Crónica dos dias que passam | As nuvens negras que pairam sobre o arco-íris

"Journey from Above", óleo sobre tela de Paul Bennet

Seis meses. Um semestre. Meio ano. Podem ser várias as medidas para nomear o tempo que passou sobre o dia em que foi confirmado o primeiro caso de covid-19 em Portugal, mas talvez nenhuma tenha o peso suficiente para descrever a carga destes dias estranhos e disformes, que não se encaixam em nenhum calendário previamente conhecido. Há quem diga que, independentemente do que vier a acontecer nos próximos meses, a nossa memória registará sempre um tempo a.C. e outro d.C.: antes e depois da covid.

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Foi a 2 de março que a Direção-Geral de Saúde (DGS) anunciou, numa das conferências de imprensa que viriam a entrar na rotina dos nossos atemorizados dias, que duas pessoas no Porto estavam infetadas com o novo coronavírus, o SARS-CoV-2, identificado na China em dezembro de 2019. A partir daí o tempo ganhou um outro compasso, parecendo por vezes demasiado acelerado para que pudéssemos acompanhar todas as transformações do mundo à nossa volta, por outras parecendo soluçar, vagaroso e sem ânimo, com a maioria da população fechada em casa, em “quarentena”.

De repente, fomos forçados a ter outra consciência nos pequenos gestos que fazíamos diariamente, quase sem pensar. É preciso lavar mesmo as mãos: Esfrega, esfrega, esfrega, todos os dedos, a palma e as costas da mão, pelo menos durante o tempo de cantar o “parabéns a você”, com odes à água corrente e ao velhinho sabão azul e branco. Seguiram-se semanas de bê-á-bá, porque aparentemente há coisas que têm mesmo de ser ditas e reditas (e, ainda assim, há quem não compreenda). Não se deve tossir ou espirrar para cima dos outros, cuspir para o chão também não é coisa que se faça. Espirrar é para o cotovelo, e os lenços de papel usados têm de ir logo para o lixo (nada de ficarem a hibernar nos bolsos).

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Há que manter distâncias, um metro e meio, dois metros, mais, mais, mais… Vamos lá a ver se finalmente algumas pessoas percebem que respirar em cima do pescoço do cliente da frente junto à caixa do supermercado não é agradável e que não, a fila não anda mais depressa só porque estamos mais juntinhos.

A 12 de março fecharam as escolas. Quem tem filhos pequenos passou a fazer ainda mais ginástica para conciliar trabalho e família. Duplos mortais carpados, logo pela manhã. Na mesma sala tornou-se vulgar ter em simultâneo reuniões de escritório no Teams, aulas do ensino básico no Zoom e bebés fixados nos telemóveis, com um cão aos pinotes a suplicar por uma ida à rua. E quem é que vai ao supermercado?
Voos cancelados. Casamentos desmarcados. Férias adiadas para outras núpcias. A restauração só funciona em take away e torna-se impossível beber um café decente fora de casa – mal empregadas bicas, que perdem todo o interesse mal caem num copo de plástico.

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Centenas de milhares de trabalhadores viram-se forçados a criar escritórios em casa (nem que seja na cozinha). Meio milhão ficou em lay off. Dezenas de milhares foram despedidos. Dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional revelam que havia em julho 407.302 inscritos nos centros de emprego, uma subida de 37% face ao mesmo mês de 2019.

Doentes ficaram sem visitas nos hospitais, bebés foram separados à nascença das mães por “precaução”, crianças retiradas às famílias somaram à tristeza o castigo de ficarem em isolamento durante 14 dias na instituição que as devia “acolher”.

Os mais velhos foram sobrevivendo ainda mais sozinhos, mais tristes, sem o abraço de uma filha, o carinho de um neto, meses a fio. E tantos deles senis, sem perceberem porque ninguém os ia visitar. Muitos acabaram por morrer sentindo que os haviam abandonado. Outros foram de facto abandonados – e essa mágoa ficará tatuada à flor da nossa pele coletiva, para sempre.

Ainda em março houve uma corrida aos supermercados, e o papel higiénico esgotou. É um caso de estudo que intriga investigadores de renome mundial. Talvez um dia algum perito numa universidade em Helsínquia ou Tóquio consiga descobrir o que motivou tamanha urgência em tantos milhares de famílias. Ainda assim, duvido que consigamos perceber.

O álcool gel desapareceu das prateleiras durante semanas. Máscaras, nem vê-las. Ou então, apareciam a preços exorbitantes, como se de um luxo – e não de uma necessidade – se tratasse. Mas nesta altura ainda não devíamos usar todos máscaras cirúrgicas, diziam-nos a cada nova conferência de imprensa da DGS. As que se fazem em casa também não protegem, repetiam. A orientação só mudou quase dois meses depois, quando os stocks de álcool e máscaras estavam a ser repostos nas farmácias e as licenças para várias fábricas produzirem máscaras de pano “certificadas” foram emitidas. (Dois mais dois nem sempre são quatro, mas convenhamos que coincidências como esta facilitam muito a vida aos criadores das teorias da conspiração.)

O que faz falta é uma vacina, pois claro. Como aconteceu com a Gripe A, em 2009. A pandemia provocada pelo vírus H1N1 acabou assim, mas na verdade muito poucos a tomaram. Portugal encomendou 6 milhões de doses à GlaxoSmithKline. Acabou por conseguir reduzir mais tarde a compra para “apenas” dois milhões de doses, por 15 milhões de euros, mas só 700 mil pessoas acabaram por ser inoculadas. Um grupo significativo de médicos e enfermeiros recusaram de imediato a administração, considerando que não era segura ou eficaz, o que influenciou a opinião pública. Não sendo de toma obrigatória, a campanha ficou “aquém das expectativas”, como viria a admitir a DGS, no ano seguinte. Já estavam pagas, paciência. A vida continua. O prazo de validade expirava em agosto de 2011. As vacinas acabaram no lixo.

Mas não se perde tudo quando se ganha uma lição, certo? A ver vamos.

Em meados de agosto, e antes que se fizesse tarde, a Comissão Europeia tratou de escolher seis das centenas de vacinas que estão em desenvolvimento a nível mundial “como aquelas onde valia a pena investir”, nas palavras do primeiro-ministro António Costa, que aprovou um investimento português de 20 milhões de euros na compra da nova vacina que ainda não existe mas todos garantem que vai existir. Portugal terá assim direito a 6,9 milhões de doses. Um dia.

Há quem defenda que, desta vez, a vacinação deveria ser obrigatória. Não creio que seja possível rasgar assim a Constituição, mas já agora, se tal acontecer, que seja para todas as vacinas do Plano Nacional de Vacinação. É que há crianças a morrer novamente de sarampo em Portugal – doença que já tínhamos erradicado – porque não é possível legalmente obrigar os pais a vacinarem os seus filhos, e o efeito de imunidade de grupo na Europa começou a perder-se. Ou seja, os meus filhos, vacinados contra o sarampo, podem ter à mesma sarampo, porque a vontade de uma minoria (apoiada sobretudo em falsos pressupostos, sem evidência científica) se está a sobrepor ao interesse global, numa matéria de saúde pública.

E agora? E daqui para a frente? Sairemos desta pandemia mais solidários ou mais egoístas? Mais conscientes da interdependência de todos os povos, de todos os seres vivos, de todo o planeta? Conseguiremos sonhar outros futuros ou vamos seguir amedrontados e ordeiros, como formigas num carreiro, e enfiar-nos num buraco, esperando petrificados que o Inverno acabe depressa?

Como nos lembra José Saramago no seu “Ensaio sobre a Cegueira” – uma obra com incríveis paralelismos com a pandemia que agora vivemos –, é na doença, e não na saúde, que revelamos o melhor e o pior de nós. “Quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos.” 

Passaram seis meses desde que o nosso mundo mudou. Foi ontem e foi há uma eternidade. É impossível ter certezas sobre o que nos reservam os próximos tempos, mas as previsões dos impactos económicos e sociais desta pandemia dizem-nos de forma clara que é urgente inventar novos planos, encontrar outras formas de agir (e reagir) e descobrir forças para reorganizar a sociedade de alto a baixo.

Em agosto o Reino Unido entrou oficialmente na sua maior recessão de sempre, desde que existem registos. Repito: de sempre. No segundo trimestre deste ano o Produto Interno Bruto (PIB) britânico caiu 20,4%. Em Portugal, o INE confirmou que a nossa economia “encolheu” 14,1% no segundo trimestre, em relação ao anterior, o que representa a redução mais brusca desde, pelo menos, 1977. Em comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, a diminuição é ainda mais acentuada: 16,5%.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o PIB dos 36 países-membros caiu 9,8% no segundo trimestre de 2020, face ao arranque do ano. Em comparação, diga-se que em 2009, no pico da maior crise financeira mundial dos nossos tempos, verificou-se uma queda de “apenas” 2,3%. Se olharmos somente para as sete principais economias do mundo (G7), à queda de 20,4% no Reino Unido segue-se a França, com um decréscimo de 13,8%, logo secundada pelas descidas de 12,4% em Itália, 12% no Canadá, 9,7% na Alemanha, 9,5% nos EUA e 7,8% no Japão.

São números que nos devem preocupar porque, inevitavelmente, vão ter consequências nas nossas carteiras, nas nossas vidas. Mas não nos devem paralisar, nem fazer-nos sentir impotentes. Há muito a fazer por cada um de nós, nos nossos pequenos mundos, a começar pela preparação psicológica para enfrentar este próximo semestre.

O mundo do trabalho está diferente, a escola vai ser muito diferente, a forma como vamos ajudar os mais velhos e os mais fragilizados terá de ser diferente. No início da pandemia houve quem cantasse às janelas e pintasse arco-íris, agora será imperativo traçar novos rumos e visualizar outras cores no horizonte, para lá das nuvens negras que pairam sobre as nossas cabeças. Porque como escreveu Saramago “a cegueira também é isto: viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”.

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Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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