Covid-19 | Vice-Presidente da Câmara da Chamusca viveu “o turbilhão emocional que é estar infetada”

Aos 37 anos, a Vice-Presidente da Câmara Municipal da Chamusca viveu uma experiência marcante na sua vida. Apesar de todos os cuidados de prevenção que adota no dia-a-dia, Cláudia Moreira acabou por testar positivo à Covid-19 o que a obrigou a ficar em confinamento de 25 de outubro a 7 de novembro, ainda que assintomática. Foram duas semanas passadas a maior tempo no seu quarto. No quarto ao lado estava o filho de nove anos com quem não podia contactar.

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A dureza do isolamento forçado era compensada diariamente com a solidariedade demonstrada pelos amigos, pela família e pelo povo da Chamusca. Foram muitas as mensagens e chamadas que recebeu. Houve quem lhe oferecesse flores, sopa, broas, frutas, legumes, numa onda solidária que ajudou Cláudia a manter o espírito positivo.

O confinamento domiciliário não a impediu de continuar a trabalhar graças aos novos meios de comunicação. A autarca elogia também as suas equipas nos diferentes pelouros sob a sua responsabilidade.

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Numa entrevista ao mediotejo.net, Cláudia Moreira, conta-nos como é viver em confinamento e o desafio que é gerir as emoções e as angústias perante a incerteza da doença.

Quando e como descobriu que estava infetada?
Descobri que estava infetada quase por mero acaso. Quem devia fazer o teste era apenas o meu filho, por termos tido conhecimento que a meia-irmã, de 8 meses, estava infetada e com a qual tinha tido contacto alguns dias antes. No entanto, apesar do entendimento inicial da médica que nos acompanhou ter sido de que apenas ele faria o teste, acabou por mudar de ideias e considerou que por precaução eu também o deveria fazer. Nenhum de nós tinha qualquer sintoma e, com tantos cuidados, eu estava serena em relação ao resultado do teste. Quando recebi os resultados, vi primeiro o do meu filho, que era a minha maior preocupação, e ele estava negativo. Respirei de alívio, a achar que, logicamente, o meu teste também estaria negativo, mas afinal eu estava infetada.

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Tem ideia como terá contraído o vírus?
Não percebi ainda muito bem até que ponto é possível, mas muito provavelmente através do meu filho, apesar de ter testado negativo.

Sabemos que é muita cuidadosa e cumpre escrupulosamente todas as regras, mas pelos vistos não foi suficiente… Sente-se revoltada?
Não é do meu feitio sentir-me revoltada, e desta vez não foi exceção! O cumprimento escrupuloso por todos das regras sanitárias para evitar o contágio é fundamental, mas para quem tem filhos mais pequenos seria tremendo abolir os afetos e isso acaba por tornar-se uma fraqueza no combate à propagação do vírus. O contexto atual é exigente não só ao nível sanitário, económico, social, mas também muito exigente ao nível emocional. Ultrapassarmos esta pandemia fazendo as escolhas acertadas, pesando o equilíbrio entre os cuidados que devemos ter para nos mantermos saudáveis fisicamente e os cuidados que devemos ter para nos mantermos bem psicologicamente passa também por uma correta gestão das nossas emoções.

Quando soube o resultado, como reagiu?

Posso dizer que foi um choque! Ouvimos meses a fio falar deste vírus com impactos assustadores e que a medicina ainda não conseguiu determinar que efeitos terá a longo prazo, para além daqueles imediatos que já todos conhecemos e mesmo sem sintomas, não podemos evitar de sentir um enorme receio pelos que nos são mais próximos e por nós. A sensação de nos sentirmos um perigo potencial para quem contacta connosco é muito difícil de gerir. Assim que soube, isolei-me… nem me sentia bem de outra forma. Fiz logo a lista dos meus contactos, que estavam reduzidos ao trabalho e a casa (8 pessoas) e comuniquei à delegada de saúde. Precisava de garantir o quanto antes que todos estariam a ser acompanhados. Felizmente, acabaram por testar todos negativo.

Presidente e Vice-Presidente da Câmara. Foto: DR

Como viveu essas duas semanas de confinamento?
Fiquei isolada no meu quarto, com o meu filho no quarto ao lado. Trabalhava no quarto, tomava as refeições no quarto, tinha um circuito para ir até ao jardim de casa, para fazer um pouco de exercício físico e apanhar sol… felizmente tinha essa possibilidade!

Conseguiu gerir os seus pelouros à distância? Que dificuldades sentiu?
Nunca deixei de trabalhar. De certa forma, estou habituada a ter o escritório sempre no bolso, o que me permitiu continuar a acompanhar todos os assuntos a tratar. Mas há outros fatores que ajudam muito, como o facto de ter excelentes equipas que apoiam em tudo o que é preciso. Antes ainda da pandemia, já defendia que algumas reuniões pudessem acontecer através dos meios telemáticos, por uma questão de gestão do tempo. No entanto, prefiro contactar diretamente com as equipas de trabalho que me são mais próximas, sobretudo porque permite uma maior fluidez e proximidade na comunicação. O trabalho à distância retira-nos o “sentir o pulso” da organização e essa foi, talvez, a minha maior dificuldade!

Do que é que se sente mais falta numa situação dessas, de isolamento?
O que senti mais falta foram os jantares à mesa, em casa. É aquele tempo em que nos sentamos todos e partilhamos como foi o dia. Enquanto estive isolada, as refeições eram tomadas numa mesa baixa, sentada no chão. A única alternativa era a secretária, mas essa estava ocupada com a papelada do trabalho!

Sempre sem sintomas…

Sim, estive sempre sem sintomas. Voltei a fazer teste, com resultado negativo, felizmente. Espero não ter de fazer mais nenhum teste… seria mau sinal!

Cláudia Moreira com o seu filho de nove anos. Foto: DR

O que fica desta “experiência”?

Da experiência, para além do turbilhão emocional que é estar infetada, ainda que assintomática, e de todos os receios sentidos, ficam os gestos e as mensagens de apoio, que me foram chegando das mais diversas formas. Houve quem monitorizasse diariamente o meu estado de saúde, quem partilhasse músicas para relaxar, quem fosse ao portão de casa para me acenar e dar uma palavra de incentivo. Recebi flores, sopa, broas, frutas, legumes, caixas surpresa, telefonemas, videochamadas, sms… tudo isso ajudou muito a manter o espírito positivo e fez com que os dias de isolamento não parecessem intermináveis. Só tenho a agradecer todo o apoio que me deram.

Depois de passar por esta experiência, quer deixar alguns conselhos?
Que ninguém desvalorize o seu papel no combate à propagação do vírus. Agora, mais do que nunca, a responsabilidade e o comportamento de cada um são determinantes para o bem coletivo. Nunca é demais reforçar a importância da lavagem regular das mãos, da utilização de máscara, do distanciamento social, da redução de contactos aos estritamente necessários. É compreensível que estejamos todos cansados de ouvir falar da COVID-19 e dos seus impactos e de todas as restrições que têm condicionado as nossas vidas a todos os níveis. Mais cansados estarão os profissionais de saúde e todos os que têm estado na linha da frente do combate à pandemia. Pensemos neles e em todos os que sofrem e têm sofrido com esta pandemia, para dar o melhor de nós e fazer, todos, tudo o que estiver ao nosso alcance para travar o contágio.

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José Gaio
Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.
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