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Domingo, Julho 25, 2021

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Trincanela

CRÓNICA: ENTRE MARIDO E MULHER, TODOS(AS) TEMOS DE METER A COLHER

Frequentemente circulam pelas redes sociais notícias sobre mulheres vítimas de violência doméstica que preferem os agressores aos filhos, obrigando a medidas protetoras em relação às crianças, colocando-as à guarda do estado. Para quem trabalha nesta área isto não é novidade.

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A dependência destas mulheres face aos companheiros que as agridem são muitas vezes o motivo desta preferência. Falamos de dependência emocional mas também instrumental e financeira. Muitas não têm forma de subsistir por si e acabam por se sujeitar aos maus tratos.

Por outro lado, estão tão fragilizadas que acreditam em tudo o que o agressor lhes diz e tomam-nas como verdade absoluta. É portanto normal que uma mulher que viveu toda a vida a ouvir dizer que “não vale nada”, que “sem ele não será ninguém”, que a “mata se a vir com outra pessoa”, que lhe “vai tirar os filhos e destruir toda a sua vida”, se sujeite aos maus tratos, acreditando que não tem outra opção. Que não existe outra saída. Por esse motivo, mais vale proteger os filhos, acreditando que podem ter uma vida melhor, longe das agressões a que assistem todos os dias, mesmo que isso implique estarem longe de si.

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É verdade que também existem mulheres que preferem verdadeiramente os companheiros aos filhos. Na minha prática profissional já ouvi coisas que nos causam arrepios e nos tiram o sono. Situações há em que as mulheres acusam as próprias filhas que foram abusadas sexualmente pelos seus companheiros, de o terem consentido propositadamente para “lho roubarem”.

Quem trabalha nesta área tem de ter a capacidade de não julgar as decisões das vítimas e continuar ali para a próxima vez que voltar a acontecer uma agressão. É sabido que a violência doméstica acontece em ciclos, o chamado Ciclo da Violência Doméstica que se divide em três fases.

A fase do aumento da tensão: as tensões acumuladas no quotidiano, as ofensas, os insultos, e as ameaças tecidas pelo(a) agressor que criam na vítima uma sensação de perigo eminente. A expetativa de que vai acontecer uma agressão a qualquer momento.

A fase da agressão: em que o (a) agressor(a) maltrata física e emocionalmente a vítima. Este tipo de mau trato tende a escalar na sua frequência e intensidade. E por fim, a fase da lua-de-mel: o “arrependimento”, a promessa de que” não volta a acontecer”, o pedido de desculpa, mas também em alguns casos a pressão no fazer acreditar à vítima que tudo só aconteceu porque ela o provocou, mas que não se repetirá. De salientar que este ciclo se repete vezes e vezes sem conta. Ocorrendo cada vez mais um espaço de tempo mais curto entre as fases, levando a agressões cada vez mais violentas.

É portanto necessário compreender tudo isto e todos os fatores associados ao fenómeno da violência doméstica, para podermos compreender as decisões tomadas ou a falta de opções das vítimas. Não raras vezes ouvimos pessoas a desacreditarem as vítimas pelo facto de o agressor ser uma pessoa “socialmente correta”. Pois é. Essa é uma característica dos agressores. Serem “sedutores” e estarem socialmente muito bem integrados. Fazem com que as vitimas sejam desacreditadas e criticadas. Por vezes até acusadas de “terem o que merecem”.

Tudo isto mudou. Hoje, “entre marido e mulher, todos temos de meter a colher”, protegendo as vítimas, sejam mulheres, homens ou crianças.

Ninguém tem de estar sujeito(a) a agressões sejam elas físicas ou psicológicas. O agressor também tem opção. A de não maltratar.

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

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