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Sexta-feira, Janeiro 21, 2022
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“Crónica de uma tragédia anunciada”, por Elsa Ribeiro Gonçalves

Quando meses depois regresso a Macieira, Sertã, local onde estive em reportagem no quente verão de 2017. Há um nó na garganta que teima em não se desfazer. O nó de quem não pode fazer mais do que relatar uma tragédia anunciada pela queda de cabos telefónicos, vergastados pelas chamas quentes, que sem dó nem piedade consumiram milhares de hectares.

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Por aqui ainda são muitos os resquícios do fogo. Árvores caídas e que fazem lembrar esqueletos, ramos em valetas por limpar, placas de terras queimadas que nos levam a tocar à campainha de estranhos a pedir orientações num labirinto pintado em tons de negro e cinza. É aqui que nos deparamos com a localidade Vale do Inferno, Troviscal. A ironia não é suficiente para nos fazer sorrir quando sabemos que houve alguém, aqui bem perto, que caminhou dois quilómetros a pé, noite escura, para pedir ajuda para a esposa que encontrou inanimada. Não tinha telefone. E a ajuda chegou tarde demais. Tinha perdido a companheira de uma vida.

“Eu não tive culpa, eu não fui culpado”, havia de repetir em lágrimas aos vizinhos mais tarde, contaram-me. O nó na garganta a apertar. Não, senhor Ângelo. O senhor não teve culpa. Que culpa tem de viver numa aldeia onde demoram meses a repor os cabos telefónicos? Que culpa tem de fazer parte da estatística dos esquecidos e deixados ao abandono porque só contam um ou dois votos nas urnas?

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Que culpa pode ter o senhor quando agarrou na bengala e andou duas horas a pé noite fria, sem iluminação pública, guiando-se apenas pela berma da valeta, até chegar a casa do vizinho mais próximo para pedir ajuda? Um caminho sinuoso, de subidas e descidas, que mal posso perceber como o conseguiu fazer sem cair e redobrar a tragédia no Vale da Ameixoeira, uma recôndita localidade que nem alcatrão merece em parte do pavimento.

Triste, simplesmente triste, num País onde parecem existir portugueses de primeira e de segunda.

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Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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