adoro séries inteligentes, não tenho tv há mais de 5 anos e sinto-me bastante informado. Adoro escrever, estudar e surpreender-me. Sou um acérrimo defensor da dignidade humana e isso reflecte-se na minha personalidade e na forma como as pessoas me veem. Não faço favores nem gosto que mos façam. Nas últimas comemorações do 10 de Junho fui armado Cavaleiro da Ordem na Liberdade pelo Presidente da República. Não sei o que isso quer dizer, mas sei a honra de todos os dias me deitar com a consciência tranquila pelo que fiz e levantar-me ainda com mais vontade de fazer ainda mais.

- Publicidade -

O meu nome é Bruno. Até aqui poderia ser um nome normal… de actor de telenovela, ou de um qualquer cantor de discotecas, mas não na Serra Leoa. Aqui este nome só tem um significado. Aqui se ouvissem este nome de imediato já estariam a rir bastante. Eu explico-vos esta a minha sina. A cada reunião que vou e me apresento há um risinho meio envergonhado. Neste momento já estou habituado, mas a primeira vez foi muito estranho e de imediato perguntei o porquê. Carinhosamente explicaram-me que Bruno era o nome de um Chimpanzé que foi salvo (comprado) a caçadores que lhe mataram os pais. Bruno foi a causa de um casal que entendeu criar um santuário de chimpanzés vítimas da violência humana – Tacugama Park – e que alguns anos depois, juntamente com um grupo de outros chimpanzés, fugiram para a liberdade da selva. Segundo rezam as estórias, Bruno matou uma pessoa que o tentou prender novamente quando este só queria regressar à selva, à sua casa. Por isso o meu nome provoca sempre um riso meio tímido. Mas agora adianto-me à risada e logo depois de dizer que me chamo Bruno, digo sempre: Sim sim, voltei – e a risada fica ainda maior. O gelo quebra-se da forma mais criativa e há um reconhecimento dos Serra Leoneses que ficam a entender qual a minha atitude em relação à vida e ao meu trabalho, ou seja, fundo-me na história e cultura do quotidiano dos países onde vivo e não sou considerado como mais um pedante estrangeiro que trabalha para uma qualquer agência das Nações Unidas.
Nestas crónicas contarei alguns episódios da minha vida de trabalhador humanitário e começarei hoje pelo país onde estou, a Serra Leoa, mas prometo contar estórias do Médio Oriente, de outras Áfricas, da Europa ou mesmo da América Central.

Apresento-vos o serviço de Pediatria do Hospital de Rokupa e a Aminata, a enfermeira que podem ver na fotografia. Com cuidado, ela revê, sob a nossa supervisão, a medicação para casos de crianças VIH positivo. Este hospital era um hospital geral, mas com a presença do Ébola tornou-se apenas um hospital para Quarentena e testes de Ébola. Depois, pouco a pouco, foi-se abrindo a outros serviços, contando neste momento com o departamento de VIH / Sida e Tuberculose. Sou sincero, foi estranho e complexo ver homens e mulheres em quarentena de Ébola com quem pude à distância trocar algumas mensagens de alento (o possível que o nó na garganta permitiu). Interessante foi também o facto de estar na sala de consulta de VIH a fazer supervisão de procedimentos e entrar alguém a pedir para fazer o teste do Ébola. Até me arrepiei ao responder que “esse teste é na outra ala”, ao mesmo tempo que tentava não respirar muito.

Aqui, continuamos a viver diariamente com o Ébola e, naturalmente, tenta-se contornar a devastação que ele deixou. O país perdeu imenso pessoal médico, enfermeiros, auxiliares, etc., e continuamos ainda com algumas pessoas em quarentena. Mas em princípio nenhuma delas terá o vírus (ao mesmo tempo que leem, batam também vocês na madeira 3 vezes). Foi uma catástrofe enorme. Neste momento as pessoas já começam a voltar às suas vidas quase normais… ainda que a política do “no touch” (não toque) continue em vigor, tal como lavar as mãos com soluções de cloro ou com gel anti-bacteriano e a medição da febre à entrada de todas as instituições públicas e privadas. A precaução deve continuar a ser a melhor forma de prevenção até podermos ser um país Ebola free – faltam 41 dias sem que um novo caso apareça. (podem bater novamente!)

Estou na Serra Leoa como Chefe de Missão de uma organização médica internacional, a Solthis. O nosso trabalho é o da não substituição, ou seja, jamais colocaremos médicos nossos ou enfermeiras a fazer o trabalho de um profissional de saúde Serra Leonês. O nosso staff médico e farmacêutico é composto por especialistas de topo que todos os dias dão formação e mentoring ao staff nacional. Na Serra Leoa saem apenas 20 novos médicos e médicas da Universidade de Medicina, mas nenhum deles com especialidade. Ainda não existem cursos de especialidade na Serra Leoa. Além de todo este suporte in loco, promovemos formação técnica e especializada de alguns médicos noutros países (há duas semanas enviámos por duas semanas um médico que coordena um serviço de clínicas VIH num hospital de Freetown para um curso de formação científica e especializada em Paris. Além das questões médicas, estamos na linha da frente no processo de reestruturação do plano sanitário municipal e provincial. Cheguei há pouco tempo mas já tenho críticas profundas e apontadas naturalmente a algumas das agências das Nações Unidas, que continuam a ver os países através de números de relatórios, de uma matemática demasiadamente complexa para o simples que é saber de facto o que se passa no terreno e, com uma visão de processo, trabalhar com os municípios e províncias na identificação e aplicação medidas ou na realização de projectos de optimização dos recursos, materiais, humanos e de formação.

De todas as formas, estamos aqui com a máxima sustentabilidade. Promovemos uma interessante não-dependência de staff internacional ocidental. A minha equipa tem uma Médica Pediatra do Uganda, um Especialista Farmacêutico do Ruanda, uma Médica Nicaraguense, o Staff Nacional é maioritário e o plano é que em breve possamos ter o maior número de Serra Leoneses e Leonesas em cargos de gestão.

Um forte Abraço desde a linda e intensa Serra Leoa.

Até à próxima crónica, poderão acompanhar as minhas aventuras diárias, seguindo-me no Facebook.

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here