Covid-19 | Restaurantes e cafés reabrem com muitas restrições, tentando adaptar-se ao “novo normal”

Créditos: Pixabay

Depois de dois meses de encerramento, os restaurantes, cafés e pastelarias reabriram ao público na segunda-feira, 18 de maio, com a lotação reduzida a metade. Devem privilegiar o uso das esplanadas e o serviço ‘take away’, incentivar as reservas e evitar o pagamento em dinheiro, assegurando um distanciamento de 2 metros entre clientes, ementas descartáveis ou que possam ser desinfectadas, entre muitas outras exigências da Direção-Geral da Saúde, para minimizar a possibilidade de contaminação com o Sars-CoV-2. O mediotejo.net foi ouvir alguns empresários da restauração e, apesar das dificuldades, há uma nota de esperança a pautar todos os discursos. Agora, dizem, o mais importante é voltar a ter clientes.

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*Textos de Joana Rita Santos, José Gaio, Patrícia Fonseca e Paula Mourato

Uma bica escaldada. Outra em chávena fria. Sai uma italiana. E mais um abatanado. Para o senhor Manuel é com um cheirinho. Para quem trabalha num café ou numa pastelaria, atrás de um balcão, não existem pedidos estranhos (os melhores empregados sabem mesmo qual a preferência de cada cliente fiel, sem ser preciso trocar palavra). Nestes últimos meses, estranho tem sido o silêncio, sem o vapor soprado das máquinas, o roncar dos moinhos e o bruá de gente à conversa.

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Na segunda-feira, 18 de maio, voltaram a ligar-se as máquinas, abrem-se de novo as portas, espraiam-se as esplanadas pelas ruas. Mas para os cafés e restaurantes, tal como em quase todas as outras áreas de negócio, haverá sempre um A.C. e D.C. (antes e depois da covid-19).

Os donos e funcionários terão os sorrisos de boas-vindas escondidos por máscaras, tal como os dos clientes que regressem, saudosos dos seus locais habituais – agora obrigados a manter distâncias de segurança e a higienizar todas as superfícies várias vezes ao dia, entre dezenas de outras normas impostas pela Direção-Geral de Saúde (ver texto no final) e novas recomendações da AHRESP – Associação da hotelaria, restauração e similares de Portugal.

As restrições obrigam as empresas a novos investimentos e a reduzirem significativamente a capacidade de receita, com lotações e horários reduzidos. De caminho, podem perder-se também outros bens essenciais, como a identidade de alguns locais, enquanto espaços de convívio.

É o caso do Café Paraíso, em Tomar, um local emblemático na Corredoura (Rua Serpa Pinto), bem no centro histórico, ali ao lado da Praça da República. É um espaço de tertúlia que assinalou 109 anos de existência a 20 de maio, tendo passado de geração em geração da família Grego.

O café reabriu na terça-feira, dia 19, na véspera do aniversário. Em mais de 100 anos de história, a gerente Alexandra Grego Vasconcelos disse ao mediotejo.net  que “nunca aconteceu uma situação de fecho do café” por força de qualquer calamidade ou situação de saúde pública, ou similar. Lembra, por exemplo, o caso da Gripe Espanhola.

Por ocasião do centenário fez uma buscar em diversos jornais e documentos e afirma não ter encontrado nenhum indício de que tenha fechado portas ao longo da história. “Há quem diga que, a certa altura, o meu avô, então proprietário do espaço, fez obras no café e, até durante essas obras, os clientes frequentavam o local e consumiam”, conta.

O Café Paraíso, em Tomar, celebra 109 anos de vida a 20 de maio de 2020. Foto: DR

O espaço costuma ter mais de uma centena de pessoas, enchendo ao fim-de-semana. Com as limitações e restrições, passará para cerca de 60 a lotação máxima. “Tivemos que dispor a sala de outra maneira, reduzimos o número de mesas e cadeiras. Deixámos 2 metros entre as mesas”, indica a gerente.

A própria identidade do espaço, um “café de tertúlia”, vai acabar por ser beliscada pelos condicionamentos impostos. “Vai ser uma realidade estranha… as pessoas já não vão poder juntar-se à mesa, para estar a conversar. Nem sei como vai ser!”, admite.

Por outro lado, teme-se o acréscimo de responsabilidade sobre os clientes, garantindo e fiscalizando que as medidas impostas são cumpridas à risca. “Vamos ver… há sempre rebeldes, e há pessoas difíceis.”

Em termos do impacto económico previsto, começa por sentir-se desde logo pela menor lotação e pela redução do horário de funcionamento. “Teremos de fechar às 23h. Vamos manter três funcionários em lay-off, e outros três em atividade”, disse, dando conta de alguns ajustes necessários a este recomeço numa “nova normalidade”.

Alexandra diz que os clientes “estão sempre a perguntar pela reabertura do café” e demonstram “saudades do Paraíso”, o que lhe deu algum ânimo para enfrentar esta fase mais difícil. Se por um lado prevê que não terá o mesmo número de turistas, nomeadamente estrangeiros, nesta altura e no verão, diz manter a esperança de que as coisas se encaminhem e a pandemia vá enfraquecendo, como se assiste noutros países europeus já em desconfinamento.

A esperança reside também nos indícios de que os portugueses optem por fazer férias “cá dentro”, e passem pelo Interior do país, ajudando a dinamizar a economia local.

Restaurante ‘O Bigodes’, em Ortiga, Mação. Foto: mediotejo.net

O convívio foi também sempre uma imagem de marca no restaurante “O Bigodes”, em Ortiga, Mação, um ícone da gastronomia regional, servindo o tradicional arroz de lampreia, peixe do rio e pratos de carne de caça.

José e Joaquina António, que abriram o restaurante em 2015 no antigo espaço afamado “Kabra’s Bar”, prometem um regresso “com exigência e rigor”, para reconquistar clientes e enfrentar a crise.

A lotação definida foi de 50%, e o espaço foi adaptado. “Não vamos tirar mesas, pois não temos onde as guardar, mas vão ficar reservadas de maneira que as pessoas fiquem com as distâncias exigidas”, garante José.

Além disso, vai “deixar entrar famílias que se queiram juntar, e nada mais”, referindo-se a outros ajuntamentos que antes eram frequentes, desde festas de aniversário, jantares de amigos ou de grupos, entre outros.

Para já, poucas foram as pessoas que contactaram para saber da reabertura. José admitiu não ter feito publicidade ainda, querendo seguir passo a passo, um dia de cada vez. “Estamos preparados com desinfectantes, com tudo o que é exigido por lei. Mas claro que há receios, da nossa parte e certamente dos clientes”, assumiu.

Em termos económicos e financeiros, as coisas não estão nada fáceis. Com uma folga semanal, e apenas com alguns dias (não mais de cinco) de férias anuais, no restaurante trabalhava-se praticamente o ano todo, dando para equilibrar as contas e manter a atividade.

“O que tínhamos [amealhado] foi-se”, lamenta José António,  afirmando que “a sorte” foi o apoio dado pela Câmara Municipal de Mação aos empresários e comerciantes, nomeadamente os apoios nos pagamentos de rendas, de IMI sobre imóveis que são propriedade de empresas/espaços comerciais e a isenção da fatura de água, RSU e saneamento durante os meses de março, abril e maio.

“Estamos muito agradecidos. [A Câmara] pagou-nos meia renda, ofereceu a água através de isenção e está a acompanhar-nos na parte dos procedimentos de desinfeção e higienização do espaço. Deixo um grande agradecimento à autarquia e ao presidente”, disse.

Os custos acrescidos com materiais e produtos desinfectantes, além das limpezas profundas e tratamentos durante o fecho são, para já, impossíveis de contabilizar. “Mas foi um investimento de largas centenas de euros…”, suspira, fazendo contas de cabeça.

Para José ‘Bigodes’ ninguém está preparado para uma crise repentina como esta. “Nenhum restaurante ou bar pequeno estava preparado para isto… A nossa sorte foi ter a quem recorrer, se não… não conseguíamos voltar. E há muita gente que sabemos que não vai conseguir abrir”, lamenta.

O proprietário do restaurante refere que contou ainda com a compreensão da senhoria, que arrenda o espaço, e foram feitos acordos. Também no que toca à eletricidade, conseguiu renegociar. O objetivo agora é tentar recuperar, fazendo algum dinheiro e ir pagando os gastos, até porque, diz, “não há outra hipótese”.

“Vamos exigir de nós próprios o máximo de cuidados, de procedimentos, para que as pessoas venham e se sintam bem. Queremos que estejam à vontade”, afiança.

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Também o procedimento de acesso ao restaurante foi alterado. “Não vamos proceder às habituais marcações, vamos fazer atendimento conforme ordem de chegada e a espera vai ser efetuada com distanciamento, tal como sucede noutros serviços. Com lotação a metade, temos de garantir que conseguimos manter dinâmica de atendimento em todas as mesas disponíveis, especialmente ao fim-de-semana.”

José António afirma que o lema é “continuar a fazer um bom serviço”, mas com muito mais cuidados. “Temos de tomar precauções e ir tratando sempre bem o cliente, garantindo o reforço de limpezas e desinfeções. Temos de voltar a reconquistar o cliente, dando-lhe motivos para confiar em nós e no trabalho que desenvolvemos neste período instável.”

O empresário José Ferreira em frente ao restaurante Almourol. Foto: mediotejo.net

As relações de confiança com os clientes são fundamentais para o futuro da maioria dos negócios e foi também a pensar nisso que José Ferreira apostou na presença assídua nas redes sociais, ao longo do tempo de encerramento, para que não esquecessem o restaurante Almourol, em Tancos, no concelho de Vila Nova da Barquinha.

“Podemos ter as portas fechadas nestes dias, mas estamos sempre de coração aberto!” Durante o período de encerramento, José Ferreira marcou presença constante nas redes sociais sempre a promover o seu restaurante à beira Tejo, a ementa, as novas experiências gastronómicas, além de entrevistar clientes, músicos e antigos e atuais funcionários, em sessões a que chamou “Equipa Almourol à conversa”. Aproveitou para promover o cartão cliente e as suas vantagens, bem como uma nova modalidade de vouchers, com marcação de lugares. A par disto lançou passatempos e sondagens, sempre numa lógica de interação com atuais e potenciais clientes.

Para José Ferreira “estes são tempos de nos unirmos e, mais do que nunca, de mantermos o contacto e de partilharmos com os outros, cada um de nós, aquilo que sabemos!” A sua equipa encarou como um desafio esta fase e testou a sua capacidade para se ir ajustando às adversidades, diz.

O restaurante esteve a trabalhar para reabrir no dia 18 de maio com o obrigatório cumprimento das novas regras definidas pelo governo. Com o bom tempo a aproximar-se, o Almourol vai apostar sobretudo nas potencialidades da sua esplanada, parcialmente coberta com uma pérgola, em que a vista para o rio Tejo e a aldeia do Arripiado (Chamusca), na margem oposta, é uma das suas imagens de marca.

A aposta continuará a ser numa cozinha essencialmente tradicional, “pratos diferentes, alguns à moda antiga”, como explica o gerente. O grelhador já está a postos para a nova época que se avizinha, com o peixe do rio em destaque na ementa.

“Estamos ansiosos para voltar a receber-vos! Em breve matamos saudades”, escrevia sempre José Ferreira no Facebook, nestes últimos meses. O “breve” concretizou-se, finalmente, esta semana.

As refeições vegetarianas marcam a ementa do Val – Casa de Comeres, em Abrantes

A esplanada é também a aposta do restaurante VAL, no centro histórico de Abrantes, que era ainda um “recém-nascido” quando a pandemia lhe travou os primeiros passos. Com apenas 28 metros quadrados, este espaço de refeições saudáveis, vegetarianas e veganas terá a sua lotação reduzida em muito mais do que os 50% preconizados pelas normas da DGS: para assegurar a distância de dois metros entre clientes, dos 17 lugares sentados que tinha poderá manter apenas cinco. Os 14 lugares da esplanada, agora alargada com a permissão da Câmara Municipal e do proprietário do edifício, serão determinantes para a viabilidade do negócio, a par do serviço de ‘take away’.

Além das dificuldades na gestão do espaço, a gerente-cozinheira-empregada Paula Val refere também os investimentos realizados para poder abrir portas, nomeadamente em material de desinfeção e de proteção individual. Mas nada seria pior do que manter as portas fechadas, sem qualquer rendimento.

No seu caso, como no de tantos locais de restauração, foi na terça-feira que voltou a afixar a ementa (que varia diariamente) e poderá receber os clientes dizendo algo que, nos tempos A.C., parecia tão banal, e agora a encherá de alegria: “Faça favor de sentar-se.”

No Bonito, no Entroncamento, há duas mesas para duas pessoas, em vez de uma, aumentando o espaço entre os clientes. Créditos: DR

Também os muitos clientes fiéis da cadeia Trincanela, nos 13 espaços que têm nas cidades de Torres Novas, Tomar, Abrantes, Castelo Branco e Entroncamento, podem matar saudades dos cafés e restaurantes desde esta semana, com aberturas faseadas até ao dia 1 de junho (caso dos espaços no TorreShopping, por exemplo).

“As medidas que tomámos foram para além das decididas pelo governo, com a responsabilidade de zelar pela saúde dos nossos colaboradores e clientes”, diz Luís Correia Pires, que já havia adaptado todos os espaços antes do país entrar em “Estado de Emergência”, a 18 de março.

O Grupo Correia Pires, que detém a Grão Café e a cadeia Trincanela, tem 125 colaboradores, dos quais 108 trabalham nos espaços de restauração.

Há dois meses, apesar das dificuldades e sem saber quando poderia reabrir os espaços, Luís Correia Pires não se deixava desanimar: “Haverá vida para além do Covid-19!”, disse ao nosso jornal. Brindemos pois, a essa nova vida, que agora recomeça.

Muitos restaurantes não vão reabrir

As exigências impostas pela DGS para prevenção da covid-19 levaram muitos empresários a decidir encerrar os restaurantes definitivamente. Serão já cerca de 15% dos espaços existentes a nível nacional, segundo a Associação de Restauração e Hotelaria. Na região, um dos que não volta a abrir portas é o ‘Sabores de Guidintesta’, em Belver, no concelho vizinho de Gavião.

Também o restaurante ‘Bertolina’, no Pego, ficará fechado, pelo menos até final do ano. Vai manter-se apenas em regime de “take away” e “depois logo se vê”, diz ao mediotejo.net Júlio Vitória, filho da senhora Bertolina, proprietária que dá nome a um dos mais populares restaurantes de comida tradicional da Aldeia das Casas Baixas, há mais de 30 anos a servir o famoso cozido ou o tão português bacalhau com couves.

Júlio Vitória diz que, com estas exigências, não era viável nem rentável abrir o restaurante ao público. “A sala é grande mas o distanciamento de dois metros de mesa para mesa” implica uma redução substancial do número de clientes, por isso, “não vale a pena ter aqui os empregados”, assegura. Os quatro funcionários foram despedidos. “Fico a trabalhar eu, a minha mulher e a minha mãe. O café é para manter aberto, podendo servir algum petisco”, diz.

DGS recomenda reservas antecipadas e uso de esplanadas

Entre as medidas a adotar, a autoridade de saúde destaca a redução da capacidade máxima do estabelecimento em pelo menos 50%, por forma a assegurar o distanciamento físico recomendado entre as pessoas, privilegiando a utilização de áreas exteriores, como as esplanadas (sempre que possível) e o serviço ‘take-away’.

Créditos: Unsplash

A disposição das mesas e das cadeiras “deve garantir uma distância de, pelo menos, dois metros entre as pessoas, mas os coabitantes podem sentar-se frente a frente ou lado a lado, a uma distância inferior”. As empresas devem impedir que os clientes modifiquem a orientação das mesas e das cadeiras, permitindo que os trabalhadores o façam, mas sempre garantindo a distância necessária.

A DGS recomenda também que, sempre que possível e aplicável, seja promovido o agendamento prévio para reserva de lugares. Devem privilegiar-se também os pagamentos por cartão, para não ser manuseado dinheiro, e estão desaconselhados os lugares de pé, tal como as operações do tipo ‘self-service’, como ‘buffets’.

A limpeza e desinfeção dos espaços deve respeitar as orientações anteriormente emitidas pela DGS, sendo que os proprietários devem desinfetar, pelo menos seis vezes por dia, todas as zonas de contacto frequente (maçanetas de portas, torneiras de lavatórios, mesas, bancadas, cadeiras, corrimãos).

O mesmo deve ser feito com “os equipamentos críticos (tais como terminais de pagamento automático e ementas individuais”, após cada utilização.

A orientação estabelece também a necessidade de higienização das mãos com solução à base de álcool ou com água e sabão à entrada e à saída do estabelecimento por parte dos clientes, que devem respeitar a distância entre pessoas de, pelo menos, dois metros e cumprir as medidas de etiqueta respiratória.

Os funcionários têm de usar máscara e os clientes devem também usá-la, exceto durante o período de refeição, e evitar tocar em superfícies e objetos desnecessários.

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