Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Sábado, Julho 24, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

No Fabuloso Lado B, por Bruno Neto

Parteiras da Fé

- Publicidade -

Parteira, é toda e qualquer mulher que já tenha dado à luz – Dito Africano

Catarina Mendes de Almeida Lima, 80 anos, Agricultora e Parteira Tradicional desde que se lembra.

- Publicidade -

Mulher impressionante e linda, que todos os dias ainda ajuda em todos os partos na sua comunidade do Catulungungo no Kwanza Norte – Angola.

Esta mulher trabalha sem receber um único cêntimo, sem receber apoios de estado algum. A Sra Catarina trabalha em condições de higiene básicas e básico significa os tantos nadas que o nada tem. Não tem materiais de ajuda ao parto, não tem formação técnica de identificação de sinais de risco, não tem seguro de trabalho ou qualquer tipo de pensão, está exposta a qualquer a contrair VIH simplesmente porque não pode receber luvas de latex e material de apoio ao parto. Tudo porque as nações unidas, acham que o conhecimento e a experiência dela nada contam. (explicarei mais à frente os porquês)

Conheci-a em 2012 numa das minhas visitas ao terreno quando trabalhava num projecto da redução da mortalidade materna e infantil.

Grande parte do meu trabalho era percorrer as 56 aldeias incluídas no nosso projecto, analisar a situação e depois propor ajudas à melhoria do sistema de saúde – isso incluía a importante melhoria da comunicação entre o sistema de saúde formal (Posto de saúde mais próximo, enfermeiros e enfermeiras, staff médico e não médico, etc) e o sistema de saúde não formal (parteiras tradicionais, curandeiros, etc).

No fim da identificação de todos os factores, ficou claro que fazia falta, sobretudo, um reconhecimento ao papel e à importância das parteiras tradicionais, já que eram elas que faziam practicamente todos os partos nas zonas isoladas e com distâncias superiores a 5 quilómetros do posto de saúde mais próximo, ou porque simplesmente o enfermeiro ou enfermeira eram ainda apenas estudantes e não tinham a capacidade, confiança e a experiência para fazer um parto.

Depois de escrito e finalizado o relatório, este foi enviado para a sede da organização não-governamental onde trabalhava. Aqui começa a não lógica de tudo o que não é senso comum. Este tipo de organizações é obrigada a seguir os padrões e linhas de saúde da OMS – Organização Mundial de Saúde das nações unidas. Esta determina que todo o apoio dado até aqui às parteiras tradicionais deve ser de imediato parado e o único apoio dado deverá ser o de reencaminhar as mulheres grávidas para os serviços de saúde mais próximos. Aqui começa o problema.

Dando o exemplo de Angola, mas poderia falar de muitos outros países Africanos. Depois de 500 anos de um colonialismo complexo e bárbaro em demasiados sentidos, depois de 30 anos de uma guerra civil interna que arrasou o resto deste país, e só com 10 anos de paz, seria impossível ter de um dia para o outro novas unidades de saúde e sobretudo enfermeiros e médicos formados e já disponíveis para poder irem para todos estas unidades sanitárias, logo, as parteiras tradicionais deveriam continuar a ter a confiança e o apoio para que nestes partos não morra nem a mamã nem a criança. Mas não.

Organizações como as Nações Unidas continuam a ser corpos políticos que acabam por ser o reflexo daqueles que são os processos “democráticos” mundiais. Ou seja, lentos, muito pouco participativos, dependentes de demasiados lobbies, jogos de poder e de uma burocracia de invejar a qualquer departamento satirizado pelos Gato Fedorento.

Ao termos uma Organização Mundial de Saúde não capaz de entender que levará tempo até que haja estruturas e profissionais prontos para atender as reais necessidades da população, a não entender que o seu papel deve ser o de facilitador e não o de impositor, e a não entender que ainda hoje tantas Catarinas continuam a ser fundamentais para que milhões de mulheres continuem a ter partos assistidos e que nem elas nem as crianças que nascem acabem por morrer no processo.

Foi através das suas estórias, foi através de ter estado em contacto com a realidade diária, de ter percorrido milhares de quilómetros entre todas aquelas comunidades, ter visitado vários hospitais, clínicas, postos de saúde, ter falado com centenas de enfermeiros, ter organizado várias sessões na escola médica de enfermagem e de ter vivenciado e experienciado tantas sensações in loco, que fez com que eu pudesse entender um pouco melhor como a OMS acaba por contribuir activamente para que milhares de crianças continuem a morrer em África, que milhares de mulheres acabem por morrer na agonia de um momento que deveria ser o da felicidade.

O mais bonito momento do ciclo da vida, a mais penosa dor do milagre do sentido da vida.

Houve duas estórias ou momentos que me marcaram e me empurraram para a humildade de nunca parar de lutar pelas causas em que acredito, mesmo que politicamente não sejam as mais aceites, mas sinceramente não quero saber, porque será tão difícil silenciarem-me.

Um delas, foi o resultados de imensas visitas a Maternidades e fazer parte presente do cenário da peri-mortalidade. Estive com mães que tinham acabado de perder os seus filhos durante o parto, estive com avós que perderam as suas filhas e os bebés durante o parto, e estive junto a uma mulher que tinha perdido o bebé e durante o difícil parto tinha demasiado sangue e a hemorragia acabaria por ser irreversível, que apesar de estar “estável” e a comer, ela não sabia, mas sabia eu, que no máximo iria sobreviver um a dois dias. No máximo.

É penoso assistir impotente ao curso da morte, é monstruosa a ideia que um dia a luz se apaga e o choro e as nénias entoadas por coros de mulheres, acabam por ecoar infinitamente nos ouvidos da incoerência e da emoção humana.

Felizmente também presenciei milagres.

Um dos dias das nossas viagens para visitar os posto de saúde mais longínquos, ia mais o nosso motorista Sampaio Filho numa estrada de terra batida, numa altura em que as chuvas comprovavam que era o seu tempo, e encontramos na berma da estrada um homem com uma moto e uma mulher aos berros deitada na ribanceira.

Corremos para ver do que se tratava e esta mulher ia com um dos enfermeiros que acompanhávamos na sua mota pessoal a caminho do hospital em emergência porque algo parecia estar mal com a gravidez daquela mulher. O tempo tinha esgotado e mesmo ali, debaixo de uma chuva torrencial, debaixo de uma pressão imensa, conseguimos ajudar o enfermeiro a fazer o parto e a que a estória tivesse um final feliz (confirmado via telefone uns dias depois e comprovado com uma visita um par de meses depois).

O que denominamos de progresso, de desenvolvimento, tem de ser feito ao passo calmo da mudança social e comportamental que é necessária para que de facto esse processo seja natural e sustentável. Na história sempre tivemos tentativas de acelerar processos que talvez no fim nem fossem mesmo a solução. Vejamos quem quis levar a democracia através de bombas, ou impor governos ou religiões em processos artificiais, e vemos no que isso deu.

A Catarina, no meio de todas as outras grandes mulheres e parteiras com quem trabalhei, representam para mim uma das poucas profissões em que o seu amor, fé, entrega e voluntarismo valem tudo. São heroínas, são voluntárias e têm paixão na luta diária pela sobrevivência de tantas mamãs e tantas crianças e acreditam que este trabalho é tudo menos um trabalho. Explicaram-me que é a sua forma de participar na sua comunidade.

Era o dever da cidadania, diziam-me. São estas mulheres que terão de trabalhar até ao último dia das suas vidas e que muitas vezes continuam invisíveis nesta engrenagem poluída de egos capitalizáveis.

Mas estamos cá nós para contar e comprovar a sua estória, a sua luta e tudo o que representam – a cidadania, a participação activa nas nossas comunidades e o longo caminho que todos e todas temos ainda de fazer (de braço dado) para ter um mundo mais justo com gente que sabe o que é viver com dignidade.

Um Abraço para elas e um abraço para a cumplicidade que vamos criando através desta crónica.

Até à próxima terça, poderão acompanhar as minhas aventuras diárias, seguindo-me no Facebook e comentando e deixando as vossas ideias no meu perfil.

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here