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Domingo, Agosto 1, 2021

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CRÍTICA: “O BIGODES”, por Armando Fernandes

Deixou de ser António, passou a Senhor Bigodes, porque o adorno capilar – lustrado num preto luminoso – a evidenciar o contraste tremendo com o preto de dó, mais se acentua à medida que o sorriso de harmónio se alarga e alegra quem o observa.

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Em momento ulterior escreverei novas observações referentes a bigodes, nesta crónica pretendo esboçar os fragmentos substantivos de uma família que desce de Mação até à povoação de Ortiga na esperança de domar as agudezas das urtigas da vida. O fragmento principal era (e foi) reabilitar um espaço restaurativo encerrado, enterrado, no sepulcro burocrático judicial dado a conhecer através de editais evocativos dos colocados no Texas, Arizona e outros estados do Oeste americano, assim informam livros e filmes de cowboys.

E o Senhor Bigodes, e a mulher, Senhora Dona Joaquina, Mestra na arte dos produtos colocados nas assadeiras, nos tachos, nas panelas, nas frigideiras e tutti-quanti, dão-nos sápidos comeres a perdurarem na memória do gosto de quem os saboreia. Os dois filhos, Hélder e Nuno, também se agregaram à ingente tarefa, um contínuo agrupar dos diversos fragmentos derivados do tronco – o antigo restaurante – feito em estilhas, dar-lhe consistência de modo impor-se como referência nacional na exaltação do receituário local e regional de um território transfronteiriço no mosaico da divisão provincial, o Ribatejo, a Beira Baixa e o Alto Alentejo.

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Se as urtigas podem e devem originar sugestivo receituário que me escuso a enunciar dado o apetite dos plagiadores, se o Tejo vai parindo lampreias, sáveis, bogas, menos enguias, mais fataças ou muges que só por si justificam o desvio rodoviário até ao restaurante, no que tange a carnes, sejam as mimosas, sejam as rompantes e as processadas, semeiam positivas dúvidas no acto da escolha, por essa razão incumbi, mais uma vez, ao Sr. Bigodes a tarefa de proceder à selecção.

E ele escolheu? Façam favor de anotar: finas fatias de presunto, rodelas de enchidos levemente passadas pela frigideira, fritada de peixe, tassalho de carne trazida e estacionada no lume em espeto de pau de loureiro. A fritura respeitava o cânone – dourada, seca e estaladiça – a carne desenvolveu sucos gulosos por via da candura constante do lume brando. Fina sericaia coroou o almoço recheado de memórias, adubado com referências a personalidades e instituições, em cozedura prolongada, num registo salpicado com gotas de alacridade. Bebeu-se tinto ainda da produção do secular argentário francês. Perguntem ao Senhor Bigodes.

Ao fim de dois anos de árduo e contínuo trabalho os fragmentos principiam a revelar uniformidade fidelizadora de clientes, o caminho faz-se caminhando, poetou o poeta, nesta casa de comeres o apuro dos alimentos tem de gerar apuro a valer o sacrifício de insónias agrestes, de desdobramento na execução operativa, do não lazer; pois a colagem dos ditos fragmentos obriga a prioritariamente cumprir-se o provérbio: guarda que comer, não guardes que fazer. A isso, António.

Estacionamento: sem problemas. Telefone: 241 571 230. Estrada da Barragem n.º 2. Ortiga. Mação.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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