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Terça-feira, Agosto 3, 2021

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CRÓNICA: Apontamento sobre uma ida às urnas

Sigo pela estrada de Fátima debaixo de chuva. Grupos de peregrinos caminham contra a intempérie, prevendo-se a chegada ao Santuário por volta da hora de almoço. É uma rotina conhecida, a qualquer dia do ano, de maio a outubro, no concelho de Ourém. Caminho no sentido inverso, de carro, até à junta de freguesia, para mais uma eleição decisiva para o futuro do país.

Há quem esteja farto de tanta eleição e já não esteja disposto a dar-se a tão fastidioso trabalho. Dois garotos, que completaram 18 anos há poucos meses, disseram-me logo pela manhã que não tinham o mínimo interesse em ir experimentar aquele marco da chegada à idade adulta. Uma colega na casa dos 40 anos apontou que tinha que percorrer 30 quilómetros para ir votar à sua junta e, sinceramente, não lhe apetecia. Ainda outra, na casa dos 30, refilava que não estava para se levantar cedo a um domingo para ir votar. Parece-me que vou sozinha…

A descer rumo a Ourém vou pensando nestes dados. Pensando nestes jovens eleitores que não se apercebem da carga simbólica que representa o voto. Não sei o que pensar dos mais velhos, sobretudo das mulheres, esquecidas que há pouco mais de 40 anos a sua intenção, ou não, de votar era considerada completamente irrelevante!

Pois eu vou votar! Nem que seja pelas sufragistas de há um século, exploradas nas fábricas e no lar, vítimas de quase tudo, até do analfabetismo. Vou votar pelas operárias queimadas vivas numa fábrica americana nos inícios do século XX por exigirem melhores condições de trabalho. Vou votar pela Simone de Beauvoir e pelas burkas que castram o direito à liberdade. E vou votar pelo 25 de Abril – aquele, bem velhinho! – que alguns dizem que não serviu para nada. Enfim, vou votar. E já que venho de Fátima, que seja o Deus quiser…

Chego à junta de freguesia de Atouguia perto do meio-dia. Deve estar a acabar a missa dominical. Confesso que esperava fila. À porta do edifício autárquico, reconheço o mesmo grupo conversador que ali encontrei nas últimas eleições. Há quatro anos, nas legislativas, votei e fui para a praia. Hoje palpita-me que vou para o sofá embrulhar-me num cobertor.

Entro e percorro o corredor vazio. Um aviso informa-me que os  números depois do 2 mil e tantos votam na Fila 2. Passam idosos e pais de família, crianças entusiasmadas com a novidade do dia. Passam adolescentes, desconfiados, por certo com poucas certezas daquilo que vão fazer. Entro na sala e não vejo filas. A malta nas mesas de voto tem mais ou menos a minha idade. Riem e recebem o meu cartão de eleitor com empenho e dedicação profissional, naquela boa disposição de quem faz um trabalho que sente ser, de alguma forma, útil e respeitado.

Pego no boletim de voto e dirijo-me a um dos compartimentos fechados, com uma sensação de dejá vu. Tantos nomes… De onde saiu tanta gente?! Que partidos são aqueles?… Porque não ouvíamos mais todos estes nomes nos debates, nas rádios e televisões?

O Agir recorda-me a senhora que posou nua nas revistas. Ali está o partido do polémico Marinho e Pinto. E o partido dos Animais. Olha os Monárquicos!… O Bloco… Aquele outro do Araújo Pereira… E mais uns quantos…

Hesito. Tenho a mania de ler tudo antes de assinar. O dia de reflexão, ou melhor, as duas semanas de campanha pouco me elucidaram sobre que escolha fazer num dia que, independentemente do resultado, ficará sempre na História. Deverei votar em branco? Muita gente durante o dia de hoje deverá ver-se perante a mesma questão. Mas não sou muito de ir a brancos. Lá vai!

Dobro em quatro o boletim e vou apressadamente metê-lo na urna. Lembro-me que tinha enviado os meus dados para o tal número de SMS que indicava onde se deveria votar e que me haviam avisado de problemas com o meu registo. Completei todo o processo facilmente.

Ao sair percebo que já passa do meio-dia. A missa já deve ter terminado há muito. Mas continuo sem ver filas…

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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