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“Cozinha Futurista”, por Armando Fernandes

O último número (194) da revista Colóquio Letras é dedicado ao futurismo, movimento de vanguarda literário e não só criado e desenvolvido pelo italiano Marinetti. As ideias futuristas do extravagante e polémico italiano continua a ser objecto de estudo (o número da revista o prova), extensão e consequente influência às claras e às escondidas.

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Trago o vertiginoso Marinetti à crista da onda porque escreveu um Manifesto culinário gastronómico (existe uma tradução em português editada no Brasil) intitulado A Cozinha Futurista em colaboração com a filha repleto de prescrições e receitas insolentes aos olhos dos puristas, loucas no entendimento de gourmets aferrados ao classicismo, estapafúrdias para não dizer repulsivas no entender de inúmeros cozinheiros, no entanto, se as lermos atentamente e as cotejarmos com as criações de chefes ao estilo de Adriá ficamos surpreendidos dada a similitude de muitas.

As extravagantes receitas vão encontro ao espírito da época imbuída de Modernismo, sendo antecedidas de curiosas e refulgentes explicações fazendo da obra instrumento de percepção daquele frenético tempo onde a gastronomia é uma composição repleta de ademanes, de inúmeros ingredientes e condimentos.

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Como amostra façam o favor de ler: peixe colonial ao rufar de tambor, carne crua esquartejada por som de trompa, linguiças nadando em cerveja polvilhadas com pistácios caramelizados, pão de mel e poços de vinho de Castelos romanos alternados com uma planície quadrada de papa de batatas, pêssegos com o coração de vinho doce toscano fechado, que nadem num mar de conhaque, enguia marinada recheada com ministrone à milanesa gelado e damascos recheados de anchovas.

O rosário de receitas é saliente e as composições culinárias acima referidas o demonstram lapidarmente, de inusitado esplendor são as considerações referentes à etiqueta a cumprir na apresentação das ditas fórmulas culinárias, os cuidados a tecer e ter na realização dos banquetes, sem esquecer a sazonalidade dos produtos.

Os comeres de amor, de sedução, de ciúme e pulsões respeitantes a tais sentimentos oferecem fartos momentos de alacridade até porque decorridos mais de cem anos sobre a irrupção do Manifesto, verificamos quão podem ser iguais os inventos gastronómicos através dos séculos, é que se lermos as descrições dos banquetes realizados na Roma imperial vamos encontrar outros veios semelhantes.

Se dúvidas existirem só temos de ler Petrónio e Suetónio. Obviamente, tanto a cozinha dos nababos romanos como a de Marinetti e a de Adriá (agora professor em Harvard) e discípulos só eram e são acessíveis a gente endinheirada e amante das novidades por mais abstrusas que sejam.

PS – Os chefes e cozinheiros predispostos a estas criações, de forma geral são detentores de grande competência no preparar os alimentos e transformá-los em comida. Existem charlatães, mas não são estes.

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Armando Fernandes
Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris. Escreve no mediotejo.net aos domingos

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