- Publicidade -
Terça-feira, Dezembro 7, 2021
- Publicidade -

Crítica de Cinema | “Fátima” (2020), uma questão de fé para lá da compreensão (c/vídeo)

O mediotejo.net assistiu à ante-estreia do filme e conta-lhe todos os pormenores desta nova versão dos acontecimentos de Fátima, aos olhos de Hollywood.

- Publicidade -

Quando se dá o fade-out e surgem os créditos do filme “Fátima”, a superprodução italo-americana com realização de Marco Pontecorvo, com data de estreia em Portugal prevista para 30 de abril, deparamos-nos inesperadamente com as palavras de Albert Einstein.

“Só há duas maneiras de viver a vida: a primeira é vivê-la como se os milagres não existissem. A segunda é vivê-la como se tudo fosse milagre.”

- Publicidade -

A citação faz apelo a um conjunto de diálogos existencialistas que opõem a fé ao racionalismo ao longo de toda a narrativa. “A fé começa nos limites da compreensão”, sentencia a Irmã Lúcia, vivida por Sónia Braga, a um investigador de santos (interpretado por Harvey Keite) que está a estudar a sua história para um livro. Não se percebe bem porque Einstein é chamado à discussão no final da película, mas eventualmente será para afirmar que a crença total no racionalismo, no poder absoluto da razão, também tem a sua boa dose de irracionalidade.

A película tem os seus atributos. Além da poderosa banda-sonora de Andrea Bocelli, um dos pontos fortes do filme, é um regalo ver Sónia Braga como Irmã Lúcia, Lúcia Moniz como Maria Rosa (mãe de Lúcia) e Goran Visnjic como o administrador do concelho de Ourém, Artur de Oliveira Santos. A fotografia é belíssima (embora a Tapada de Mafra esteja um tanto longe de fazer lembrar a aridez da Serra de Aire, mas isto são preciosismos de nativa) e a realização está competente.

História gira em torno das Memórias da Irmã Lúcia Foto: D.R.

Em 2016, quando o projeto foi apresentado em Cannes, afirmava-se que este seria um remake do filme de 1952 “The Miracle of Our Lady of Fátima”, então uma produção dos estúdios da Warner Brothers. Mas na apresentação do filme aos jornalistas e à comunidade religiosa de Leiria-Fátima na quinta-feira, 12 de março, a inspiração na velha película não foi mencionada, afirmando-se que era a “maior produção” realizada até ao momento sobre a realidade histórica que envolveu os acontecimentos de 1917 na Cova da Iria.

Maior certamente: algumas notícias dão conta de 6 milhões de euros de investimento no filme. Já a fidelidade à realidade histórica é um tanto questionável. Esta é sobretudo uma interpretação dos acontecimentos de há um século ante a perspetiva social de 2020 e da narrativa sobre Fátima e a sua mensagem que se foi gradualmente instituindo.

Um exercício interessante é ver o filme de 1952. A construção da história nos dois filmes tem bastantes pontos em comum e segue essencialmente o mesmo encadeamento de acontecimentos: a figura de Hugo, o descrente e algo cínico personagem popular de Gilbert Roland, é na prática substituída pela do professor Nichols, um académico que tenta encontrar respostas para os acontecimentos através da razão e da ciência; os socialistas em defesa do proletariado são agora simples republicanos radicais, defensores dos ideias do iluminismo, a lutar contra o obscurantismo e a ignorância; o primeiro filme ainda menciona Maria Carreira e o seu pedido a Nossa Senhora para curar o filho aleijado, mas este nome é completamente esquecido no segundo filme, que até cura milagrosamente o rapaz; no filme de 1952 não há visões do inferno nem aparições de anjos, nem sequer grandes segredos envolvendo o Papa, passagens que já são mencionadas na atual película.

O que mudou? O filme da Warner Brothers, ainda com memória real dos acontecimentos e com muitas das personagens ainda vivas, em pleno período de “caça às bruxas” de comunistas, está mais próximo da narrativa de 1917, focando a grande revelação de Nossa Senhora que se sabia à época, a conversão da Rússia.

No filme de 2020 já nem se fala na Rússia. Herdeiro da longa vida da Irmã Lúcia, da publicação das suas Memórias, da tentativa de assassinato do Papa João Paulo II e da queda do muro de Berlim, o filme de Marco Pontecorvo acaba por elaborar mais a tensão vivida entre Lúcia e a mãe, desenvolvendo melhor a personagem de Maria Rosa e os efeitos da partida de soldados para a I Guerra Mundial.

Sónia Braga veste a pele da Irmã Lúcia Foto: D.R.

Omite praticamente, em contrapartida, vários detalhes da prisão dos pastorinhos em agosto de 1917, que o filme de 1952 explorava com certa carga dramática, a qual contribuiu para alguma demonização da figura de Artur de Oliveira Santos no imaginário coletivo. Mais charmoso e romântico que o seu antecessor, Goran Visnjic tem direito à cena feminista do filme, bem ao jeito dos atuais ventos #metoo, baixando a guarda ante o pulso firme da esposa; correndo pela multidão para salvar a família, assustado com o milagre do sol, como que num derradeiro ato de conversão face à evidência dos factos.

Outras produções sobre Fátima foram realizadas ao longo dos últimos 70 anos, sendo que as mais recentes datam de 2017. Na sua grande maioria, aceitam a crença no seu formato instituído à época em que são filmadas, explorando diferentes variantes do fenómeno religioso de Fátima (os peregrinos, a perspetiva de Jacinta, o impacto social, etc). O filme que deverá estrear em abril (ou outubro se o Covid-19 estragar a estreia) é uma história para crentes, escrita por crentes, olhando o racionalismo com a condescendência da crença e padecendo eventualmente, pelo menos em alguns episódios, da mesma incompreensão que apregoa.

O inglês dos atores, boa parte deles portugueses, é bastante sofrível. As crianças têm algum excesso de vocabulário para miúdos analfabetos, assim como capacidade de análise e maturidade. A produção tomou várias liberdades criativas e certas pormenores da reconstrução histórica deixam dúvidas.

A questão que no fim se impõe é esta: isto interessa? Na prática, nem por isso. A crítica anti-Fátima sempre se bateu por uma determinada “verdade”, denunciando uma construção maquiavélica de um fenómeno que se resume a querelas políticas da época. Mas a fé, bem diz o filme, começa nos limites da compreensão. E num filme sobre fé, tentar compreender é um ato fútil e secundário.

O que um filme sobre Fátima acaba por nos fazer recordar é a intensidade humana que existe na história dos três pastorinhos. Fátima é um verdadeiro ensaio sobre a condição humana, que conseguiu reunir sobre si vários elementos de tragédia grega e uma dose de incógnita científica que abre espaço às mais diversas interpretações. Ao mesmo tempo, tornou-se inadvertidamente o primeiro grande caso mediático da história portuguesa, com uma ampla cobertura na imprensa nacional, impulsionando o fenómeno.

Para concluir, que se a história é verdadeira ou não, se as crianças viram algo ou se se limitaram a reproduzir os devaneios da prima mais velha, pouco interessa. A fé vale por si própria e vai encontrando, como se pode ver no filme, as suas próprias racionalizações (à crítica que Lúcia previu o fim da guerra quando esta não terminou, foi o jornalista do jornal O Século que entendeu mal).

Vemos um filme como “Fátima” porque acabamos por criar empatia com Maria Rosa, com Jacinta, com o Administrador. Toda a humanidade tem um cantinho de verdade na Cova da Iria. Quer acreditemos ou não em milagres.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

- Publicidade -
- Publicidade -

1 COMENTÁRIO

  1. Que Deus me perdoe se peco mas este NÃO É um bom filme. É uma novela cheia de mentiras e omissões. Quem conhece as aparições da Nossa querida Mãe em Fátima, verifica que este filme é muiiiito fraco. Mais valia não o terem feito. Não ofendam mais a Nosso Senhor, que já está muito ofendido.

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome