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Domingo, Julho 25, 2021

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CRÓNICA: No Fabuloso Lado B

Na América Central descobri o gosto pela Apanha da Azeitona
Começamos com um ligeiro revirar de olhos, coçar um pouco na cabeça para depois indagarmos já em voz alta: Azeitonas na América Central? Não pode!?!

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Pois não…

Não se preocupem, a manipulação genética ainda não chegou lá e ainda não estamos todos tontos – ainda que depois dos resultados das eleições, não sei, não sei bem.

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Mas sim, no final de 2006 tinha acabado o meu contrato de trabalho com o Conselho Nacional de Juventude e estava a procurar um novo desafio de trabalho, mas enquanto não aparecia o tal e especial desafio, continuava a trabalhar para pagar as contas e para aproveitar e aprender coisas novas. Tinha mandado o meu currículo para mil sítios diferentes (Zara, Cinemas do El Corte Inglês, Decathlon, sei lá.. para todos os tipos de trabalhos, o que interessava era arranjar um trabalho e não queria mesmo não ficar a fazer nada), e quando já começava a desesperar, porque nem respostas me davam, lá me responderam de uma empresa de promoção de Actividades Extra Curriculares e pediram-me para ir a uma entrevista. Quando cheguei soube que tinha sido pré-selecionado para dar aulas de música. A minha primeira questão foi: Música? Mas eu não sei nada de música. Logo a senhora me disse: “Mas você tem aqui no seu CV que teve uma banda de música durante 9 anos e fez um programa de rádio durante seis…”. Eu respondi com uma sobrancelha mais levantada que outra: e?

A Senhora, simpática disse-me: não temos professores de música e pelo que vejo no seu CV parece que você se adapta com facilidade a trabalhos novos, por isso tenho a certeza que os meninos irão gostar muito da sua criatividade. Estava sem trabalho e ela até tinha razão – eu até me adapto bem a quase tudo, e então aceitei o desafio. Estudei imenso, preparei com imenso detalhe e profissionalismo as aulas de música para crianças do 1º ciclo, e com a máxima inspiração possível até acho que não fiquei mal, pedagogicamente falando. Foram 3 meses de grande aprendizagem (para os miúdos e miúdas e para mim).

Entretanto fui informado que num concurso público a que me tinha candidatado, e depois de diversas entrevistas na Câmara de Abrantes, tinha ficado em 1º lugar num programa de estágios na minha área de trabalho. Mas, ao mesmo tempo, recebia um telefonema a informar-me que tinha sido selecionado para ir para as Honduras com a Oikos – Cooperação e Desenvolvimento para ser o Representante do País e coordenar os diversos projectos.

Apesar de toda a família e gente próxima pensar que naturalmente iria ficar na terra, o desejo era mesmo o de aprender mais, aprender muito mais, e para isso teria de sair da zona de conforto. O não fácil deixa-nos marcas que enrijecem a pele e nos preparam para novas lutas. Deixei o sentimental recado à Câmara de Abrantes que retornaria um dia mais forte e que naquele momento queria continuar a expandir o sonho de querer ser e aprender mais.

Nas Honduras iria viver na capital – Tegucigalpa – mas teria de ir todas as semanas ao Golfo de Fonseca, que é um Golfo no Oceano Pacífico partilhado pelas Honduras, El Salvador a Norte e Nicarágua a Sul. Eu estaria responsável por diversos projectos – construção de um Porto Embarcadouro com uma estrada de acesso com quase 2 km, apoiar uma cooperativa de produtores de mel, trabalhar na estruturação de uma cooperativa de mulheres concheiras, com pescadores que entre o lançar e o recolher das redes nos ajudavam na reflorestação das zonas de Manguezal, zonas estas que eram o habitat natural de reprodução de camarões mas que devido à qualidade excepcional da madeira, era alvo de tremendos crimes eco(nada)lógicos e, estes pescadores tal como diversas famílias produtoras artesanais de camarões nos ajudavam nesta importante tarefa de reflorestar e manter o habitat o mais protegido possível. Finalmente, e para chegar à alegoria da Agricultura e da apanha da azeitona nesta crónica, vou contar pequenos episódios com valor imensurável de tudo o que aprendi com as famílias de agricultores das altas montanhas de Nacaome.

Numa das visitas de acompanhamento aos projectos, numa das comunidades onde tínhamos acabado de instalar sistemas de regadio (gota a gota) com as comunidades campesinas, encontrámos mais que dados e informações para o projecto, encontrámos um dos fenómenos mais bonitos e de enorme significado – encontrámos água. A foto que podemos ver na crónica foi tirada a um rapaz que pertencia a uma das famílias beneficiadas por este projecto, estava na pausa depois de ter escavado juntamente com o pai e 2 irmãos um buraco para tentar encontrar água. Toda a família estava a ajudar (claro que fui dar uma mãozinha) e descobrimos finalmente água (com bom caudal) a apenas 1 metro e meio de profundidade. Foi aqui, nas Montanhas de Nacaome no Golfo de Fonseca, que vi pela primeira vez água a emergir do chão naturalmente, sem intervenção de máquinas ou bombas. Foi aqui também que me liguei definitivamente e humildemente à terra e aos outros. Depois de ter passado muitas horas com estas famílias, onde não há rede telefónica, não há eletricidade e onde as coisas simples, como o partilhar da comida, as noites passadas ao som da natureza ou as longas conversas sobre a religião natural que nos ampara a vida são valorizadas. Como aquele momento do aparecimento de água, que causou um choro de alegria entre abraços e beijos daquele pai na cabeça dos seus filhos. Coisas que jamais irei esquecer.

Recebi uma das lições de vida que mudou por completo os meus conceitos de educação num destes dias passados e partilhados com os campesinos e suas famílias. Toda a gente participava de alguma forma, os mais pequenos aprendiam agricultura e a partir dos 10 ou 11 anos já tinham as tuas próprias hortas. Tudo fazia parte do processo de educação e ligação à terra mãe. Todos estes putos tinham no sangue o cunho da sustentabilidade e entendiam bem a representatividade e a simbologia o ciclo da vida através da agricultura. Nem todas as crianças das famílias podiam ir à escola, porque não havia dinheiro suficiente, então estudavam em ciclos – o 1º, 3º e 5º iam num ano, e no ano seguinte ia o 2º e o 4º. Os que não estudavam na escola ficavam a ajudar nas tarefas da agricultura e quando os irmãos ou irmãs chegavam da escola, partilhavam sempre o que tinham aprendido, explicando a matéria do dia aos outros. Aos filhos que não podiam ir à escola durante o dia, os pais mesmo sem o saber, ensinavam filosofia humana profunda aos filhos, ensinavam que a vida era como a agricultura e o seu ciclo, que a semente era o indivíduo, que tinha de ser nutrido, que tinha de estar protegido dos factores externos mas que ao mesmo tempo era fundamental estar exposto aos factores externos porque só assim criaria resistências para poder crescer e rodar todas as fases do ciclo, até que essa planta pudesse dar ao mundo novas outras plantas. Esta noção de vida, de vivência, de ensino e de profundidade eram todas elas novas para mim.

Tínhamos valores de avaliação claros e muito objectivos para este projecto agrícola, mas os planos de sustentabilidade acabaram por vir com o desenrolar do projecto. Com este projecto decidiu-se em comunidade que com os ganhos extra (após a instalação dos sistemas de regadio e das bombas de água) uma parte desses extras ficassem disponíveis num fundo para arranjo de tubos e bombas de água, e outra parte para que mais um filho ou filha pudessem estudar. Foi um acordo de “cavalheiros” e por incrível que possa parecer, depois de só um ciclo de produção, quase todas as famílias cumpriram o acordado. Mas também ficou assente que os valores transmitidos sobre a agricultura e todas as aprendizagens da vida através da agricultura não sairiam prejudicadas. E assim foi.

Um dos principais formadores agrícolas destas famílias era um pastor religioso que, ao mesmo tempo, era dos homens mais respeitados do país em termos de agricultura biológica. Este homem vivia com a mulher e filhos numa casa muito isolada, num dos vales das montanhas. Nas oportunidades que tive de estar com ele e com a sua família, fui convidado a passar algumas noites com eles, já que as viagens para chegar e regressar eram bem longas e complicadas. Numa delas, o Sr. Reyes pegou num torrão de terra e desfê-lo na minha mão e disse: “Bruno, nós somos todos feitos da mesma terra.. e a esta mesma terra vamos voltar. Somos minerais, somos elementos naturais, que fazem tanto sentido quando juntos.. mas qual o porquê de complicarmos esta vida? Porque queremos ter o mesmo que os outros? Falar a mesma língua que os outros? Ter o mesmo dinheiro que os outros… e passar uma vida toda, escravizados a viver a vida que não é nossa… e no fim, somos todos estes torrões que em menos de nada, nos desfazemos e nem tempo temos de entender o tempo que perdemos em não sermos nós, a cuidar da família, a aprender e a ter a dignidade de deixar o mundo um pouco melhor.”

Esta experiência mudou-me muito. Costumo dizer que foi ali naquelas montanhas que comecei a entrar em paz comigo mesmo e com o mundo.. que fiz as pazes com a minha existência e me aceitei como sou.

Depois de regressar a Portugal a primeira coisa que fiz foi ir à horta dos meus avós e agradecer-lhes todos os valores que me tinham ensinado (de forma algo diferente mas tão igual). Contei-lhes sobre o Sr. Reyes e da educação das crianças nas montanhas longínquas de Nacaome, mas que, ao mesmo tempo, a partir dali, daquela terra da horta do Caldeirão, entendi que toda a terra é igual, que toda a humanidade que toca a terra, que a trabalha, tem os mesmos valores humanos e existenciais: trabalhar para que o ciclo seja mais rico e mais proveitoso, e dessa forma, dar sentido à humanidade e à importância da vida.

Depois metemos mãos à obra e fomos apanhar azeitona. Nunca mais voltei a ser o mesmo, nunca mais quis perder uma apanha da azeitona com os meus pais e meus avós, nunca mais quis perder o sentido da vida, nunca mais quis deixar de tocar na terra com as minhas mãos. E da mesma forma assim o ensinarei aos meus filhos e filhas.

Um forte abraço.

Até à próxima crónica, poderão acompanhar as minhas aventuras diárias, seguindo-me no Facebook.

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

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