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Terça-feira, Outubro 26, 2021

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Covid-19 | Serviço de Patologia do CHMT avança com estudo inédito à Imunidade Celular

O serviço de Patologia Clínica do Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT) efetuou um estudo à Imunidade Celular junto dos profissionais de saúde vacinados contra o SARS-CoV-2. O estudo analisa a eventual relação entre a imunidade humoral e a imunidade celular, quer em resposta à vacinação quer à infeção, e qual a sua durabilidade ao longo do tempo. Depois de ter sido um dos serviços pioneiros no país a ter a capacidade para a deteção das variantes do SARS-CoV-2 do Reino Unido, África do Sul e Brasil-Manaus, o Serviço de Patologia Clínica do CHMT iniciou o teste também à imunidade celular, através da determinação da produção de Interferão-Gamma específico para o SARS-CoV-2. O jornal mediotejo.net foi conhecer esse estudo único em Portugal e falou com o diretor do Serviço de Patologia Clínica do Centro Hospitalar do Médio Tejo, Carlos Cortes. O médico integra atualmente a Comissão de Avaliação e Acompanhamento do Plano de Expansão da Capacidade Laboratorial Nacional para diagnóstico de SARS-CoV-2 e é também presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos.

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Pedia-lhe um retrato do serviço de Patologia Clínica do CHMT. Qual o trabalho dos profissionais durante o último ano e meio? E o que falta fazer na identificação das novas variantes na população?

No início da pandemia estávamos praticamente a zero na capacidade de resposta em massa para a covid-19, tal como na maioria dos hospitais. Fundamentalmente o que se pretendia era a identificação do vírus para se chegar ao diagnóstico preciso da doença. Mas muito rapidamente adquirimos a capacidade técnica e tecnológica de dar uma resposta de elevada qualidade. A isso o devemos, não só à extraordinária equipa do Serviço de Patologia Clínica, mas também à enorme dedicação que todo o CHMT demonstrou durante toda a pandemia. A todos os níveis a resposta à covid-19 demonstrou que os utentes e os doentes podem contar com o seu hospital. No caso da resposta diagnóstica, não é habitual uma crise sanitária assentar com esta importância no diagnóstico laboratorial, mas o CHMT soube adaptar-se com grande eficiência.

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É comum? Ou seja, há muitas doenças com esta obrigatoriedade?

Os exames complementares de diagnóstico são isso mesmo, exames que ajudam à decisão e ao diagnóstico clínico. No caso da covid-19, o consenso internacional foi de “testar, testar, testar”. O CHMT segui sempre o consenso científico e as normas emanadas da DGS. Inicialmente, começámos por enviar as nossas amostras para um laboratório privado. Organizámos vários circuitos de pedidos de exames, de colheita, de transporte de amostras e processamento e de entrega de relatório de resultados. O modelo de resposta contemplava vários circuitos com transportes entre as diferentes unidades hospitalares e, em seguida, enviávamos para Lisboa. Ao todo, eram realizados entre 4 a 6 transportes diários. Foi algo muito intenso e que requer uma grande dedicação. Este dispositivo permitiu logo ao CHMT ter uma capacidade de resposta muito acima de todos os outros hospitais, que tinham capacidade para este tipo de análise. Na início da pandemia, a capacidade do CHMT era reduzida. Havia um equipamento com capacidade para quatro amostras em simultâneo, não adaptado a uma testagem em massa de centenas ou milhares de processamentos diários. Hoje, a capacidade do CHMT é extraordinariamente diferente: temos vários equipamentos, para uma resposta rápida, em menos de uma hora e equipamentos que podem processar centenas de amostras em poucas horas. Uma diferença colossal, uma vez que, muito rapidamente, em abril, adquirimos capacidade técnica para uma resposta célere e alargada. Vejamos: a biologia molecular clássica não é um método analítico simples; em primeiro lugar, requer vários passos técnicos e depois uma análise das curvas para poder dizer se é positivo ou negativo ou se tem, eventualmente, de ser repetido. Por outro lado, tivemos também um acréscimo de recursos humanos para poder dar essa resposta. Fizemos um enorme trabalho, com persistência, e insistimos muito junto do mercado, extremamente difícil na fase inicial da pandemia, porque os países fornecedores de equipamentos e reagentes retiveram essa tecnologia e não deixavam exportar para outros países. Contactámos vários fornecedores e conseguimos, pouco a pouco, montar uma capacidade de resposta muito importante.

Carlos Cortes é o diretor do Serviço de Patologia do CHMT . Créditos: mediotejo.net

Qual o máximo de testes diários que o serviço atingiu?

Quando surgiu uma importante necessidade diagnóstica, durante os picos pandémicos, em Lisboa, na margem sul, Loures, Cascais, todo o Oeste, Santarém e, mais tarde, Portalegre, o CHMT deu grande parte da resposta. Por outro lado, os testes efetuados nos lares, os testes em massa na comunidade etc, uma grande parte vinha para o CHMT. Aquando dos picos – a designada ‘segunda vaga’ no final do ano e a ‘terceira vaga’ no início deste ano – continuámos a dar essa resposta. Em média, tivemos momentos em que atingíamos 1500 testes por dia e tivemos picos de 1800 testes. Na altura, segundo os dados do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), éramos o hospital do País que mais testes fazia.

Essa capacidade de resposta foi importante, em que medida?

Em várias medidas, quer na capacidade de resposta alargada, quer na capacidade de resposta em termos de tempo útil muito curto. Para os urgentes é menos de uma hora desde a entrada da amostra no laboratório. Para os normais são 7h20 incluindo transporte, o que é muito bom. Há outros centros que demoram dias a dar uma resposta. Inclusivamente para as variantes, damos em poucas horas, o INSA demora uma ou duas semanas, portanto agilizámos o processo.

Como?

Com circuitos bem desenhados e muito eficientes. O processamento das respostas mais rápidas tem a ver com uma coisa: a definição criteriosa dos circuitos. Perdemos imenso tempo a fazer isso durante os primeiros meses. Criámos um circuito especial para a covid-19 e, sempre que há amostras, entram nessa via e são imediatamente processadas, na parte analítica, pré-analítica e também na resposta. Hoje está otimizada ao máximo. No início foi difícil, trabalhávamos com folhas de Excel, passámos horas e horas a telefonar aos utentes a dar resultados e prestar esclarecimentos. Desde então houve uma grande evolução, atualmente o resultado é dado de duas formas; se o doente estiver na Urgência é comunicado imediatamente ao enfermeiro responsável da Urgência, além disso é sempre comunicado por SMS ao utente. Fornecemos relatórios de resultados sempre que são solicitados. Importa-nos muito a qualidade da resposta dada e poder transmiti-la eficientemente aos clínicos e aos utentes do CHMT.

Portanto a covid-19 veio revolucionar o serviço…

A resposta que damos utiliza uma técnica de biologia molecular por amplificação dos ácidos nucleicos do ARN do vírus através da RT-PCR, que é o método de referência. Entrámos na era da interpretação, volvidos vários meses. É diferente interpretar a covid-19 no início da pandemia e passado uns meses porque o método da biologia molecular vem identificar o RNA do vírus. Fundamentalmente, alguns genes pertencentes à proteína spike. No início da pandemia quem tinha vírus estava infetado, hoje quem tem carga de ARN viral não significa que está infetado, pode significar que já esteve infetado e que o organismo ainda está a “limpar” esse RNA. Esta técnica é tão sensível, acima dos 99.9% que também deteta o RNA do vírus já destruído pelo sistema imunitário do organismo.

Serviço de Patologia do CHMT . Créditos: mediotejo.net

A interpretação de um resultado é agora mais fácil ou mais difícil?

Muito mais difícil porque temos de perceber se a carga de RNA viral ali representada significa que estamos perante um início da infeção, uma carga viral muito baixa, ou se está no fim, se já teve a infeção há vários meses, não há doença mas persistem restos de RNA viral no organismo. Hoje é muito mais difícil fazermos essa avaliação, porém, temos normas e procedimentos definidos e critérios de validação exigentes.

O CHMT foi o primeiro hospital do País a identificar as variantes do SARS-CoV-2, correto?

Sim, por aquilo que nos foi dado a conhecer. Em fevereiro (de 2021) arrancámos com essa diferenciação, o CHMT começou a fazer a identificação das variantes. Conseguimos inicialmente fazer a identificação das variantes através de uma parceria, os reagentes vinham diretamente da Alemanha. Há dois elementos relevantes: o primeiro, é o interesse clínico e o segundo é o interesse epidemiológico. Tínhamos inicialmente algumas variantes, a B117 relacionada com a variante do Reino Unido (UK) com características que conferiam ao vírus uma maior capacidade de infecciosidade e impacto clínico do que a variante selvagem – a variante inicial do vírus.

Era importante para a saúde pública saber se os doentes tinham essa variante ou outras?

Sim. Portanto, identificámos a do Reino Unido (UK), a de Manaus (Brasil) e da África do Sul. Detetámos, tal como o Instituto Nacional Doutor Ricardo Jorge o crescimento da variante do Reino Unido no início deste ano. Logo em fevereiro percebemos que a variante UK era maioritária. Em final de maio princípio de junho, temos a variante UK muito minoritária e, na altura, suspeitámos que era a variante Delta, não estávamos a identificar porque não tínhamos as sondas específicas para a variante Delta que ainda não se encontravam comercializadas em Portugal. Entretanto, conseguimos identificá-la e agora representa 100% das amostras positivas. O interesse neste momento de deteção das variantes não é o mesmo que era há um tempo atrás, a não ser que haja índices que uma nova variante possa surgir. Em julho começámos a fazer outra coisa porque, mais importante do que detetar as variantes, é detetar as mutações caraterísticas de cada variante. Um conjunto de mutações é que vai definir uma variante. As mutações relevantes acontecem na proteína spike porque é essa que se fixa em todas as células e é reconhecida pelo organismo. Dedicamos agora o nosso trabalho, em biologia molecular, na deteção dessas mutações. E temos uma dúzia de mutações que nos permitem perceber se há novas variantes. Estamos atentos ao aparecimento de novas mutações e novas variantes. Estarmos preparados com o diagnóstico ajuda a tomar decisões clínicas mais individualizadas para cada doente e melhorar assim a qualidade dos tratamentos.

Processo de análise dos testes ao SARS-Cov-2 no Serviço de Patologia do CHMT. Créditos: mediotejo.net

Mas houve outro trabalho da equipa de Patologia Clínica. Quer explicar esse estudo sobre imunidade celular que está a ser desenvolvido unicamente (no País) no CHMT?

Somos os primeiros em Portugal a fazer a avaliação da imunidade celular específica para SARS-CoV-2 com o Quan-T-Cell SARS-CoV-2 da Euroimmun que tem sido um parceiro fundamental desta resposta clínica e do estudo que estamos a fazer. Tentámos perceber a imunidade que a vacina estava a conferir ao organismo. Quando o organismo entra em contacto com o vírus SARS-CoV-2 há uma série de reações, mecanismos que se constroem para responder à infeção. Temos no organismo anticorpos circulantes que são as imunoglobulinas. Há várias, nomeadamente para a SARS-Cov-2 e para muitos outros vírus, a IgM fase aguda, a IgA mais ligada às mucosas – que é o caso – e a IgG que é de fase crónica e que perdura mais tempo. E essas imunoglobulinas são produzidas cerca de 10 dias, ou menos, após contacto com o vírus. Por isso, chegámos a pensar que a IgM poderia ser o marcador da doença, mas demonstrou pouca sensibilidade e especificidade. A única que merece, a nível internacional, algum interesse é a IgG que poderia dar uma ideia da capacidade imunitária do organismo. Significa que o organismo teve contacto com o vírus ou com a vacina e é um marcador da imunidade humoral. Foi feita uma determinação no ponto zero – mesmo antes da administração da primeira dose da vacina – aos profissionais de saúde para perceber o nível basal da imunoglobulina G e para percebermos se a pessoa em concreto já tinha tido contacto com o vírus. Isso foi essencial para termos a certeza que a presença de imunoglobulinas era exclusivamente devida à vacina e não a um contacto anterior com o vírus.

Foram apurados os dados de seis meses, certo? Quais as conclusões?

Na sequência da vacinação com a Pfizer – aquela que foi inicialmente administrada aos profissionais de saúde -, as concentrações de imunoglobulinas G aumentaram abruptamente como era esperado. Passado um mês, com a segunda dose da vacina, verificámos níveis ainda mais elevados. Atingiu o pico de IgG protetoras após um mês da vacinação completa. Depois as concentrações foram descendo de forma extremamente preocupante. Aos seis meses a descida situava-se entre 90% a 93%, de forma muito semelhante entre faixa etárias e géneros. Mas verificámos algo peculiar: apesar da descida significativa das IgG circulantes, havia menos de 1% com nova infeção por coronavírus, o que podia indicar que existisse outro papel protetor contra a doença. Já suspeitávamos desde início do importante papel da imunidade celular. Os linfócitos são muito importantes porque têm memória do vírus e quando entram em contacto novamente com o vírus produzem uma série de substâncias, nomeadamente imunoglobulina G. Chegámos ao sexto mês depois da vacinação – o quarto controlo – onde a curva começa a ter uma estabilização. Vamos voltar a dosear ao nono mês e ao décimo segundo mês para percebermos se essa estabilização é mantida.

Processo de análise dos testes ao SARS-Cov-2 no Serviço de Patologia do CHMT. Créditos: mediotejo.net

Para esta equação, conta então a imunidade celular mais do que a imunidade humoral (dos anticorpos)?

É uma hipótese muito consistente. Estamos em crer que a imunidade celular é efetivamente importante tão ou mais importante do que imunidade humoral conferida pelas imunoglobulinas. O que nos interessa é a capacidade que o organismo tem, perante um estímulo do SARS-CoV-2, de produzir estas imunoglobulinas. Trata-se de uma técnica diagnóstica complexa, com vários passos que demora mais de 24h até obter um resultado. O que doseamos é o uma citocina, o Interferão-Gamma tipo II específico para o SARS-CoV-2. E a novidade é esta: com a presença de células T em contacto com a proteína spike do vírus, estas vão produzir Interferão-Gamma específico SARS-CoV-2, o que só é possível se as células T tiverem a memória do vírus. Se não tiverem não produzem. Para a parte clínica, o resultado é expresso como positivo ou negativo. Estamos a registar a concentração do Interferão, um dado laboratorial para depois tentar estabelecer correlações com a situação clínica do utente, se tem co-morbilidades, se tem patologias que possam comprometer uma imunidade eficaz e competente, se já teve SARS-CoV-2, se foi vacinado e com que vacina, para tentar perceber se há uma relação consistente entre a concentração de Interferão-Gamma específico SARS-CoV-2 e todos estes dados clínicos. E depois tentar estabelecer as ligações com a produção de IgG que também confere uma proteção ao organismo. Este estudo em concreto ainda está a decorrer. A amostra são os profissionais de saúde, doentes do CHMT e uma amostra de idosos com idade superior a 65 anos.

Portanto, um estudo inédito em Portugal…

Com esta técnica específica disponibilizada pela Euroimmun é seguramente. Muitíssimo importante porque é mais ou menos consensual na comunidade científica que a imunidade celular é a que verdadeiramente importa, está intrinsecamente relacionada com a produção de imunoglobulinas. Esse estudo só agora foi possível porque a indústria do diagnóstico só começou a produzir estes testes a partir deste ano, o CHMT foi o primeiro hospital a adquiri-los. Com os profissionais de saúde estamos a tentar perceber se estão protegidos e se, estando protegidos, irão proteger também os seus doentes.

Processo de análise dos testes ao SARS-Cov-2 no Serviço de Patologia do CHMT. Créditos: mediotejo.net

Então qual o trabalho a ser desenvolvido a seguir? Este estudo pode ser importante, por exemplo, para encontrar um medicamento eficaz para combater a doença?

Este é um estudo evolutivo, cujos resultados serão publicados em várias fases. Iremos dar a conhecer todos os resultados à Direção-Geral da Saúde, ao Instituto Nacional Doutor Ricardo Jorge e ao Ministério da Saúde para que, com estes dados, possam estar na posse de elementos que ajudem a tomar decisões importantes na resposta à covid-19.

E o que pode ser importante?

Em primeiro lugar se é necessário ou não o reforço vacinal. Temos pessoas com a concentração de IgG muito baixa. Pergunta-se: Significa que estas pessoas têm de levar uma vacina ou não? Isto é, pode estar muito baixa mas a parte da imunidade celular estar capaz e perante um estímulo do vírus a parte celular produzir IgG para o organismo. Não precisamos necessariamente de ter uma grande quantidade de IgG, precisamos de ter células competentes a funcionarem no organismo para depois produzirem uma série de substâncias que vão ajudar a eliminar o vírus. Isso é o mais importante.

Ou seja, neste momento não se sabe se será necessária uma terceira dose da vacina?

É um tema delicado que ainda não tem toda a evidência científica necessária. Até em termos internacionais não temos estudos concretos sobre isto. A terapêutica é outra coisa. O nosso organismo é absolutamente fantástico. Na esmagadora maioria das pessoas, o organismo está capacitado para resolver todas as infeções a que está sujeito. Só tem um problema: tem de o fazer rapidamente, senão o microrganismo infetante desenvolve-se de tal forma que o organismo já não o consegue vencer eficazmente. Daí a questão da imunidade. O organismo fica com a memória do microrganismo e, em contacto com o vírus por exemplo, o organismo reage logo ativando todas as suas defesas imunitárias, este é o princípio da vacina. Há vacinas que temos de voltar a fazer ao longo da vida e outras que só fazemos uma vez, normalmente na infância. Às vezes, as células perdem memória e o grande problema do SARS-CoV-2 é saber se as células perdem memória muito rapidamente ou não.

Processo de análise dos testes ao SARS-Cov-2 no Serviço de Patologia do CHMT. Créditos: mediotejo.net

Mas a vacina da gripe é anual…

Sim, mas isso está relacionado com as mutações do vírus. Não há nenhum vírus da gripe que seja igual de ano para ano. Têm uma capacidade de mutação muito importante. O SARS-CoV-2 também tem mas o organismo reconhece a proteína spike. Até ao dia em que existir tantas mutações na proteína spike – e já está a ter muitas – que o organismo não vai reconhecer o vírus.

E esse não reconhecimento é possível?

É! Daí a necessidade de vacinarmos toda a gente, a nível mundial, para reduzirmos esta capacidade de mutação, porque quanto mais vírus houver, maior probabilidade de mutações. Por isso não podemos ter ‘caldeirões’, isto é, aqueles países que não estão a vacinar. Acontecia muito no Brasil por isso desenvolveram algumas variantes, na Índia e países muito populosos que não estão a conseguir vacinar em massa, em África por exemplo. Aí o vírus tem um terreno fértil para criar as tais mutações… apesar de tudo é o organismo humano que cria as mutações. As mutações podem acontecer durante a replicação do vírus dentro das nossas células. Mas só algumas destas mutações são de relevo, aquelas que dão características ao vírus de maior adesão às nossas mucosas respiratórias, maior adesividade às células, maior concentração, e depois características clínicas mais desfavoráveis para o doente. É caso da variante Delta: é pior do que as outras não só do ponto de vista da adesão mas do impacto clínico, muito mais grave para os doentes. Estamos hoje numa nova pandemia, diferente da inicial, é uma pandemia por SARS-CoV-2 de variante Delta.

E se o organismo deixar de reconhece a proteína spike devido às mutações, o que acontece?

Voltávamos ao zero. Seria como se as pessoas não estivessem vacinadas.

Então as vacinas são a solução ou não?

São uma das soluções. Mas se me perguntar se prefiro uma vacina ou uma terapêutica, prefiro uma terapêutica, um fármaco que possibilite tratar as pessoas independentemente das mutações existentes ou que venham a surgir.

Quanto ao facto do estudo poder ajudar no desenvolvimento de um medicamento…

Pode ajudar tanto no tratamento como na prevenção da doença! A terapêutica, verdadeiramente, é aquilo que nos interessa. Ou seja, perante pessoas doentes podermos tratá-las eficazmente, pessoas que percam a sua capacidade imunitária, é isso que nos interessa. O organismo tem uma capacidade absolutamente fundamental na resolução da infeção. A vacina prepara o organismo para combater a doença, um futuro tratamento teria uma ação direta no vírus que poderiam impedir a sua multiplicação no organismo.

Então o caminho a trilhar é na descoberta de um medicamento?

Também é. Não é um caminho fácil porque já se experimentou uma série de fármacos desde o início da vacinação, e nenhum deles demonstrou grande eficácia. Concretamente até ao dia de hoje não há nenhum medicamento validado pela comunidade científica. A solução obviamente é evitar a doença mas quando não se consegue evitar tem de se tratar de forma eficaz.

Processo de análise dos testes ao SARS-Cov-2 no Serviço de Patologia do CHMT. Créditos: mediotejo.net

Portanto, o vírus veio para ficar.

Sim. É muito difícil fazer desaparecer um vírus da superfície da terra. Esta doença é uma zoonose, é transmitida por animais, e cada vez há mais doença desse género. Há um reservatório primário, não sabemos onde existe. Depois há um secundário e é transmitido ao Homem. O reservatório primário é, normalmente, onde o organismo entra. Na altura, falou-se numa série de animais, do morcego… mas tem de haver outro animal que permite que o vírus se replique em si, sem o matar, para ter uma maior concentração. O vírus vai ficar sempre no reservatório humano e no reservatório animal que ainda não descobrimos.

Então não podemos dizer que estamos a caminho do fim da pandemia?

Não. Isso não lhe posso dizer. Como não podia dizer antes do primeiro confinamento, como não lhe podia dizer no fim do verão do ano passado, como não lhe posso dizer agora com a vacina. Se há uma coisa que este vírus tem é conseguir-nos surpreender pela negativa. Depois do primeiro confinamento o que tentámos foi estancar o desenvolvimento do vírus e a sua passagem de pessoa para pessoa. Enquanto tiver um organismo para se desenvolver, tem também a capacidade para infetar outras pessoas. Pensámos que no confinamento era isso que iria acontecer, aquela quarentena de 15 dias. Sendo completamente destruído essa pessoa já não conseguia transmitir. Já percebemos que não. Este vírus é muito infecioso. Houve muito mais pessoas infetadas do que aquilo que sabemos. O vírus vai ficar para sempre, temos é de saber lidar com isso. Não vai ficar sempre, espero eu, num patamar pandémico mas vai ficar endémico. Sempre haverá pessoas com o SARS-CoV-2, o trabalho da comunidade científica é evitar a doença grave.

O vírus vai-se adaptando às respostas defensivas ou não?

Sim. Na sua globalidade o vírus vai-se adaptando mas há uma seleção do vírus. O vírus tem estas mutações e qual é o vírus que consegue sobreviver? É aquele que tem as mutações mais desfavoráveis para o organismo, nomeadamente, há uma mutação importante que é sua capacidade do contágio, de adesividade às nossas células. Quanto maior for a adesividade maior probabilidade tem essa variante de se desenvolver. Todas as outras, que ficam para trás, não mudam, desaparecem. Porque acabam por não ter organismos para se replicar. Sobrevive o mais agressivo e com capacidade de enganar o nosso organismo, neste momento é a variante Delta. Pode aparecer outra…

Processo de análise dos testes ao SARS-Cov-2 no Serviço de Patologia do CHMT. Créditos: mediotejo.net

O primeiro-ministro diz que brevemente atingiremos 85% de pessoas vacinadas no País. Vai ou não haver a tão esperada imunidade de grupo?

A imunidade de grupo terá de aparecer mais cedo ou mais tarde. A taxa de infetados é atualmente muito baixa. As pessoas estão a ficar imunes. Temos é de avaliar essa imunidade. Podemos ficar à espera de ver se as pessoas adoecem ou não mas temos dados laboratoriais que nos permitem avaliar essa imunidade. Quando soubermos, vamos conseguir avaliar se estão efetivamente protegidas ou não, ou seja, se há uma resposta adequada ou não do ponto de vista de defesa do organismo. A avaliação da proteção ainda não foi feita adequadamente. Posso dizer que dos dados que temos relativamente à imunidade celular, ainda são poucos, a esmagadora maioria apresenta uma boa imunidade celular.

E quando é que teremos esses dados?

Estamos a estudar os profissionais de saúde. Como disse avaliámos no sexto mês, no nono e no décimo segundo. Estamos a tentar fazer uma avaliação da resposta celular em pessoas idosas, mas para isso temos de encontrar financiamentos externos. Neste momento, estamos a avaliar perto de 100 pessoas idosas. É uma amostra razoável para percebermos tendências.

Processo de análise dos testes ao SARS-Cov-2 no Serviço de Patologia do CHMT. Créditos: mediotejo.net

Ainda sobre as vacinas, as crianças estão a ser vacinadas a partir dos 12 anos mas vacinar abaixo dessa idade pode fazer a diferença ou não?

Tenho uma ideia muito concreta, tendo em conta a evidência científica do momento, mas preferia expressa-la estando em posse de mais estudos sobre essa área.

Esta segunda-feira 13 de setembro (precisamente no dia da nossa entrevista) tirámos as máscaras na rua. Podemos arriscar a normalidade? Ou seja, não é arriscado sendo o início do outono?

Eu vou continuar a usar a máscara na rua. Porque há uma série de circunstâncias desfavoráveis que podem acontecer. Situações imprevisíveis que nos acontecem no dia a dia. A não ser que esteja no meio de um espaço muito amplo. Tudo o resto, quando estou na cidade, etc. corro sempre o risco de poder entrar em contacto com vírus e não quero correr esse risco neste momento. Nós saímos do verão do ano passado muito tranquilos, a taxa de infetados tinha diminuído bastante e havia muita gente que pensava que tínhamos resolvido o vírus. Neste momento, começa mais um ano letivo, as pessoas vão voltar ao trabalho, vai voltar a haver circulação, ajuntamentos. Além disso, é difícil às próprias pessoas serem disciplinadas e compreenderem quando têm de colocar a máscara ou não. É difícil perceber se está num local com muita gente ou pouca gente. O que é muita gente? É algo muito subjetivo. Havia uma mensagem simples: obrigatoriedade de usar a máscara, seja dentro ou fora. Depois há muitas situações que não percebemos muito bem se estamos dentro ou fora, num edifício de entrada aberta, por exemplo. Acho que não vai ser fácil fazer essa distinção e, do meu ponto de vista, não deveria ter sido tão cedo. Deveríamos ter esperado que terminasse este período mais complicado do regresso às aulas e do trabalho para fazermos essa avaliação. Sou a favor de um retorno à normalidade, mas com precaução e com os devidos ajustamentos.

Este outono/inverno poderá vir outra vaga?

Temos de ter muito cuidado e manter as precauções que conhecemos desde o início da pandemia. Pelas características deste momento, em termos sociais, as pessoas deslocam-se para o seu local de trabalho, características do meio ambiental como o tempo invernal, que favorecem o desenvolvimento viral, qualquer vírus, nomeadamente, estaremos perante a gripe que pode colocar algumas questões em termos de diagnóstico diferencial. O nosso serviço já está preparado para isso, temos os reagentes necessários para podermos imediatamente identificar e diferenciar uma pessoa que tem covid-19 e uma pessoa que tem gripe. Mas se as pessoas pensarem que a pandemia passou, ou que já virámos essa página e não mantiverem muitas das recomendações, apesar da abertura de tirar a máscara, de restaurantes etc., as pessoas não se podem esquecer que à sua frente, ao seu lado, pode estar uma pessoa infetada. Os mais novos são mais imunocompetentes do que os mais velhos e do que pessoas que têm doenças que afetam o seu sistema imunitário, oncológicas, do foro reumatismal, os diabéticos, etc. Mesmo que essa pessoa esteja vacinada pode ter alguma dificuldade. Não é a vacina que vai resolver o problema, é o nosso sistema imunitário que a vacina de alguma maneira ‘acordou’, ‘avisou’, mas é o nosso sistema imunitário que vai ter de responder e se não estiver competente, não há resposta, e a pessoa pode adoecer. Por outro lado, não podemos entrar em extremismo porque a situação pandémica que existe hoje é diferente daquela que existiu no passado. As coisas, neste momento, parecem estar em fase de resolução em Portugal. Mas a pandemia não é só portuguesa. Há um país que me preocupa muito porque esteve na dianteira em termos vacinais, tem uma alta taxa de vacinação, tem característica populacional muito parecida com o nosso país: Israel, em que disparou o número de infetados, disparou o número de mortos, naquele que tinha sido o país com mais vacinação. Temos de ter algum cuidado, não cair num extremo ou no outro, e mantermo-nos vigilantes. O vírus tem uma capacidade de mutação muito elevada e pode haver surpresas. Só quando acabar oficialmente a pandemia é que considero que podemos aliviar a nossa preocupação. É uma infeção mundial e continua a sê-lo.

Serviço de Patologia do CHMT . Créditos: mediotejo.net

Calculo que seja o serviço do CHMT que reúne maior número de máquinas, de tecnologia de ponta. Um serviço que não pára 24 horas por dia e, como vimos, fundamental no combate à pandemia de covid-19. Qual o número de profissionais existente na Patologia Clínica?

Cerca de 70 profissionais. É um serviço muito dinâmico em termos de recursos humanos, com entradas e saídas, em virtude da diferenciação e recursos alocados.

Ao todo, desde março do ano passado, quantos testes foram feitos neste serviço?

Desde o início da pandemia perto de 162 mil testes de diagnóstico à covid-19 por RT-PCR.

Neste momento, qual o índice de positividade nos testes diários?

É muito baixo. Chegamos a 500/400 amostras diárias e os positivos são residuais. Na última quinzena a positividade é de 6%. Com um acumulado de 8,5%, mas agora é mais fácil termos positivos que entram no hospital do que encontrar na comunidade.

Carlos Cortes é o diretor do Serviço de Patologia do CHMT . Créditos: mediotejo.net

Por último uma pergunta de cunho pessoal. Neste último ano e meio conseguiu não se infetar, mas conseguiu conciliar este seu trabalho com a família?

Nos primeiros tempos não consegui conciliar o trabalho com a família. No final do ano passado e início deste ano também não consegui. Apesar de ter estado vários dias em teletrabalho, recordo-me de estar em casa de manhã à noite onde praticamente nem sequer consegui falar com os meus filhos, dias seguidos. E houve meses a fio, no início da pandemia e no início deste ano onde estava sempre de apoio ao serviço, semanas a fio a atender telefonemas todas as noites. Foi extenuante. Houve uma altura em que achava que já não estava muito bem, porque não dormia uma única noite do princípio ao fim. Isto é, se me ligassem às 4h00 ou 5h00 já não dormia. Foi muito difícil. Houve momentos de conciliação, é verdade, mas houve momentos muito pesados. Mas existiu sempre um objetivo que era de dar a melhor resposta possível para ajudar e apoiar os doentes. Essa vontade dá-nos uma energia inesgotável. O nosso trabalho é melhorar a vida das pessoas e para isso não há nenhuma barreira que nos detenha.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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