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“Educar à palmada. Sim ou não? Definitivamente, não!”, por Vânia Grácio

Outro dia uma mãe ficou muito admirada por eu lhe dizer que não se pode bater nas crianças. “Nem quando ela faz asneira? Não lhe posso dar uma palmada para a reprender?”, perguntou-me. Não me surpreendeu a admiração da senhora, até porque há hábitos culturais muito enraizados na nossa sociedade, e este é um deles.

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Ainda sou do tempo em que a minha professora primária nos dava reguadas e “carolos” quando não fazíamos bem uma tarefa ou quando nos portávamos menos bem. Os tempos mudaram. Hoje em dia, nem a professora, nem os pais podem “educar” com palmadas ou carolos.

No meu círculo de amigos e familiar, este assunto vem muitas vezes a discussão. Porque todos nós levámos uns “açoites” e estamos cá. “Não vejo que tenha resultado para toda a gente”, costumo brincar… Mas no fundo é mesmo isso.

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O que costumo pedir às pessoas (adultas) é que se coloquem no papel dos mais pequenos. Se eu estou a aprender a viver em sociedade, a relacionar-me com os outros, a cumprir regras e a saber os meus limites, baterem-me vai ajudar em quê? Se eu bater no meu filho ou na minha filha porque ele ou ela não estão a fazer o que quero ou o que eu lhes disse para fazer, que mensagem lhe estou a passar? Se alguém chegar ao pé de mim no trabalho, e por não concordar com o que eu penso ou faço, me bater o que vou sentir? É simples. Basta fazer este exercício.

É bem verdade que as crianças são desafiadoras, que testam limites até não poderem mais, que os pais e as mães andam cansados, stressados e quando chegam a casa tudo o que não querem é ter mais um desafio pela frente. “Não quero a sopa” e espalha tudo pelo chão, ou “não quero tomar banho” e foge pela casa meio despido(a), ou ainda faz uma cena no supermercado. Há ainda os desafios dos pré adolescentes/ adolescentes como faltar às aulas, esconder uma negativa num teste, dizer palavrões na sala de aula, fumar ou consumir álcool às escondidas. Façamos o exercício que costumo propor. Pare para pensar e acalmar-se. Respire fundo e depois pergunte a si mesmo(a): Bater vai resolver o quê?

Quando batemos numa criança o que lhe estamos a transmitir é que não a respeitamos acima de tudo. Por outro lado estamos a ensinar-lhe que quando o outro não faz o que queremos ou dizemos podemos bater-lhe. O que vamos ganhar com isso? Adultos que vão replicar estes comportamentos e que vão lidar com a frustração com agressividade.

Até ao seculo XVIII as crianças eram vistas como “adultos em miniatura” e eram exploradas a todos os níveis. Só há relativamente pouco tempo, nomeadamente a década de 80 as coisas começaram a mudar em Portugal. A criança já é vista como um sujeito de direito e tem de ser respeitada. Vejamos que só há muitos poucos anos se começou a chamar às próprias comissões de proteção dos direitos das crianças, comissão de proteção de crianças e jovens.

Até 1999 existiam as Comissões de Proteção de Menores. Eram tratadas as crianças como seres “menores”. Hoje os profissionais da área têm o cuidado de corrigir o termo e de respeitar as crianças e os jovens. Até há pouco tempo, também era legítimo o marido bater na mulher. Hoje isso já não é assim (ou não deveria ser). Pelo menos existe legislação que protege quem seja agredido(a). Com as crianças é igual. Desde 2007 numa revisão do Código Penal Português, bater nas crianças passou a ser crime.

“Então como fazemos?”, perguntam-me. As crianças precisam de regras, limites e amor. Muito amor, afeto e atenção. Se tiverem tudo isto, não precisarão de lhes bater para que elas saibam o que é certo ou não fazerem. Expliquem às vossas crianças o que é correto ser feito e quais as consequências se elas não cumprirem. Seja firme e cumpra o que combinaram. Mas seja claro. Combinem regras e consequências que sejam compreendidas pela criança. Tenha atenção à sua idade e desenvolvimento. Aplique o que acordaram e não ceda. Vai custar nas primeiras vezes. Podem chorar, espernear, mas vai resultar. As vezes seguintes já vai perceber que o que a mãe ou o pai dizem é para valer. Ah, e não vale o pai dizer uma coisa e a mãe permitir o contrário, ou vice-versa. Conversem os dois e sejam firmes em conjunto. Neste aspeto não seja condescendente. Seja firme. Isto serve também para os avós.

Outra coisa que temos muito o hábito de fazer é dizer às nossas crianças é o fantástico “porta-te bem”. Mas o que é isso? Temos de explicar o que queremos dizer com isto. Só assim elas compreenderão o comportamento que é esperado delas. Mas também não esqueça, quando a criança cumprir o que combinaram, não julgue “só fez o que era sua obrigação”. Recompense-a, elogie o seu comportamento. Mas seja claro(a). Explique o que fez bem.

É ainda muito importante que se retenha um aspeto fundamental: não existe uma igualdade entre pais e filhos, e por isso não os devemos tratar como iguais. É mau para ambas as partes. A hierarquia pais/mães-filhos(as) deve estar bem estabelecida, não pela questão da afirmação do poder para nós, mas antes por causa deles – esta definição de hierarquia dá-lhes segurança.

Aceita este desafio? Experimente fazer isto e depois partilhe comigo se resultou.

 

 

 

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

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